Perfeição

 Posted by at 1:28 pm  Pergunte ao Monge
set 152010
 

Por que sempre procuramos defeitos nas coisas? (Natália “Poli” Amaral Antunes)

Simples, minha querida Poli: não sabemos lidar com a perfeição, de jeito nenhum. Ela é apenas um conceito abstrato, uma bela ideia evocada por diversas vezes ao longo da vida. Nada mais que isso. Mesmo assim, nós a buscamos, por vezes ferrenhamente. E quando finalmente achamos que alcançamos o patamar mais elevado possível na escala da perfeição, não demora até que tudo desabe perante um simples sopro, uma simples observação. Porque quando a encontramos, não sabemos o que fazer com ela.

Assim, achar defeito em tudo é algo perfeitamente natural. Para alguns, um hobbie. Para outros, é mais um defeito a ser encontrado nas pessoas. Nada mais chato do que aquele cara que critica tudo, como se nada nunca estivesse bom o suficiente para ele. Mas ele sabe muito bem que o mundo não é perfeito, e regozija-se em apontar isso para os outros. Sim, ele é um chato, mas também pode ser muito útil para o grupo. Porque mesmo que estrague a diversão, ele fatalmente irá reparar nos detalhes que ninguém mais nota, o que pode salvar alguns de situações inconsequentes, que tem tudo para dar muito errado. Mesmo que ele só tenha falado para estragar a diversão do pessoal.

De qualquer forma, reconhecer que alguma coisa não é perfeita não é necessariamente só reclamar e viver de mal com o mundo. A questão aí é qual o efeito daquele defeito na sua vida. Parabéns, você constatou que o seu curso na faculdade está longe de ser perfeito. Ou que aquela menina fantástica com quem você está saindo tem chulé e gases noturnos. Ou mesmo percebeu, depois de reparar muito, que o quadro pendurado no saguão de entrada do seu prédio pende levemente para a esquerda. E daí? Acabou o mundo só porque você notou estes defeitos em algo que você valoriza?

Era perfeito até aquele momento, e agora não é mais. Ufa, não é? Não é confortante saber que os defeitos existem? Porque a perfeição ou é uma ilusão, mascarando os defeitos que aquela pessoa ou situação fatalmente possuem, ou é o prenúncio da decadência. Assim como o caminho histórico das civilizações. A ascensão, o ápice perfeito e a o declínio. O que também é pura física. E é o ciclo natural também. A natureza é um sistema extremamente funcional, mas está longe de ser perfeita. Prova disso somos nós, humanos, que viemos dela. E talvez sejamos os responsáveis por sua queda.

ago 032010
 

Lendo sua resposta a ultima pergunta sobre (auto) ajuda, refleti e simplesmente veio uma coisa. Então me responda: por que, NECESSARIAMENTE, temos que ter problemas? (Hélio “Zitto” Sbroion Rocha)

Simples, se não há problema, também não há solução para nada. E a vida não se transforma, fica a mesma coisa de sempre, que se vai levando sem nem saber para onde. Sem percalços, sem amarguras. Mas também sem alegria. Nada mais chato do que uma existência isenta de conflitos.

Toda criação humana tem por finalidade a solução para algum problema. Construções, meios de transporte, roupas, ferramentas e dispositivos. Tudo isso foi inventado para resolver questões práticas, que de outro modo seriam impossíveis ou extremamente custosas de serem realizadas. A inventividade é a principal característica do ser humano, embora a modificação e utilização dos recursos do ambiente estejam presentes no comportamento de diversos animais – castores, abelhas, macacos etc. Mas ao contrário do bicho homem, os outros bichos não aprendem nada com isso, suas determinações são puramente genéticas. Já o ser humano gosta de inovar. Constrói casas quadradas, redondas, triangulares. Inventa um dispositivo de transporte sobre rodas e o faz em milhares de modelos diferentes. Usa e abusa das cores, formatos e materiais. É a inquietude da criatividade, sempre buscando novas possibilidades.

E é exatamente para isso que os problemas servem: dar espaço a novas possibilidades. Em todos os aspectos da nossa vida. A necessidade é a mãe da invenção, e os conflitos são necessários para que possamos inventar nosso próprio caminho. É o processo que as mães costumam chamar de “amadurecimento”, a arte de caminhar com as próprias pernas. E resolver os próprios problemas.

Em tempo: leitores dirão que o Monge enganou-se ao considerar que tudo que nós criamos tem a função de solucionar algum conflito prático. E evocarão as artes, nossos patrimônios culturais para dizer que estou errado. A questão, no caso, é que a beleza, a estética, a poesia, são criações com o intuito de resolverem os mais delicados dos problemas, aqueles que doem e afligem a alma.

jul 132010
 

Por que as pessoas precisam da rotina em suas vidas? (Jorge Flávio)

A rotina é uma bela forma de controlar a própria vida, não é? Acordar de manhã, tomar o mesmo café de todos os dias, correr para o trabalho ou estudo, almoçar praticamente nos mesmos lugares (seja em casa ou no boteco da esquina do escritório), trabalhar mais, voltar para casa, tomar banho, jantar, assistir a novela e cair na cama. No dia seguinte, a mesma coisa, com mínimas variações. E mesmo quando se odeia com todas as forças a própria rotina, sabemos que enquanto aquilo perdurar, diariamente, a vida estará sob controle. É melhor um comodismo confortável do que a liberdade sem perspectivas, e isso nos é ensinado desde a infância pelas sagradas instituições doutrinadoras: família, religião, escola e televisão.

Animais também possuem rotina, pode reparar. Muitos precisam dela, mais ainda do que o bicho homem. A natureza é cíclica, e faz-se necessário acompanhar o ciclo diário – ou semanal, mensal etc. – para sobreviver. Exemplo besta: imagine um animal que se alimente exclusivamente de corujas, sei lá, uma espécie de gato do mato de paladar excêntrico. Creio que algo assim não existe, mas é só para ilustrar o raciocínio. Pois bem, esse gato do mato não irá obter seu alimento na hora que bem entender, não poderá caçar uma coruja ao meio dia, simplesmente porque não há corujas disponíveis neste horário. Ele precisará esperar até o anoitecer, quando suas presas alegremente sairão de seus covis para suas atividades noturnas. É preciso adaptar-se ao ritmo natural das coisas, e os animais entendem isso bem melhor do que a gente.

Pois embora não pareça à primeira vista, é isso que a rotina significa: adaptação. Encaixar-se num ritmo pré-estabelecido (mesmo que por nós mesmos) para obtermos o máximo possível de sustento em um determinado meio. A diferença é que, enquanto os animais adaptam-se ao ambiente natural, nós humanos substituímos a natureza por outro contexto ainda mais predatório, chamado civilização. Nela, o individuo que não se encaixa em algum dos padrões estabelecidos – e a civilização oferece vários padrões, numa ilusão de que existe liberdade de escolha – não poderá considerar-se parte ativa da sociedade. Aceite a rotina do cotidiano, execute-a com precisão, como todos fazem, na melhor tradição positivista.

No entanto, outra coisa que distingue o bicho homem dos demais bichos é a nossa capacidade de vislumbrar, mesmo que de relance, o que existe além do dia a dia. Um animal não irá abandonar seus hábitos e seu território, a não ser quando forçado pelo meio. Já o ser humano é marcado por essa ânsia de algo mais, de jogar tudo para o alto para correr atrás de alguma coisa que nem ele sabe direito o que é. Ao final, parece que toda rotina humana é construída para ser quebrada em algum momento. O problema é que facilmente nos esquecemos disso. Assim penduramo-nos no cotidiano, como se nele encontrássemos algum alívio para nossas angústias. E muitas vezes o conforto que buscamos está exatamente além.

Porquês…

 Posted by at 2:28 pm  Pergunte ao Monge
jun 232010
 

Monge, por que tantos porquês? (Luiz Fernando “Liws”)

Por que tantos porquês? Qual o problema com a capacidade do ser humano em indagar? Se não fizéssemos tantas perguntas sobre o mundo que nos cerca, será que conseguiríamos chegar até onde chegamos? Nossa civilização teria se desenvolvido da maneira como é hoje? Aliás, haveria alguma civilização? Será que não estaríamos ainda no tempo dos macacos, aceitando a natureza da maneira como ela se oferece, ao invés de tentar modificá-la seguindo as nossas dúvidas quanto à funcionalidade do ambiente? E isso seria uma coisa ruim?

Se perguntar não ofende, por que tem tanta gente que fica indignada quando é perguntada sobre alguns assuntos? Estaria a nossa capacidade de oferecer respostas diminuindo cada vez mais, conforme aumentam os questionamentos? Ou será que tem assuntos que ninguém quer dar a resposta? Há alguma resposta para estes assuntos? Será que o leitor desta coluna também pensou agora em políticos, advogados e banqueiros, principalmente? E se há tanta mentira nestes meios, o que será que eles escondem? E por que dissimulam tanto? Falta de caráter?

Já lhe fizeram alguma pergunta a qual você não sabia ou não queria dar a resposta? Se sim, qual dos dois? Se você não quis dar a resposta, qual foi o motivo? Será que você, caro leitor, também fica desconfortável quando um assunto qualquer faz menção aos seus segredos mais íntimos, mesmo sem querer? Você compartilha destes segredos com alguém? E esta pessoa, compartilha dos segredos dela com você? Isto significa que você não tem só os seus segredos a esconder, mas também os segredos de outra pessoa? Isto lhe incomoda, de alguma forma?

Aonde o Monge está querendo chegar? Não é esta a pergunta que está martelando sua cabeça neste momento? Ou será que você já abriu mão e parou de ler faz tempo, e agora estou escrevendo para algum leitor imaginário? E este leitor imaginário, será que tem imaginação? Se ele existe apenas na cabeça do Monge, não seria justo ele saber que é um ser imaginário? Que criador cruel não daria à sua criatura o dom de compreender o porquê de sua existência, sua verdadeira razão de ser? Mas e se esta criatura não aceitar sua própria condição? Voltaria-se contra seu criador? Este, então, o que faria?

Percebe, leitor, o poder que reside em nossa capacidade de fazer perguntas? Indagar sobre a vida, a morte, a natureza e o universo não seria uma forma de tentar compreende-los? E se eles mandarem uma resposta?