Tédio…

 Posted by at 9:52 am  Pergunte ao Monge
jul 222010
 

Por que há dias em que o tédio toma conta da gente e não fazemos absolutamente nada além de olhar para o teto? (Natália Amaral Antunes)

Hum, é uma boa pergunta. Afinal, vivemos reclamando do tanto de coisas que temos para fazer, da rotina estressante, das obrigações incessantes. E quando temos um raro momento de parar e não fazer nada, reclamamos do tédio! O ser humano é um animal esquisito mesmo.

Tudo bem, o Monge entende que o problema das obrigações é que quase sempre elas constituem-se em coisas que nós não queremos ou não temos prazer em fazer. Lavar a louça, por exemplo. Fora uma ou duas pessoas para as quais lavar pratos é como uma terapia, ninguém realmente tem uma vontade tremenda de encarar a pia da cozinha, menos ainda após o almoço. No entanto, pouquíssimas vezes temos preguiça de fazer algo que realmente gostamos. Namorar, por exemplo. Não falo de ficar do lado aguentando as frescuras da namorada ou do namorado, mas de namorar mesmo, juntinhos, no sofá assistindo a um filme, por exemplo. Gostoso, não é? O problema é quando vira rotina, que é a irmã mais velha do tédio. Há momentos em que nem as coisas que nos dão prazer em fazer possuem o poder de nos tirar da inércia.

É aquela velha história: estar parado cansa. Ficar de bobeira olhando para o teto somente diminui a vontade de fazer qualquer outra coisa. O Monge chama isso de “síndrome de domingo”: a perspectiva de uma segunda-feira de labuta faz qualquer um se entregar à preguiça em definitivo, aproveitando ao máximo cada segundo do sagrado dia de descanso. Ocorre que esses “domingos” muitas vezes são instituídos durante a semana mesmo, principalmente na época das férias. Mas aí não é a visualização do trabalho vindouro que deixa preguiçoso: é o círculo vicioso do ócio, a famosa arte de não se fazer nada.

jul 132010
 

Por que as pessoas precisam da rotina em suas vidas? (Jorge Flávio)

A rotina é uma bela forma de controlar a própria vida, não é? Acordar de manhã, tomar o mesmo café de todos os dias, correr para o trabalho ou estudo, almoçar praticamente nos mesmos lugares (seja em casa ou no boteco da esquina do escritório), trabalhar mais, voltar para casa, tomar banho, jantar, assistir a novela e cair na cama. No dia seguinte, a mesma coisa, com mínimas variações. E mesmo quando se odeia com todas as forças a própria rotina, sabemos que enquanto aquilo perdurar, diariamente, a vida estará sob controle. É melhor um comodismo confortável do que a liberdade sem perspectivas, e isso nos é ensinado desde a infância pelas sagradas instituições doutrinadoras: família, religião, escola e televisão.

Animais também possuem rotina, pode reparar. Muitos precisam dela, mais ainda do que o bicho homem. A natureza é cíclica, e faz-se necessário acompanhar o ciclo diário – ou semanal, mensal etc. – para sobreviver. Exemplo besta: imagine um animal que se alimente exclusivamente de corujas, sei lá, uma espécie de gato do mato de paladar excêntrico. Creio que algo assim não existe, mas é só para ilustrar o raciocínio. Pois bem, esse gato do mato não irá obter seu alimento na hora que bem entender, não poderá caçar uma coruja ao meio dia, simplesmente porque não há corujas disponíveis neste horário. Ele precisará esperar até o anoitecer, quando suas presas alegremente sairão de seus covis para suas atividades noturnas. É preciso adaptar-se ao ritmo natural das coisas, e os animais entendem isso bem melhor do que a gente.

Pois embora não pareça à primeira vista, é isso que a rotina significa: adaptação. Encaixar-se num ritmo pré-estabelecido (mesmo que por nós mesmos) para obtermos o máximo possível de sustento em um determinado meio. A diferença é que, enquanto os animais adaptam-se ao ambiente natural, nós humanos substituímos a natureza por outro contexto ainda mais predatório, chamado civilização. Nela, o individuo que não se encaixa em algum dos padrões estabelecidos – e a civilização oferece vários padrões, numa ilusão de que existe liberdade de escolha – não poderá considerar-se parte ativa da sociedade. Aceite a rotina do cotidiano, execute-a com precisão, como todos fazem, na melhor tradição positivista.

No entanto, outra coisa que distingue o bicho homem dos demais bichos é a nossa capacidade de vislumbrar, mesmo que de relance, o que existe além do dia a dia. Um animal não irá abandonar seus hábitos e seu território, a não ser quando forçado pelo meio. Já o ser humano é marcado por essa ânsia de algo mais, de jogar tudo para o alto para correr atrás de alguma coisa que nem ele sabe direito o que é. Ao final, parece que toda rotina humana é construída para ser quebrada em algum momento. O problema é que facilmente nos esquecemos disso. Assim penduramo-nos no cotidiano, como se nele encontrássemos algum alívio para nossas angústias. E muitas vezes o conforto que buscamos está exatamente além.