set 212010
 

Monge, chegaram à solução do problema: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? (Patrícia Alves, alves.paty@yahoo.com.br)

Querida Paty, esse é um dos dilemas mais antigos e clichês da humanidade. Claro que alguns espertinhos sempre vão dizer “o ovo veio primeiro! Os dinossauros botavam ovos, e eles existiam bem antes do que as aves.” Mas se a questão fosse resolvida fácil assim, não seria um dilema clássico. Supomos, então, que o ovo a qual a pergunta se refere seja justamente um ovo de galinha, visto que é dele que a galinha sai. E é justamente a galinha que bota o ovo, e é esta a raiz retórica do problema. Conceitualmente, quem vem primeiro?

O pessoal da minha geração para cima também costuma chamar esse dilema de “efeito Tostines”, devido a uma variação que ficou famosa em propagandas da marca de bolachas na TV – “vende mais por que é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?”. Nota-se que o princípio é o mesmo. Outro problema similar ocorre entre a humanidade e Deus, que alguns afirmam ser apenas invenção nossa. Ou seja, Deus criou o homem ou o homem criou Deus? Como provar? Como contestar o argumento do outro? Impossível. Ateus e religiosos continuarão se batendo enquanto a humanidade e Deus existirem. Mas se algum dia Deus deixar de existir, saberemos que os ateus saíram vencedores.

Sim, o Monge está enrolando. Ou melhor, está discorrendo sobre o significado social do dilema proposto em primeiro lugar (falei bonito). Aparentemente, ainda não chegaram à solução do problema do ovo e da galinha. Não sei, talvez exista algum artigo na Science ou na Nature a esse respeito, mas o tema ainda permanece obscuro. Ou talvez seja apenas uma truncagem retórica, uma “pegadinha” para exercitar a capacidade lógica do cérebro. Daquelas questões que não tem solução final, e que cada um vai chegar a uma conclusão diferente. Grandes idéias nascem facilmente deste tipo de discussão.

Encerro propondo outra questão do mesmo tipo, só para o leitor pensar: O que aconteceria se Pinóquio dissesse “meu nariz vai crescer agora”?

Do lado de lá

 Posted by at 12:37 pm  Pergunte ao Monge
ago 102010
 

Monginho… depois de reler a sua matéria sobre o porquê das pessoas morrerem, eu me pergunto… ou melhor, pergunto a você, o que será que existe depois da morte? Nos resta virar pó ou ainda temos muito que acertar do outro lado? (Flavia Rossi)

Flavinha minha querida, sua pergunta é exatamente a chave do grande mistério da humanidade. Assim, você compreende porque o Monge não pode responde-la. Não existe uma resposta, pelo menos não neste mundo. Só a encontraremos quando não estivermos mais aqui, o que fatalmente acontecerá com todos nós.

Toda a nossa espiritualidade ao longo da História, toda a nossa compreensão do sobrenatural, tem o objetivo de oferecer algum entendimento desta questão. Um lampejo de compreensão, algo que ofereça conforto diante da inevitabilidade do mistério. Algumas doutrinas e crenças buscam trazer informações mais concretas sobre o outro lado, principalmente através da comunicação com aqueles que já efetuaram a passagem. Ou mesmo com outras entidades, não necessariamente espíritos que já estiveram fisicamente por aqui. Mas com o perdão e o respeito ao espiritismo, às religiões afro-brasileiras, médiuns, contatados etc., não há como considerar essa comunicação como completamente verdadeira.

O Monge não está afirmando que toda sorte de fenômeno desse tipo seja enganação ou charlatanismo. No entanto, quando um médium afirma receber o espírito de alguém que já se foi, estamos lidando com um evento sobrenatural, um fenômeno não previsto dentro da compreensão de realidade de uma determinada civilização. Eventos assim tendem a gerar mais dúvidas do que certezas. E surgem inúmeras explicações, apenas pelo fato de que nenhuma delas possui os meios de ser provada. Ou seja, do ponto de vista “sobrenatural”, “mágico”, “metafísico”, qualquer coisa pode estar acontecendo ali. Pode ser telepatia ou adivinhação, por exemplo. Ou pode ser mesmo uma incorporação genuína, mas se for o caso, ninguém considera a hipótese de que aquela entidade pode estar mentindo? Por que consideramos toda informação que vem do outro lado como concreta?

Respondo: por causa da fé, aquela pequena fagulha existente dentro de cada um de nós. Em alguns ela tem pouca intensidade, em outros ela é alimentada e torna-se uma labareda. E somos nós que escolhemos para onde a direcionamos. Seja cristianismo, espiritismo, doutrinas orientais etc. Pode até ser que orientemos a nossa fé para a ciência e o materialismo. São todos contextos que se propõem dar alguma explicação, algum conforto sobre as grandes questões da existência, sendo a morte a principal de todas elas. Achamos que, quando descobrirmos a verdade sobre o outro lado, poderemos compreender todo o resto do mistério, inclusive de porque estivemos aqui. Talvez apenas retornemos ao pó, à insignificância de não existir mais, e isso em si seria a resposta que buscamos. Ou talvez realmente exista uma razão maior para tudo, mas só descobriremos quando chegarmos ao fim do caminho de cá. Até lá, qualquer explicação dada sobre o que existe depois é puramente uma interpretação, baseada nos modelos humanos de justiça e harmonia. E se o outro lado funcionar de um modo tão mesquinho quanto o nosso, eu prefiro recolher-me à minha humilde inexistência.

jan 272010
 

Segundo notícia do site da BBC, os deputados franceses publicaram um relatório sugerindo a proibição do uso de véus e trajes típicos das mulheres muçulmanas em lugares públicos.

Famosas pelos nomes de burca e niqab, essas vestimentas não são apenas estética. Na crença muçulmana ela serve para tapar as partes “awrah” (aquelas que não devem ser mostradas em público) do corpo dos fiéis. É humilhante para certas correntes do Islã não seguirem tal rito.

Independente de concordarmos ou não com os ritos de outras religiões e crenças, devemos no mínimo, respeitar as tradições alheias. Já dizia o velho ditado: “A sua liberdade acaba onde começa a minha”.

É de uma sovinice sem fim querer dar força de lei às nossas aspirações individuais (apesar disso ser prática corriqueira no mundo ocidental). É o sintoma máximo do que o escritor espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) definiu como “Rebelião das massas”, onde basicamente a “maioria” atropela as “minorias”, impõe seus gostos e suas visões como lei pétrea. Ironicamente – ou não – ele moldou essa teoria enquanto vivia na França.

Como também disse Ortega y Gasset em seu livro “A Rebelião das Massas”, essa maioria passou a fazer tudo que dá na telha, ignorando qualquer consequência que a minoria tenha de arcar. Colocaram suas casas para a sociedade na mesma proporção que seus países se colocaram perante o conjunto de nações: “Faço o que quiser na minha casa, os incomodados que se mudem”. A isso deram o nome de “nacionalismo”.

O problema dessa lei, caso for (por um infortúnio do destino) aprovada, é o precedente que será aberto para o massacre de qualquer valorização e respeito às minorias que restam na sociedade.

Crédito da foto usada no destaque do site: Mohamad Affan