Respeitável público! O Circo Nardoni orgulhosamente apresenta: O Maior Espetáculo da Terra!

Não percam o encanto, a magia, a arte de trasformar um julgamento em showbiz* para a mídia! Confiram cada minúcia, cada detalhe sórdido do crime! As marcas da tela de proteção na camiseta do pai, as manchas de sangue pelo apartamento! A posição de Isabella no momento em que foi encontrada no jardim, a hora exata e a precisa causa mortis da menina! Tudo aquilo que você sempre achou que interessava somente ao juiz, ao júri e aos advogados, mostrado em detalhes especialmente para a sua admiração!

Não deixem de ver as lágrimas dos familiares de ambos os lados, graças às nossas câmeras de altíssima definição! Atentem para o choro dos acusados durante os depoimentos, as marcas de fragilidade e cansaço após quase dois anos na prisão! Com os comentários exclusivos da autora Glória Perez a cada depoimento bombástico!

O picadeiro já está montado! Últimos dias, últimas horas para conferir a grandeza deste espetáculo! Se você é estudante de Direito ou Jornalismo, pegue sua senha, participe do rodízio de público entre profissionais altamente especializados! Ou então, renda-se à fúria popular, misture-se a turba** que aguarda do lado de fora, pedindo justiça e paz em cartazes cor-de-rosa enquanto o julgamento ocorre ali dentro do fórum! Brigue por um lugar bom, se preferir! Esteja bem no meio da bagunça, ou melhor, faça parte dela! Ajude a tumultuar ainda mais o julgamento do caso que comoveu o país inteiro!

* espetáculo que gera lucro

** multidão desordenada

Era uma vez um rato. Ele era cinzento e feio, o bico escuro, as penas esgarçadas. Sim, era um rato de asas, mais conhecido como pombo. Vivia em qualquer canto entre a Catedral de Ribeirão Preto e a praça XV, fazia das árvores, marquises e sacadas a sua casa. Comia o que aparecia: sementes, insetos, pipocas espalhadas no chão do calçadão. Muitos achavam que era até bonitinho, apesar de ser realmente feio, e geralmente lhe arranjavam comida. Outros o detestavam, principalmente aqueles que eram alvo de suas rajadas fétidas. Parecia até de propósito, mas não era, acontece que ele as expelia com muita frequência. Culpa de uma alimentação pouco balanceada.

Pobre pombo. Condenado a viver entre os prédios de concreto, na imundície da cidade grande. Natureza, para ele, eram as poucas árvores das duas praças, as quais ele tinha que dividir com seus colegas de espécie. Superlotação em cada galho, apavorando os transeuntes abaixo. Além de tudo, ainda tinha que suportar o apelido: rato de asas. Sujo, horroroso e transmissor de doenças. Pois a sujeira do dia-a-dia era um ambiente perfeito para diversos parasitas e microrganismos em geral, que infectavam seus amigos pombos e todos que conviviam com eles. Mais um motivo para ser odiado.

Vida curta, existência breve. Ninguém se importava particularmente com ele, tampouco com sua espécie em geral. Mal-visto e indesejado em todo lugar. Havia até mesmo um padre que soltava rojões para espantar todos os pombos, pois a praça da Catedral estava se tornando um local impraticável por causa da sujeira que os acompanhava. Não que tivesse algum outro lugar para ir, nem estava ali por vontade própria. Apenas fugia instintivamente quando ouvia o estouro, para retornar tempos depois atrás de comida e abrigo. Não tinha culpa de ser uma praga urbana.

Esta é uma história atemporal e de ficção.

João não queria votar. Não gostava de se sentir obrigado a escolher representantes para sua cidade, seu estado, seu país. Pensava em como seria bom se as eleições no Brasil fossem como nos Estados Unidos, onde o voto é facultativo. Sai de casa e dá o seu voto no dia da eleição quem quer. João não acreditava em político nenhum, em promessa nenhuma. Sempre tentava viajar em época de eleição. Ia para a casa da família da namorada, que morava em outra cidade. Visitava a tia em São Paulo. Uma vez passou o fim-de-semana do segundo turno das eleições presidenciais na praia, como se fosse um feriado só para ele. Não votava. E injuriava quando era obrigado a comparecer na sua zona eleitoral, pois não é permitido justificar o voto eternamente. Nestas situações, ficava bravo como o diabo por ter que se deslocar até um colégio no centro da cidade, ver aquela sujeira de “santinhos” dos candidatos, que afirmam sempre que não tem nada a ver com aquela papelada que emporcalha as ruas e entope bueiros, pois quem joga os “santinhos” na rua é a população. Pois sim. Mais um motivo para odiar o período eleitoral. Mas mesmo assim João sempre tinha a solução prática, a inviabilização do seu papel como eleitor e que funcionava para ele como um protesto silencioso: votava nulo.

Maria gostava das eleições. Era contaminada por aquele espírito que a mídia chama de “festa da democracia”. Sentia-se importante, parte ativa da sociedade. Era bem informada sobre os candidatos e suas propostas, sem jamais se ater a ideologias ou partidos. Em uma determinada eleição presidencial havia dado seu voto nos dois turnos a um certo candidato, porém quatro anos depois votou no candidato que se opunha às ideias do primeiro. Não que fosse incoerente nem facilmente manipulada, pois Maria era fiel à sua própria lógica. A cada eleição, dava seu voto àqueles cujas propostas melhor se posicionavam na busca de soluções para os problemas tanto dela quanto da sociedade. Claro que tinha suas preferências, mas nunca se sentiu presa. Gostava dessa liberdade, da possibilidade de escolher quem ela quisesse. E ela sempre escolhia. Jamais votara nulo ou em branco, achava um desperdício da participação ativa no processo democrático. Sempre haveria um candidato que poderia valer a pena.

Mais um ano eleitoral chegou e passou, novos e velhos representantes foram eleitos. Tempos depois, intrigas, baixarias e muita sujeira. O país tornava-se um caos, a política afundava na sua própria lama. Conflitos e passeatas por todos os lados. João, no conforto de sua casa, assistia a tudo aquilo estupefato, com uma expressão que dizia “eu sabia, político nenhum presta”. Estava triste, mas a responsabilidade não era dele, não havia votado em nenhum daqueles canalhas. Maria, por sua vez, remoia sua mágoa. A maioria dos candidatos no qual votara estava envolvida no redemoinho de escândalos. Doía sentir-se responsável, mas alguma coisa dentro dela dizia que não havia motivo para tanta culpa. Considerava a picaretagem e a bandidagem política como um ato de traição por parte daqueles em quem acreditou e depositou suas esperanças de um futuro melhor para a nação. Nas eleições seguintes, quem sabe as coisas podiam melhorar. Acreditava nisso, atinha-se a esse sentimento a cada quatro anos. E ainda havia as eleições municipais…

Moral da história: na política brasileira, nem sempre o problema está no eleitor.

Palavras Soltas

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