jul 272010
 

Sempre fui apaixonada pelos vilões (ou pelos transgressores) dos filmes. Por que os bad boys ou bad girls (do cinema, da música, ou mesmo na vida real) fascinam tanto? (Penny Lane)

Bad boys e bad girls sempre estiveram entre os personagens mais queridos da ficção, seja no cinema, na literatura, na música etc. É o contraste com o personagem “bonzinho”, que não tem defeitos (salvo uma ou outra insegurança sobre se realmente ele é o “herói” que todos esperam que seja). O bad boy impõe respeito, sabe o que quer e não se deixa intimidar (ou pelo menos nunca se mostra intimidado…) Bad girls, então, serão sempre misteriosas, mulheres fatais, que botam qualquer homem aos seus pés. São personagens que não se revelam por inteiro, preferindo quase sempre mostrar uma faceta agressiva. Não que sejam rasos ou desprovidos de conflitos, mas geralmente não expõem suas fraquezas para qualquer um. E cá entre nós, o próprio fato de agir como “mau”, de colocar-se em confronto com a sociedade e suas regras, já parece um defeito em si, o que dá o charme necessário ao personagem.

Sejam vilões ou anti-heróis, os badasses* acabam conquistando justamente por serem “do contra”, jamais se curvando ao que não lhes interessa. É a cultura da transgressão. Qual menina nunca suspirou pelo Sawyer de Lost, preferindo-o mil vezes ao médico bom moço Jack (por mais que ele tenha se esforçado em parecer mau também)? Qual marmanjo nunca babou rios pelas femmes fatales** do cinema, seja uma espiã dos filmes do James Bond ou mesmo Jessica Rabbit, a personagem de desenho animado mais curvilínea de todos os tempos? Claro, no caso das bad girls, o segredo é saber aliar o olhar fatal ao aspecto frágil, demonstrado sutilmente em momentos escolhidos a dedo, geralmente quando ela está sozinha com o herói. A contradição entre a sensualidade e a fragilidade femininas é um dos arquétipos mais explorados em todas as culturas humanas. É só olhar para o universo da música, principalmente no cenário da música pop, tendo Madonna como referência mor (todas as outras são cópias baratas).

No mundo real, bad boys e bad girls não são tão estereotipados assim, mas bem que existem alguns que tentam. O problema maior é que, na ficção, a história já está contada, todos os atos de cada personagem tem as suas consequências estipuladas pelo autor, assim como suas relações, seus vícios, dores e amores. Ou seja, um personagem badass só fará mal a quem o autor quiser, todos os seus atos são medidos de acordo com a condução da história. Na vida real, não funciona assim. As consequências de nossos atos não seguem apenas uma lógica individual, a sociedade é muito mais complexa do que uma obra de ficção. Então fazer cara de mau para todo mundo, chutar o cachorro, quebrar o balcão do bar e entupir-se de drogas sortidas pode ter consequências bem piores do que despertar o respeito e a admiração da pequena groupie, que se arrepia toda quando  chega perto de seu ídolo roqueiro. Mal sabe ela que ele também é um personagem, muitas vezes construído por outras mentes que não a dele mesmo. O problema é justamente quando se acredita demais na fantasia.

*badass, expressão em inglês que indica uma personalidade agressiva

** femme fatale, expressão em francês, literalmente significa “fêmea fatal”

*** a expressão em inglês Bad to the Bone, vista no título, significa “mau até o osso”, e é o nome de uma canção de George Thorogood and the Destroyers

jul 092010
 

Por que os clássicos literários estão fora de moda? É só ver a baixa repercussão que teve a morte de José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a ganhar um Nobel de Literatura, frente a outros fatos, como essa história bizarra do jogador do Flamengo que assassinou a amante… (Flávia Rossi)

Ora bolas, quem mais tem tempo de parar e ler um livro atualmente? Não são só os clássicos que estão fora de moda, toda a literatura foi-se embora do gosto popular já há algum tempo. O livro em si tornou-se uma mídia ultrapassada. Pouco prática, desconfortável. Todas aquelas letrinhas, as páginas todas iguais… Fora o peso de cada um, que absurdo! Para que vou carregar quatro livros na mochila, se no meu laptop eu posso ter baixado toda a coleção de Machado de Assis? Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba, todos estão ali, a um clique de distância. Agora, se eu vou lê-los todos, isso já é outra história.

Quanto a Saramago, sua morte foi bastante sentida entre a população lusitana. Na Copa mesmo, a seleção de Portugal prestou uma homenagem ao seu maior escritor contemporâneo. É, passou rapidinho no canal de esportes, entre as curiosidades estatísticas sobre as seleções de uniforme vermelho e uma alfinetada no Dunga. E no Brasil, todos os intelectuais de algum modo relacionados com a boa literatura também lamentaram a morte do escritor. Todos os dez.

Não há como negar a importância do escritor português na literatura mundial, fato. Ele entraria para a História se as populações futuras fossem chegadas à leitura dos clássicos, o que parece bastante improvável pelo andar da carruagem hoje. Particularmente nunca gostei de ler Saramago, o estilo corrido de sua prosa não me apetece muito. Prefiro a beleza das pausas e pontuações. Sem pressa. Um contexto de cada vez. Mas como o Monge nunca recebeu um prêmio Nobel…

Quanto ao caso do goleiro do Flamengo… Sem comentários. Não há santo no meio desse rolo todo,  apenas o bebê. É interessante observar, do ponto de vista sociológico, como uma série coisas erradas fatalmente culmina em algo muito mais grave. Mesmo assim, duvido que há quem goste de ter essa história empurrada goela abaixo por todos os veículos da grande mídia, principalmente na hora do jantar, com a família reunida e a TV ligada. Perto disso, até a literatura mais indigesta torna-se um prato saboroso.

SOBRE LIVROS, LETRAS E RETICÊNCIAS…

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jan 292010
 

“A alma dorme na pedra,

sonha no vegetal,

agita-se no animal,

e acorda no homem.”

Leon Denis

Inconfidência Ribeirão – Que tal o livro?

O livro é o maior instrumento que a gente tem para obter sabedoria, para obter experiência através das experiências que o livro narra dos outros, pra viajar, pra conhecer pessoas em biografias. Como uma biografia que eu amo de paixão é a do Yves Montand, aquele cantor francês [nota do editor: Yves, cujo nome real era Ivo Livi, nasceu na Itália mas mudou-se para a França logo na infância]. Foi um homem pobre, pobre, pobre. Nasceu e morava nas docas de Marselha e aos poucos ele foi se fazendo. Inclusive ele escreveu poemas e se tornou um grande cantor e uma pessoa muito amada na França.

Inconfidência Ribeirão – Existe uma discussão sobre o jornalismo ser uma forma de literatura. O jornalismo é um registro histórico de determinado fato em determinado espaço de tempo. Não seria então a biografia um jornalismo literário?

Eu acho que é. Tudo que se escreve é literatura. Mesmo que a pessoa não esteja imbuída (convencida) desse espírito. Escreveu é literatura. Mesmo que não tenha valor.
Mas, por exemplo, um livro que leio é aquele de Cabul, “O Livreiro de Cabul”. Você consegue ver como a vida é difícil por aqueles lados e como foi a luta de um filho de um livreiro para conhecer o mundo. E o pai queria que o filho só fosse livreiro, ele tinha várias livrarias. O filho queria sair do Afeganistão, conhecer outras coisas e ele queria aproveitar a viagem de um amigo pra ir ali, no próprio país. Então você percebe como é rígido aquele sistema de educação onde o pai que tem todos os poderes e a luta do filho para se libertar disso.

Brasil – É o país mais belo do mundo. Mas não sei se por conta da colonização portuguesa o povo ainda se encontra fechado pra muita coisa. Não existe solidariedade no Brasil. Existe em campanhas que aparecem na televisão. Aí sim, aí tem. Mas acho que falta muito ainda para o povo brasileiro aprender a ser solidário, verdadeiramente solidário. Escola – Importantíssima, quando bem direcionada  ela ensina, ao menos, a gente a buscar conhecimento. A sentir necessidade de conhecimento. Mas para que isso seja despertado na criança precisa de professores especiais.

Inconfidência Ribeirão – É um paradoxo (aparente falta de lógica), pois o pai proporciona a liberdade da imaginação (com os livros) e tira a física…

Pois é, um paradoxo. Mas isto talvez eu perceba mais para o final do livro. Porque eu não tenho tempo, o tempo livre que eu tenho eu escrevo. Anteontem eu fiz uma poesia, ontem eu já fiz outra.

Inconfidência Ribeirão –Você faz poesia diariamente?

Diariamente. Eu fiz uma hoje, pena que eu rasguei os rascunhos. Eu faço muitos rascunhos. Enquanto eu não encontro a musicalidade certa, as rimas que eu quero, eu não sossego. A minha maior fã é a senhora que trabalha conosco. Porque eu escrevo quando começa a clarear, na madrugada e aí acabo de manhã. Ela chega e logo vou à cozinha e leio pra ela. Ela diz: “Outra?”. Mas ela gosta de todas, não vale.

Inconfidência Ribeirão – Modéstia…

Não é não, eu falo a verdade!

Livro – Acho importantíssimo. Eu tenho vários na minha cabeceira.

Todo dia eu leio um pouquinho de um, um pouquinho de outro. É por isso que eu custo a acabar de ler todos!

Inconfidência Ribeirão – Porque a poesia é como o vinho, quanto mais você pratica, quanto mais você escreve, maior refino se obtém. Principalmente quando usa-se a ironia, que para mim é o tempero da poesia…

É o sal!

Inconfidência Ribeirão – E o livro que mais te acrescentou algo?

Foi a vida de Pablo Neruda, a biografia dele.

Inconfidência Ribeirão – “Confesso que vivi”?

Confesso que vivi! Adorei muito aquele livro, não sei se porquê conheci muito bem o Chile, inclusive onde ele nasceu em Tenuco e a casa que viveu em Valparaíso. Na viagem cheguei a vê-lo em uma praça de Valparaíso. E me arrependo, pois perdi uma excelente chance de falar com ele. Acho que tem outros, mas agora o que me veio a cabeça pra responder foi este… E o “Pequeno Príncipe”! E outro, o “Toi et Moi”, é de Paul Geraldy, um poeta francês. Ele fala nesse livro sobre o amor dele por uma mulher que ele não dá o nome, devia ser a esposa dele. Ela viaja e ele fala sobre a saudade, porque ela não volta… Muito interessante o livro, acho que são quinze poesias só. Ganhei comemorando oito meses de casada com uma dedicatória linda. “Por estes oito meses de felicidade…”

Inconfidência Ribeirão – Nossa! Com oito meses?

Com oito meses. A gente estava predestinado um ao outro.

Inconfidência Ribeirão – Essa certeza… lembro que falei uma vez para uma namorada que o homem acha que sofre quando ele pensa que busca a vida inteira o verdadeiro amor. Mal sabe ele que a pessoa que sente mais dor é a que encontrou. Pois sabe que o momento será finito e o próximo passo a gente não conhece e a dor desse desconhecido é muito maior…

Ele disse uma vez para mim que ele sentiu que ele não poderia me perder numa viagem, quando estávamos indo à Tremembé em um restaurante alemão para comer um pato na laranja delicioso. Então nós tomamos um ônibus no viaduto do Anhangabaú, já estava lotado e estávamos em pé. Teve um momento que o ônibus brecou inesperadamente e ele me segurou. Quando ele me tocou pela primeira vez no ombro ele disse “essa mulher vai ser minha”.

Poesia – A maneira que eu encontrei para desabafar. Ser humano Amo o ser humano.

Quando eu amo o ser humano eu amo, mas também quando eu odeio, eu odeio.

Inconfidência Ribeirão – Falando um pouco da letra, quando foi seu primeiro contato com a poesia?

Ah! Eu me lembro que eu devia ter uns dez anos, talvez onze. Escrevi um poema pra rosas. Porque morava em uma casa que tinha ao lado uma escadinha que você subia e um corredor com um tanto de terra onde minha avó plantava flores. Tinha amor perfeito, violetas e uma roseira. Tinha uma rosa cor de rosa linda e eu fiz uma poesia no meu diário… Que tive a burrice de rasgá-lo! Pois um dia eu cheguei em casa, procurei o diário para escrever e ele estava na mão de um primo meu, debaixo da cama lendo o diário. Fiz minha mãe pedir pra ele. Ela me entregou e eu rasguei. Devia ter umas três poesias nele. Eu escrevia, pois havia trem em Ribeirão e no quarto onde eu dormia eu ouvia o trem, e veja o que é a imaginação de uma criança. Eu balançava como se eu estivesse no trem, viajando…

Inconfidência Ribeirão – É isso que te estimulava?

Isso que me estimulava, o barulho do trem, o apito do trem.

Inconfidência Ribeirão – Reticências…

Tem uma coisa muito interessante em Baalbek [Líbano]. Existiu um templo dos tempos dos romanos acho. Havia uma pequena janela no teto deste templo onde em determinado dia do ano entrava o sol que refletia na deusa de Baalbek, uma coisa assim… Desse templo hoje em dia sobram só três ou quatro colunas de mármore. Você vê como naquele tempo eles tinham uma noção da matemática para calcular isso e de conhecer o movimento do sol, das estrelas…

Pecado – Ah, eu não acredito em pecado. Eu acredito em evolução. Eu acredito que quando uma pessoa peca é porque ela não tem a compreensão necessária de que aquilo ela fez não devia ter sido feito. As pessoas dão aquilo que elas trouxeram de outras vidas. Eu acredito em reencarnação e para mim a existência de Deus é um lento refinar.

Inconfidência Ribeirão – E os escritores brasileiros?

Eu tinha um livro de Olavo Bilac de contos e poesias que ganhei de um namorado, imagine você quando eu briguei com ele eu devolvi! Naquele tempo ainda tinha estas delicadezas.

Inconfidência Ribeirão – Hoje em dia além de não devolver os presentes ainda se pede pensão…

Pra namorado também?

Inconfidência Ribeirão – Configurou união estável tem direito…

Meu Deus do céu, vocês aí cuidado! Mas eu li alguma coisa de Guimarães Rosa, a impressão que eu tenho dele é de ser o químico das palavras, porque ele inventa palavras, ele cria palavras! Eu conheci a segunda esposa dele, que era muito amiga de uma grande amiga minha, uma moça tcheca. Essa moça era nascida em Curitiba, porque o pai dela foi cônsul tcheco nesta cidade. Quando a cidade estava surgindo, eles fizeram consultas a vários países que quisessem mandar imigrantes e lá da República Tcheca vieram muita gente. Ela chegou a voltar pra lá. Eu lembrei de contar a história dela porque é muito interessante. O pai dela conheceu o Guimarães Rosa quando ele ocupou algum posto lá. E quando estourou a guerra, a Segunda Grande Guerra, o Guimarães Rosa voltou para o Brasil e o pai dela pediu para ele trazê-la, cujo nome agora me foge.

Violão – Um instrumento bem brasileiro.

Inconfidência Ribeirão – Na escola, principalmente quando chega perto do vestibular, o contato que o jovem tem com a literatura é sempre forçado. Eles empurram o que alguém considera como o melhor que existe e obrigam jovens sem nenhuma estrutura literária, que estão para escolher o próprio futuro,  a lerem escritores densos, complexos. Isso acaba por gerar um desgosto pela leitura?

É, eles deveriam escolher livros menos pesados.

Amor – Só tive um.

Inconfidência Ribeirão – Como fazer o jovem gostar da leitura?

Eu tive uma experiência em um colégio. Uma parente que lecionava me convidou para falar com duas classes de terceira série [do Ensino Fundamental]. As crianças queriam conhecer algum escritor. Ela comentou sobre mim e eles ficaram entusiasmados. Eu fui, levei um dos meus livros. Expliquei como se escrevia, sobre versos, rimas. Um questionou “O que é rima?” – São palavras que combinam e por aí foi.
A professora questionou se eles, agora que sabiam o que era uma poesia, se gostariam de escrever uma. Todos quiseram. Ela distribuiu as folhas e eles escreveram. Tinham apenas oito anos, saíram textos fantásticos!