O MELHOR TEXTO DA CIDADE – com SIDNEI QUARTIER

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jan 292010
 

(publicada originalmente na edição 5 – junho de 2009 – primeira quinzena)

Aos 15 anos de idade, Sidnei Quartier, natural de São José do Rio Preto, já dava seus primeiros passos no jornalismo. Aos 25 suas matérias faziam filas dobrarem o quarteirão para serem lidas. Hoje, após mais de 40 anos de profissão ele continua a trazer o melhor do jornalismo para Ribeirão Preto.


Inconfidência Ribeirão –
Sidnei, quando e como você começou a trabalhar com jornalismo?
Comecei há muito tempo. Eu tinha quinze anos e escrevi uma carta para uma rádio de São José do Rio Preto, a Rádio Independência, dizendo que eu gostaria de trabalhar em rádio.  O cara pediu para eu ir lá com a mentalidade de “quem é esse maluco de quinze anos?”. Daí, eu comecei a escrever os programas esportivos de rádio. Naquele tempo, tinha o “gravador geloso”, com o qual se gravava os noticiários esportivos da Rádio Bandeirantes. Depois de gravado eu transcrevia para texto e fazia o texto do programa que os locutores liam. Foi assim que eu comecei: gravava os noticiários esportivos e escrevia à máquina para os locutores da rádio lerem.


Inconfidência Ribeirão –
E por que surgiu esse interesse?
Meu pai sempre trabalhou em hotel e trazia para casa a revista Seleções. Havia muitos professores que passavam por esse hotel. Naquele tempo havia a Universidade de Letras de Rio Preto que foi fechada pelo golpe de 1964, então tinha muitos professores italianos lá. Meu pai trabalhava no hotel e os professores deixavam muitos livros, também eram muitas Seleções que meu pai trazia para casa. Eu comecei a ler estragadamente todas. Além disso tinha meu tio, o padrinho Alfredo, que possuía assinatura perpétua da Folha. Eu lia tudo, então fiquei cercado de boas comunicações. Acho que o caminho foi esse, foi aí que eu comecei a ter um pouco de intimidade, porque eu era moleque, tinha 10 ou 12 anos e já lia tudo isso. Acredito que não era tão normal para a época.

Inconfidência Ribeirão – Após a Rádio Independência você foi para onde?
Eu fiquei um pouco em Rio Preto. Trabalhei em rádio, virei repórter esportivo, cobria jogos, entrevistei um monte de gente como Pelé, Rivelino, Carlos Alberto. Aí o mesmo cara que me contratou em Rio Preto veio para Ribeirão e eu vim com ele. Vir para cá foi o segundo salto na minha carreira, o primeiro foi entrar para a rádio Independência, o segundo foi a vinda para cá junto do Sérgio de Souza. Eu vim para trabalhar em rádio também, na Colorado, que não existe mais, logo em seguida fui para a Rádio 79 e, ao mesmo tempo, em 1973, fui trabalhar no Diário da Manhã. E aí foi. Em 1973, chegaram a Ribeirão Preto o Sérgio de Souza e o José Hamilton Ribeiro. O Sérgio de Souza tinha feito a maior revista que esse país já leu: a Realidade. Ele e o José Hamilton! Aí, com o Sérgio, comecei a aprender o que era jornalismo impresso. Aí eu me dediquei só ao jornalismo, trabalhei no Diário um bom tempo. Em 1974 já me tornei correspondente do Estadão aqui e só saí do Estadão em 89. Trabalhei de 74 a 89, mas fui registrado 4 ou 5 anos só. Depois, fui para a Folha. Além disso trabalhei em Salvador, Belo Horizonte; também fui assessor de imprensa de políticos.

Inconfidência Ribeirão – E o que você prefere? Ser repórter?
Ah eu gosto de ser repórter. Eu me dou bem, mesmo tendo feito assessoria eu prefiro ser repórter. Trabalhei em Brasília também, trabalhei um ano e meio para o Congresso Nacional. Lá foi tudo normal. Foi justamente na época em que o Antônio Carlos Magalhães renunciou para não ser cassado.

Inconfidência Ribeirão – Você acredita que a grande mídia só investiga o que interessa a eles?
Em maior escala sim. A Veja é o maior exemplo. Eu só lamento que o Serra comande as redações, é a única coisa que eu lamento, ele manda nos jornais. O Lula resistiu a quantas CPIs? E foi legal. Você ficou sabendo, apurou-se mensalão, apurou-se isso, apurou-se aquilo. Eu queria que o Serra, que os tucanos metessem três, quatro CPIs para ver se está tudo bonito, se eles resistem, para ver se é isso mesmo, esse espetáculo! Então, um governo para ser bom tem que passar por três quatro CPIs, tem que ser mostrado, daí você começa a acreditar nele. Você viu? O Lula passou por tantas CPIs e ainda tem o apoio popular, por que o Serra tem tanto medo? O Alckmin tinha um medo de CPI, quase morria. Uma CPI do rodoanel por exemplo, seria um espetáculo. Por que não abrir a CPI da Petrobras? Tem que abrir sim. Tem que mostrar, porque a Petrobras ta jogando o dinheiro de seu acionista, tem muito malandro desviando dinheiro ali dentro que seria dinheiro de acionista, que seria de empresa. Quando eu digo que deveria ter CPI na Petrobras, eu digo que tem que ter CPI em todos os governos do Estado, em São Paulo principalmente. Prova que você é honesto! Abre a caixa de ferramenta!


Inconfidência Ribeirão –
Você acredita que no meio político brasileiro haja, por conta da cultura brasileira, uma confusão entre vida privada e vida pública?
No Brasil isso é um vício. Essa verba que fica a disposição deles… Contratam familiares… Essas coisas têm que ser mexidas.


Inconfidência Ribeirão –
Qual foi a grande reportagem que você fez?
Uma que marcou muito e não acredito que vá se repetir, até porque os tempos são outros e a impressão dos jornais é outra. Foi em 1975, no Diário da Manhã, do Ribeiro Pinto, aqui em Ribeirão Preto. Teve um crime bárbaro numa pensão na Vila Tibério, um cara roubou a pensão, matou e violentou uma menina, filha da dona da pensão de 13 ou 14 anos. Dizem que ele estava com uma mulher que o ajudou a matar a menina, que estimulou a violência sexual. Eu fiz uma matéria sobre o crime, comecei a acompanhar esse crime. Vivia nesse crime o tempo todo, devo até ter cometido excessos. Quatro meses depois eles foram presos por um delegado chamado Vlamir. Então eu fiz a matéria, uma página e meia. No dia seguinte, fui olhar um jornal de outro meio, e na hora em que olhei, havia uma fila que dobrava o quarteirão, em frente a redação do jornal, ali na Duque de Caxias, próximo a Jerônimo Gonçalves. Aquela fila imensa de gente estava ali e quando perguntei o que estava acontecendo, disseram que estavam começando a segunda impressão do jornal porque ele havia esgotado nas bancas. Tiraram mais uns 3 mil jornais, que eram vendidos ali mesmo. Acho que este foi meu maior prêmio. Mesmo que eu ganhe outro prêmio, não vai superar este.


Inconfidência Ribeirão –
E aquele texto sobre o aeroporto?
O Aeroporto ficou fechado um tempo. Daí no dia em que reabriu o aeroporto eu vi umas pessoas interessantes. Vi uma moça bonita com um cachorro buldogue, comecei a observar as pessoas e fiz a matéria com as pessoas que estavam lá. O cenário proporcionou que eu escrevesse e tive a sorte de escolher as pessoas certas.


Inconfidência Ribeirão –
Na época que começou a exercer a profissão não existia faculdade de jornalismo, não é?
Sidnei Quartier –
Lá em Rio Preto, naquela época, tinham pouquíssimas escolas. Tínhamos que fazer curso vago, a inscrição era em Uberlândia, em Goiânia. Mas na escola eu não passei do ginásio, parei na terceira série.


Inconfidência Ribeirão –
Você acredita que jornalismo é vocação, só profissão ou um pouco dos dois?

Sidnei Quartier –
Acho que a pessoa tem que gostar do que ela faz. Se ela gostar do que ela faz, ela tem como lidar bem com a profissão, depende de gosto. Para mim a internet acabou um pouco com o jornalismo, banalizou o jornalismo.


Inconfidência Ribeirão –
Mas você não acha que pelo fato de qualquer um poder postar uma notícia, os grandes veículos não acabam por ganhar em credibilidade?

Sidnei Quartier –
Então, o Google, qualquer coisa Google. O Jornalista não se prepara mais, qualquer coisa é Google.

Inconfidência Ribeirão –
O que você acha da queda da lei de imprensa?

Sidnei Quartier –
Bom é, quanto menos proibição houver melhor porque a quebra dessas proibições é muito bom para a imprensa alternativa séria. Mesmo que os “jornalões” não se incomodem muito com isso, usem mais para eles do que para o jornalismo mesmo, é bom para imprensa alternativa.

Inconfidência Ribeirão –
Você acredita que o diploma nos dias de hoje deve ser obrigatório?

Sidnei Quartier –
Então, eu tenho minhas dúvidas sobre o diploma. Mas as pessoas têm que ter, as pessoas dependem dele. É uma maneira de defender a classe. No meu tempo não tinha escola de jornalismo, só tinha em São Paulo. Hoje, tem escola de jornalismo por todos os cantos. A pessoa tem que fazer, é interessante fazer faculdade, é o melhor período da vida. É necessário.

Aos 15 anos de idade, Sidnei Quartier, natural de São José do Rio Preto, já dava seus primeiros passos no jornalismo. Aos 25 suas matérias faziam filas dobrarem o quarteirão para serem lidas. Hoje, após mais de 40 anos de profissão ele continua a trazer o melhor do jornalismo para Ribeirão Preto.

Sidnei, quando e como você começou a trabalhar com jornalismo?
Comecei há muito tempo. Eu tinha quinze anos e escrevi uma carta para uma rádio de São José do Rio Preto, a Rádio Independência, dizendo que eu gostaria de trabalhar em rádio.  O cara pediu para eu ir lá com a mentalidade de “quem é esse maluco de quinze anos?”. Daí, eu comecei a escrever os programas esportivos de rádio. Naquele tempo, tinha o “gravador geloso”, com o qual se gravava os noticiários esportivos da Rádio Bandeirantes. Depois de gravado eu transcrevia para texto e fazia o texto do programa que os locutores liam. Foi assim que eu comecei: gravava os noticiários esportivos e escrevia à máquina para os locutores da rádio lerem.

E por que surgiu esse interesse?
Meu pai sempre trabalhou em hotel e trazia para casa a revista Seleções. Havia muitos professores que passavam por esse hotel. Naquele tempo havia a Universidade de Letras de Rio Preto que foi fechada pelo golpe de 1964, então tinha muitos professores italianos lá. Meu pai trabalhava no hotel e os professores deixavam muitos livros, também eram muitas Seleções que meu pai trazia para casa. Eu comecei a ler estragadamente todas. Além disso tinha meu tio, o padrinho Alfredo, que possuía assinatura perpétua da Folha. Eu lia tudo, então fiquei cercado de boas comunicações. Acho que o caminho foi esse, foi aí que eu comecei a ter um pouco de intimidade, porque eu era moleque, tinha 10 ou 12 anos e já lia tudo isso. Acredito que não era tão normal para a época.

Após a Rádio Independência você foi para onde?
Eu fiquei um pouco em Rio Preto. Trabalhei em rádio, virei repórter esportivo, cobria jogos, entrevistei um monte de gente como Pelé, Rivelino, Carlos Alberto. Aí o mesmo cara que me contratou em Rio Preto veio para Ribeirão e eu vim com ele. Vir para cá foi o segundo salto na minha carreira, o primeiro foi entrar para a rádio Independência, o segundo foi a vinda para cá junto do Sérgio de Souza. Eu vim para trabalhar em rádio também, na Colorado, que não existe mais, logo em seguida fui para a Rádio 79 e, ao mesmo tempo, em 1973, fui trabalhar no Diário da Manhã. E aí foi. Em 1973, chegaram a Ribeirão Preto o Sérgio de Souza e o José Hamilton Ribeiro. O Sérgio de Souza tinha feito a maior revista que esse país já leu: a Realidade. Ele e o José Hamilton! Aí, com o Sérgio, comecei a aprender o que era jornalismo impresso. Aí eu me dediquei só ao jornalismo, trabalhei no Diário um bom tempo. Em 1974 já me tornei correspondente do Estadão aqui e só saí do Estadão em 89. Trabalhei de 74 a 89, mas fui registrado 4 ou 5 anos só. Depois, fui para a Folha. Além disso trabalhei em Salvador, Belo Horizonte; também fui assessor de imprensa de políticos.

E o que você prefere? Ser repórter?
Ah eu gosto de ser repórter. Eu me dou bem, mesmo tendo feito assessoria eu prefiro ser repórter. Trabalhei em Brasília também, trabalhei um ano e meio para o Congresso Nacional. Lá foi tudo normal. Foi justamente na época em que o Antônio Carlos Magalhães renunciou para não ser cassado.

Você acredita que a grande mídia só investiga o que interessa a eles?
Em maior escala sim. A Veja é o maior exemplo. Eu só lamento que o Serra comande as redações, é a única coisa que eu lamento, ele manda nos jornais. O Lula resistiu a quantas CPIs? E foi legal. Você ficou sabendo, apurou-se mensalão, apurou-se isso, apurou-se aquilo. Eu queria que o Serra, que os tucanos metessem três, quatro CPIs para ver se está tudo bonito, se eles resistem, para ver se é isso mesmo, esse espetáculo! Então, um governo para ser bom tem que passar por três quatro CPIs, tem que ser mostrado, daí você começa a acreditar nele. Você viu? O Lula passou por tantas CPIs e ainda tem o apoio popular, por que o Serra tem tanto medo? O Alckmin tinha um medo de CPI, quase morria. Uma CPI do rodoanel por exemplo, seria um espetáculo. Por que não abrir a CPI da Petrobras? Tem que abrir sim. Tem que mostrar, porque a Petrobras ta jogando o dinheiro de seu acionista, tem muito malandro desviando dinheiro ali dentro que seria dinheiro de acionista, que seria de empresa. Quando eu digo que deveria ter CPI na Petrobras, eu digo que tem que ter CPI em todos os governos do Estado, em São Paulo principalmente. Prova que você é honesto! Abre a caixa de ferramenta!

Você acredita que no meio político brasileiro haja, por conta da cultura brasileira, uma confusão entre vida privada e vida pública?
No Brasil isso é um vício. Essa verba que fica a disposição deles… Contratam familiares… Essas coisas têm que ser mexidas.

Qual foi a grande reportagem que você fez?
Uma que marcou muito e não acredito que vá se repetir, até porque os tempos são outros e a impressão dos jornais é outra. Foi em 1975, no Diário da Manhã, do Ribeiro Pinto, aqui em Ribeirão Preto. Teve um crime bárbaro numa pensão na Vila Tibério, um cara roubou a pensão, matou e violentou uma menina, filha da dona da pensão de 13 ou 14 anos. Dizem que ele estava com uma mulher que o ajudou a matar a menina, que estimulou a violência sexual. Eu fiz uma matéria sobre o crime, comecei a acompanhar esse crime. Vivia nesse crime o tempo todo, devo até ter cometido excessos. Quatro meses depois eles foram presos por um delegado chamado Vlamir. Então eu fiz a matéria, uma página e meia. No dia seguinte, fui olhar um jornal de outro meio, e na hora em que olhei, havia uma fila que dobrava o quarteirão, em frente a redação do jornal, ali na Duque de Caxias, próximo a Jerônimo Gonçalves. Aquela fila imensa de gente estava ali e quando perguntei o que estava acontecendo, disseram que estavam começando a segunda impressão do jornal porque ele havia esgotado nas bancas. Tiraram mais uns 3 mil jornais, que eram vendidos ali mesmo. Acho que este foi meu maior prêmio. Mesmo que eu ganhe outro prêmio, não vai superar este.

E aquele texto sobre o aeroporto?
O Aeroporto ficou fechado um tempo. Daí no dia em que reabriu o aeroporto eu vi umas pessoas interessantes. Vi uma moça bonita com um cachorro buldogue, comecei a observar as pessoas e fiz a matéria com as pessoas que estavam lá. O cenário proporcionou que eu escrevesse e tive a sorte de escolher as pessoas certas.

Na época que começou a exercer a profissão não existia faculdade de jornalismo, não é?
Lá em Rio Preto, naquela época, tinham pouquíssimas escolas. Tínhamos que fazer curso vago, a inscrição era em Uberlândia, em Goiânia. Mas na escola eu não passei do ginásio, parei na terceira série.

Você acredita que jornalismo é vocação, só profissão ou um pouco dos dois?
Acho que a pessoa tem que gostar do que ela faz. Se ela gostar do que ela faz, ela tem como lidar bem com a profissão, depende de gosto. Para mim a internet acabou um pouco com o jornalismo, banalizou o jornalismo.

Mas você não acha que pelo fato de qualquer um poder postar uma notícia, os grandes veículos não acabam por ganhar em credibilidade?
Então, o Google, qualquer coisa Google. O Jornalista não se prepara mais, qualquer coisa é Google.

O que você acha da queda da lei de imprensa?
Bom é, quanto menos proibição houver melhor porque a quebra dessas proibições é muito bom para a imprensa alternativa séria. Mesmo que os “jornalões” não se incomodem muito com isso, usem mais para eles do que para o jornalismo mesmo, é bom para imprensa alternativa.

Você acredita que o diploma nos dias de hoje deve ser obrigatório?
Então, eu tenho minhas dúvidas sobre o diploma. Mas as pessoas têm que ter, as pessoas dependem dele. É uma maneira de defender a classe. No meu tempo não tinha escola de jornalismo, só tinha em São Paulo. Hoje, tem escola de jornalismo por todos os cantos. A pessoa tem que fazer, é interessante fazer faculdade, é o melhor período da vida. É necessário.