Em vinte anos…

 Posted by at 10:55 pm  Pergunte ao Monge
out 062010
 

Monge, de 20 anos pra cá nota-se uma evolução absurda da tecnologia. As crianças estão cada vez mais ligadas em computadores, videogames e outros ”vícios tecnológicos”, e os relacionamentos virtuais estão cada vez mais abundantes. Nesse sentido, como você enxerga a sociedade daqui a 20 anos? (Julieto, juliopucciarelli@gmail.com)

É um belo exercício de imaginação. Daqui a duas décadas, como estará o mundo? É importante pensar nesse tipo de assunto, ainda mais no contexto em que vivemos hoje. Desastres ambientais, sociais e políticos assolam o planeta, e todo mundo finge que está tudo bem. Pense no mundo 20 anos atrás. Início da década de 90 e tal. A crise ambiental já era iminente, tanto que o Rio foi palco da Eco92, a maior conferência do gênero até então. E que não resolveu muita coisa, exatamente como nos dias atuais. Na política, então, nem se fala. Era mutreta atrás de escândalo. Exatamente como nos dias atuais.

A sociedade já estava dominada pelo individualismo consumista, e a TV já cumpria seu papel de expor tudo em excesso, exatamente como a internet faz. A diferença é que os atores agora somos nós. Computadores e celulares já existiam, mas eram luxo. No máximo, uma novidade. A grande “revolução cultural” do entretenimento era o CD, e posteriormente o DVD. Nesse meio tentaram também com aqueles Laser Discs enormes, CDs do tamanho de um disco de vinil. Era o início do formato digital, mas muito aquém da interação existente hoje. No máximo, uma troca de aparelho de som. Porém, ninguém esperava que a internet fizesse com o formato digital o que as antigas fitas cassetes fizeram com o vinil: você pode gravar facilmente uma cópia do disco para o seu vizinho. E na rede, todo mundo é vizinho de todo mundo.

Em 20 anos, as tecnologias com as quais lidaremos são imprevisíveis. Sonhávamos com carros voadores e robôs executando serviços diversos para 2010, e não foi exatamente o que aconteceu. Mas vivemos hoje uma revolução cultural tão ou mais significativa do que aquela vivenciada nos anos 60/70, quatro décadas atrás. E esta mal foi registrada pelas lentes tecnológicas da época.  O que a tecnologia pode fazer pelas nossas vidas não é o mais importante, mas sim o que cada geração pode fazer com elas. É fácil prever que em 20 anos estaremos com os mesmos problemas de sempre, ou até pior. Mas são os reflexos do que vivemos hoje que ditarão qual revolução estaremos vivendo no começo da década de 2030. E quem sabe, dirigindo carros voadores movidos a energia solar. Por que não?



Valor humano

 Posted by at 11:44 am  Pergunte ao Monge
out 052010
 

Monge, você acha que a humanidade vem piorando através dos anos ou vem melhorando (em todos os aspectos)? (Augusto P. Duarte)

Hum… Creio que não dá para dizer que a humanidade piorou. Estamos longe de um modelo adequado de convivência mútua e de interação saudável com o ambiente, mas estamos tentando. É comum pensar que foi no passado longínquo que o homem encontrou seu verdadeiro papel no mundo, quando sua sobrevivência dependia de aspectos não muito mais complexos do que as necessidades animais. Ou seja, a vida “selvagem”, a busca pela natureza. No entanto, é fácil nos esquecermos dos “poréns” decorrentes deste estilo de vida.

Pense só: hoje somos aproximadamente 6 bilhões de humanos ao redor do globo. Imagine que de repente todo mundo desencane da tecnologia e da comodidade da vida moderna e vá viver como nossos longínquos antepassados. Será que temos um ecossistema pronto para receber de repente 6 bilhões de caçadores/coletores? Tenho certeza que não. Portanto, é melhor que continuemos concentrados nas cidades.

O ser humano padece de apenas um problema prático essencial, e isso não melhorou nem piorou ao longo dos anos: não somos muito adeptos da ideia do benefício coletivo. Enquanto espécie, a coletividade é essencial para nossa sobrevivência. Mas nós gostamos muito de pensarmos por nós mesmos, e o conflito de ideias é um dos principais expoentes da individualidade. Soma-se a isso uma valoração conceitual de tudo que produzimos, tratados como “bens de consumo”, materiais ou não. É a fórmula do nosso modelo de vida contemporâneo: somos todos humanos, diferentes entre si, e cada um de nós é especial. Mas a sua importância será mensurada pelo que você pode fazer.  Ou melhor, por quanto dinheiro irão oferecer pelo que você faz.

Mas o capitalismo não é necessariamente mais predatório do que outros modelos de exploração. Infelizmente, isso é algo que sabemos fazer muito bem.