Muitas vezes há um genuíno engano sobre a denominação jornalística de um texto contido nos jornais. A confusão ganhou força na internet, onde as seções são pouco intuitivas visualmente. Por uma questão financeira, usa-se o mesmo layout gráfico para o site todo, até mesmo para os blogs (resumidamente, layout gráfico diz respeito ao planejamento e distribuição de objetos, ilustrações e normas gráficas em um determinado material, seja online ou impresso).

No próprio Inconfidência Ribeirão usa-se no site a linguagem wordpress para a diagramação do layout gráfico. Linguagem essa que foi primordialmente usada para blogs, mas que nos dias de hoje até o jornal oficial da Universidade de Harvard (Harvard Gazette) faz uso. Além de ser extremamente maleável, a linguagem é gratuita e em código aberto, algo que já faz com que o corte de custos com o departamento de webdesign caia consideravelmente, uma vez que não é preciso criar algo do zero. Porém, como já dito, perde um pouco da intuitividade visual de arrebate (aquela que você olha rápido e já sabe o que é).

Uma vez prejudicado (nos termos de intuitividade visual), o texto fica como um cavalo solto no curral da feira equina. Imagine-se na cena: você, leigo no assunto, chega para conhecer os cavalos, mas lá estão todos misturados e soltos. Andaluz, mangas-largas e árabes. Só olhos treinados sabem diferenciar um do outro para pegá-los do curral e fazer uma análise correta.

O mesmo acontece com o jornalismo (principalmente online, pelos motivos anteriormente citados). Os textos soltos no mesmo curral (neste caso, o layout gráfico) são para olhos treinados distinguirem o que é uma reportagem, um artigo, uma crônica, editorial ou outro tipo de texto que se encaixe em outra denominação jornalística.

A culpa nem de longe é de quem lê o jornal, é inteira de nós jornalistas. A maioria da nossa classe escreve para os outros jornalistas e não para seu público leitor, como diz Ricardo Noblat em seu livro “A Arte de fazer um jornal diário” (Editora Contexto, 2002): “Os leitores acham que o cardápio de assuntos dos jornais está mais de acordo com o gosto dos jornalistas do que com o gosto deles, é que a visão que os jornalistas têm da vida é muito distante da visão que eles têm.”

Aqui pelas bandas inconfidentes, tentamos fugir ao máximo disso. Bebemos da fonte do jornalismo literário (ou novo jornalismo), à qual teve sua consagração na década de 1960 pelas mãos de Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe, entre outros. Essa modalidade não falta com a verdade, pelo contrário, ela te dá uma visão que um jornal de linguagem mais factual jamais conseguiria dar. Mas ainda sim, os textos estão no mesmo curral jornalístico, distinguível apenas para olhos treinados. O objetivo deste texto é tentar desfazer um pouco dessa confusão, apesar de não ser tarefa fácil para um texto curto como este. Para se ter ideia, o Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo, escrito por Eduardo Martins, beira as 400 páginas e  é direcionado aos estudantes de jornalismo e profissionais que aspiram uma vaga ou já trabalham lá.

Discriminação

Para discriminar (ou seja, “descrever, caracterizar ou listar com minúcia” como definido no dicionário Caldas Aulete) esses “cavalos”, que no caso são as denominações de um texto jornalístico, será feito apenas uma leve descrição em relação aos textos contidos neste site.

Artigo - Esse gênero tem como base a opinião acerca de um assunto. Não é necessário que seja feita uma apuração minuciosa com fontes para expressar a opinião. Isso não significa que o texto faltará com a verdade em algum momento. Os textos do “Pergunte ao Monge” servem como exemplo ilustrativo.

Crônica – Como dito no Manual da Redação da Folha de São Paulo, é um “gênero em que o autor trata de assuntos cotidianos de maneira mais literária que jornalística. Pode ser também um pequeno conto”. Em outras palavras, a crônica não tem obrigação de verdadeira (porém isso não impede que seja). O texto Existencialismo no Deserto (clique para vê-lo) é uma amostra de uma crônica, onde apenas existe um conto fictício.

Matéria – Tecnicamente, todo texto produzido por um jornal é uma matéria. É consenso entre os manuais de redação dos jornais. Na Folha é dito que a matéria é um “Termo genérico usado para qualquer texto que se produz para jornal. Não use em textos para publicação”. No já citado Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo, a matéria “É palavra do jargão jornalístico. Use, conforme o caso, notícia, informação, reportagem, texto, artigo, comentário, editorial, crítica, crônica, etc.”

Reportagem – Gênero jornalístico onde não deve haver opinião por parte de quem a escreve. A opinião deve vir das fontes envolvidas na reportagem. O jornalista é apenas um intermediário entre o acontecimento e o leitor. Como já dito, uma reportagem não tem de obrigatoriamente seguir um único modo de contar uma história. Isso varia de veículo para veículo. Portanto, o Inconfidência Ribeirão não contará uma história da mesma forma que um jornal diário, assim como a revista Piauí jamais terá um conflito textual com a revista VEJA (e nenhum dos citados contará a mesma história da mesma forma). Cada veículo escolhe a forma de passar o que deseja ao seu público (a isso é dado o nome de “linha editorial”).

Imparcialidade

Não existir opinião não é sinônimo de imparcialidade. A todos que leem, há de se ficar atento com veículos que usam o termo “imparcialidade” para designar sua respectiva linha editorial. Um veículo de comunicação se afirmar imparcial é tão verdadeiro quanto uma loja de eletrodomésticos dizer que todas as pessoas do mundo sem exceção poderão levar qualquer mercadoria gratuitamente durante os 365 dias do ano. A própria defesa da imparcialidade é uma forma de parcialidade, pois essa requere que se tome um lado.

Apesar da imparcialidade não existir de forma alguma, não significa que um veículo de comunicação vá chegar ao escracho textual durante uma reportagem. Pelo contrário, vários veículos (assim como este que você lê) prezam pela independência editorial e optam por fazer reportagens que prezem pela diminuição máxima dos traços de tendenciosidade.

Há um abismo de distância entre a ausência de tendenciosidade e a imparcialidade. A primeira tenta impedir na medida do possível que seja imposta uma opinião (leia-se inclinação de ideias) sobre um relato. Já a segunda acredita na isenção de qualquer tipo de julgamento, favorecimento ou juízo de valor.

Para quem ainda não entendeu, será dado apenas um exemplo que se encaixa em qualquer veículo de comunicação:

A partir do momento que se escolheu noticiar um fato e não outro, cai por terra a tal da imparcialidade. Quem disse que o marido ter assassinado a mulher é mais importante do que a renúncia de um governante? Exatamente. O editor escolhe.

Nessa mesma linha argumentativa, um caso clássico ocorreu durante a privatização da Telebrás (uma venda que ultrapassou os R$ 22 bilhões). Para essa notícia, o Jornal Nacional dedicou quatro minutos de seu tempo. Nesse mesmo dia, foram dedicados nada menos que 10 minutos para o nascimento de Sasha (a filha da apresentadora Xuxa).

Cada veículo dá seu determinado juízo de valor para o material que divulgará, ou seja, não existe sob qualquer instância o conceito de imparcialidade. É um ideal indefensável. Só serve como artifício de ludibriação a fim de fazer o cidadão acreditar de forma incontestável tudo que lhe for dito.

Só espere imparcialidade de uma balança (de preferência uma bem regulada e devidamente testada).

Em 14 de janeiro de 1956 ia ao ar o programa “Os Melhores do Rádio” que escolhia a rainha do radio todo ano.  Angela Maria ganhava pela primeira vez quebrando uma sequencia de titulos polarizados entre Emilhinha Borba e Marlene. Ao microfone, em seu primeiro trabalho, Saulo Gomes. São 53 anos de dedicação ao jornalismo. Repórter investigativo, não só viu a história do país como também fez parte dela. Em sua residência na cidade de Ribeirão Preto, Saulo falou sobre seus mais de cinquenta anos de profissão e a importância do resgate da arte de se fazer jornalismo, além dos exemplos vivenciados durante todo esse tempo de trabalho.

A lembrança dele é a nossa história

Inconfidência Ribeirão – Saulo, qual a diferença do jornalismo na época em que você iniciou sua carreira em relação ao jornalismo dos dias de hoje?
Saulo Gomes - Bom, eu colocaria em dois pontos. Primeiro: o repórter do meu tempo não podia ser apenas o que se preocupa com o cartão de ponto e o dia do pagamento. Repórter não pode e não deve ter cartão de ponto. Consequentemente, tem que ter um acentuado amor naquilo que faz, coisa que está em falta nos dias de hoje. Além disso, independência, desprendimento, respeito e dignidade. Não falsear em nenhum momento com a verdade e não deixar os compromissos pessoais interferirem, pois o real compromisso do jornalista é com a notícia. Outra observação é sobre os aspectos técnicos que passaram a ocupar toda a área jornalística. A notícia não pode ter maquiagem, pois isso pode deturpar a real intenção do repórter e da reportagem.

Inconfidência Ribeirão -Você não acha que a assepsia da grande mídia, que tenta passar uma imagem de imparcialidade que não é verdadeira, não acaba sendo uma forma de maquiagem também?
Saulo Gomes – É um problema muito grande. Eu estive há poucas horas em uma grande rede de televisão brasileira e pude notar essa decepção. Um dos trabalhos que estou lançando agora é o DVD “Saulo Gomes entrevista Chico Xavier”. Dia 2 de maio agora completam 41 anos que fiz essa reportagem. Isso está dentro do que eu estou colocando pra vocês.  Essa reportagem não teve maquiagem, não teve edição, não teve truque. Eu sentei lá, arrisquei, lutei vários meses, convenci o Chico Xavier e seus seguidores mais próximos de que era importante uma entrevista com ele. O Chico não dava entrevista a ninguém na época. Resultado, foi feita uma entrevista, espontânea, natural, sem truques, sem golpes mas principalmente, quando foi ao ar não foi feita absolutamente nenhuma edição, foi respeitada a pauta do repórter. Então essa prova que depois de quarenta e um anos tem um trabalho, em DVD, que está fazendo sucesso. Prova que este jornalismo ainda precisa voltar. É o meu sonho.

“…tem que ter um acentuado amor naquilo que faz, coisa que está em falta nos dias de hoje.”

Inconfidência Ribeirão – O editor tem sua parcela de culpa?
Saulo Gomes -Sim, essa culpa se reporta principalmente à preocupação dos departamentos comerciais das emissoras, pois o custo de manutenção de uma emissora de televisão tornou-se extremamente alto por conta de todo modernismo técnico que aí esta. O comercial acaba por prevalecer, não interessa mais a extensão da notícia, ela atualmente se resume a meros segundos. Nós reporteres do meu tempo, tínhamos uma série de argumentos em relação à importância da matéria e usávamos e éramos ouvidos. Nós impunhamos com autoridade e com respeito nosso trabalho até no departamento comercial.

Inconfidência Ribeirão – Júlio Chiavenato declarou em 2008 em uma palestra, que os repórteres de hoje são meros “apertadores de REC” o Saulo Gomes – Sr. Concorda com isso? Não falta personalidade a eles para impor seu estilo de trabalho?
Concordo e acrescento: Os repórteres televisivos são “seguradores de microfones”. Faltam repórteres hoje na televisão brasileira. Os bons estão mutilados, engessados por esse sistema técnico e comercial.
Falta, e a questão comercial não é desculpa. Departamentos comerciais existem desde que eu comecei a fazer jornalismo, e isso não impedia os repórteres da época de impor suas posições e ponderações. Além disso, os diretores de jornalismo atuais não falam mais de igual para igual com os diretores comerciais, tratam-nos como superiores. Falta diálogo.
E falta autoridade também quando  não permitem ao reporter acompanhar a edição de um trabalho. Ele quem sentiu a realidade do local, percebeu a emoção do entrevistado e trouxe um retrato real daquilo que ele está reportando. Depois o reporter sai pra fazer outra material e o editor as vezes nem sabe quem são os entrevistados. Daí ele edita o que ele acha que está bom por sua conta. É um desastre.

Inconfidência Ribeirão – O Sr. acredita que há algum distanciamento entre jornalista e leitor no jornalismo brasileiro?  Algo como se eles falassem para eles mesmos…
Saulo Gomes – Caímos de novo na questão do repórter submisso e mecânico, que se submete às políticas da empresa e não dá o seu toque na reportagem. Apenas vai lá, cumpre a pauta e parte para a próxima matéria. Veja um exemplo meu:
Quando entrevistei Juscelino Kubitschek, tive de seguir todo um protocolo presidencial. Isso não me impediu de conversar antes e depois com meu entrevistado e esmiuçar questões interessantíssimas, que serviram para pautas posteriores.    Logicamente eu publiquei primeiro a entrevista oficial e protocolar, e após algum tempo, eu usei as informações apuradas naquela conversa informal pela qual eu tive o cuidado de ter antes e depois da sabatina oficial.

“Os diretores de jornalismo atuais não falam mais de igual para igual com

os diretores comerciais, tratam-os como superiores. Falta diálogo.”

Inconfidência Ribeirão – O jornalismo era praticável durante a ditadura ou quase impossível?
Saulo Gomes – Nunca tive problemas com isso. Os jornalistas que alegaram a impossibilidade de trabalhar naqueles tempos é porque estavam acomodados demais. Darei dois exemplos de como era possível driblar a censura: em 1968, houve um reide [excursão] de jangadas onde pescadores foram de Fortaleza a Santos para mostrar seus problemas e também para pedir um auxílio ao governo, que na época, aceitava a jangada como moeda de troca por um barco novo para o pescador continuar seu trabalho. Na parada pelo Rio de Janeiro, os jangadeiros – que eram cinco – tentaram sem sucesso um encontro com o General Costa e Silva. Ao ouvir a história, fui direto aos jangadeiros e pedi uma entrevista. No ar disse “O Presidente Costa e Silva não quis receber os jangadeiros que vieram fazer reivindicações e pedir um presente. Como ele não pode recebê-los, eu como repórter arrisquei minha vida ao mar e estou muito feliz. Estou aqui com eles e consegui a doação do barco, que cabe oito toneladas de peixes, das redes e da cota de gás”. Após isso, quando cheguei no porto de Santos, estava lá o Governador de São Paulo para receber os jangadeiros e lhe dar os presentes. Sem precisar falar mal de ninguém eu consegui fazer a minha matéria, não ser censurado e consegui ajudar os pescadores.
Outro caso foi em Uberaba, onde denunciei o descaso público com os doentes jogados ao chão no Hospital do Fogo Selvagem em Uberaba. Abri a reportagem dizendo: “A minha reportagem de hoje é um soco na cara das autoridades e de Uberaba…”, após a reportagem a mobilização popular foi tão grande que conseguimos construir um novo hospital, e novamente não fui censurado.
Fiz isso tudo com a polícia me perseguindo, pois tinha acabado de sair da cadeia e eu era constantemente vigiado.

Inconfidência Ribeirão – Qual foi sua maior abdicação em nome do jornalismo?
Saulo Gomes – São vários acontecimentos que me obrigaram a perder passagens importantes da minha vida, que eu não estive não por não querer, e sim por força da profissão. O nascimento de um filho, casamento de outro… Nessas horas eu exercia o jornalismo. Denunciei uma gangue de roubo de cargas que atuava no estado do Mato Grosso do Sul (mais precisamente na cidade de Dourados), que foi um dos maiores escândalos policiais da época, envolvia até policiais federais. Enquanto isso, acontecia o casamento de uma das minhas filhas no Rio de Janeiro. Outro fato interessante foi quando eu quase perdi a festa de 15 anos da minha filha caçula, que acontecia em Pirassununga, interior de São Paulo, pois eu estava lá no Pantanal apurando essa reportagem. Após dar tudo certo, acabei chegando à festa em cima da hora. Por pouco não fiquei de fora.


À partir da próxima edição, as memórias de Saulo Gomes serão relatadas em pequenas crônicas. Amostras dos casos e acasos vivenciados pelo repórter. Invadir aviões, burlar segurança, conseguir confissões sem tortura, quase perder o pé dissolvido em água… cada número uma aventura diferente.
Levar ao público um conteúdo de qualidade sobre a história do nosso País e prestar uma homenagem a quem até hoje continua trabalhando por ele.

Palavras Soltas

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