Lá estava Khaled em um ônibus viajando de Marrakech para Rabat quando uma turista loira gritou “Socorram-me subi no onibus em Marrocos”. Isso foi o gatilho que Khaled, filho de Hassan precisava para refletir sobre a miserabilidade da sua vida.

Vendo aquele mar de grãos de areia, o representante comercial de carnes exóticas (do tipo kebab) pensou até onde iria a subjetividade da existência da areia. Aquilo era areia ou uma população densa de pequeninos grãos que um dia foram gigantes rochas?

Khaled pensou o quão grande ele já foi. Já fora igual a rocha vulcânica que dominou o mundo bilhões de anos atrás, mas chorou quando percebeu o ponto que chegou: ouvir turistas loiras cinquentonas e gordas gritando palíndromos* (para quem não entendeu, leia “Socorram-me subi no onibus em Marrocos” da direita para a esquerda).

Eis que o sentido da vida nunca foi mais claro: o Universo nada mais é que um palíndromo. “A droga da gorda” (leia isso no sentido contrário também) acabara por ser todo o sentido da existência. Do pó viemos, para o pó voltaremos. Eis então, que Khaled enconstou a cabeça no banco do ônibus, começou a cochilar e sonhou com o excesso de palavras no cinema mudo…

*Palindromo: diz-se de palavra, frase ou verso que podem ser lidos da esquerda para a direita ou vice-versa, sem modificação de significado ou sentido

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Ah, a Matemática. A magia dos números, a precisão do universo. O dom do cálculo possibilitou ao homem lidar com a natureza de uma forma única, nunca antes experimentada por nenhuma outra espécie. Observamos com admiração um grupo de castores construindo uma represa, mas nunca veremos um castor engenheiro chefe, de capacete e prancheta na mão, a fazer contas e mais contas. Tampouco esperamos que aqueles simpáticos roedores apliquem o conceito da estrutura de madeira na floresta inteira, transformando-a em um condomínio de suntuosos edifícios, o Village dos Castores. Através da medição, mensuração e especulação numérica, o ser humano pode desenvolver, através dos séculos, ferramentas cada vez mais avançadas para emular os feitos orgulhosos dos seus companheiros animais. Do dique dos castores ao voo das aves, da resistência dos insetos à velocidade dos felinos predadores.

Falemos então sobre a calculadora como a conhecemos hoje. Eletrônica, ela é descendente direta do ábaco e de tantas outras engenhocas de calcular. Possui também suas próprias variações, como a calculadora científica e a HP dos estudantes de engenharia. Mas todas elas não são nada mais além de “metaferramentas”, que não interagem diretamente com o ambiente. Mesmo assim, a calculadora tornou-se um instrumento essencial no dia a dia do homem que hoje não vive sem a Matemática. Pois além da fabricação de máquinas, casas e aviões, os números estão presentes em outros contextos exclusivos da espécie humana, como o sistema monetário, a contagem de tempo e as notas de 0 a 10 que classificam o seu aprendizado. A calculadora não erra, sempre nos fornece o resultado correto. Claro que ela ainda pode parar de funcionar, mal de todos os eletroeletrônicos. Ora, até um avião pode dar pane e cair de repente. E vale lembrar que aviões não são comprados em camelôs.

Cheque constantemente a bateria de sua companheira de cálculo. Não se esqueça de uma das diretrizes fundamentais do universo, prevista pela Teoria do Caos e pela Lei de Murphy: a quantidade de carga da bateria de um aparelho eletrônico é inversamente proporcional à sua necessidade de usá-lo. Não sendo este o caso, confie que sua calculadora de bolso não o deixará na mão. E no caso de falha persistente em uma determinada conta, verifique se o defeito não está na pecinha que aperta os botões.

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Não há como negar que, em comparação com todo o resto da sua história, a Igreja Católica vive um momento de relativa paz. Claro, há o problema maior dos sacerdotes que demonstram um afeto excessivo aos seus coroinhas, mas isso não é nada comparado ao que a Igreja vivenciou em outros tempos. Mouros, bárbaros, índios e negros já foram os alvos preferidos da aplicação prática da Santa Fé (leia-se “arrepende-te e aceita o meu Deus como único e verdadeiro, ou vais encontrá-lo pessoalmente”), assim como os canhotos, os deficientes e as mulheres com muito amor para dar, entre diversos outros.

Mas espere! Eis que o mundo ocidental adentra a Era da Razão, e novos problemas surgem para acabar com o santo sossego papal. A sociedade aprende que ela pode pensar, afinal, e o pensamento leva ao questionamento. E a Igreja nunca soube lidar muito bem com questões sobre a sua doutrina. Mas estamos falando de séculos atrás, muito antes do positivismo científico ateu e de filmes como Zeitgeist. O maior dos problemas para a Igreja neste período eram os dissidentes que buscavam uma reforma religiosa, para que pudessem por si mesmos prosperar em nome de Deus. Uma contra-investida da “verdadeira” fé cristã era necessária, e embora não tenha conseguido calar completamente as idéias de Lutero, até que foi bem-sucedida no sentido de recuperar o fôlego dos católicos. Uma das melhores sacadas da Igreja deu-se no século XIX, quando os ingleses vitorianos (e protestantes) enchiam o saco bancando os donos do mundo. No Concílio de 1870, declarou-se que a palavra do Papa era infalível, pois ele a recebia diretamente de Deus. Quem é que manda no mundo agora, hein?

Já o século XX, como sabemos, foi marcado por duas guerras mundiais no próprio quintal da Igreja (a Europa) e pela Guerra Fria. E engana-se quem pensa que estes eventos não mancharam de sangue as mãos e túnicas sacerdotais, da conivência com o nazi-fascismo à demonização dos comunistas. Mas houve também acontecimentos essenciais para o fortalecimento da doutrina católica, como a criação do Estado do Vaticano, o fenômeno que deu origem aos segredos de Fátima e um Papa Pop. Hoje, encerrada a primeira década do século XXI, vemos que a Igreja e a fé católica se mantém firmes e fortes, mas não necessariamente ligadas uma a outra. O homem pós-moderno acredita no que quiser, até mesmo se quiser acreditar em nada. O Papa fala, e apesar de ser a palavra de Deus, o mundo não faz questão de escutar. E ainda corre o risco de ser derrubado em plena Missa do Galo. Os ícones religiosos, especialmente réplicas de metal de catedrais góticas, são transformados em armas de arremesso contra políticos controversos. Para proteger seus dogmas, sua influência e seus coroinhas, a Igreja precisa urgentemente de um novo Concílio. Ou de um novo Conceito?

Palavras Soltas

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