Quais os limites na disputa pelo poder? Eles existem?

O sentimento de estar no controle já levou a humanidade aos seus melhores dias. Conseguimos reverter parte da imposição da natureza e fazer com que o ambiente se adapte a nós. Fomos para o espaço, aumentamos a nossa expectativa de vida, dominamos viagens aéreas, criamos a democracia…

Mas nem tudo são flores. O mau uso do poder também nos levou aos dias mais sombrios imagináveis. Já dizia a famosa frase do britânico Lord Acton: “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. No século XX a humanidade sofreu nas mãos de Adolf Hitler, Mao Tsé Tung, Stalin, Pol Pot e vários outros déspotas desesperados por poder. Antes disso, o caso mais notável de mau uso do poder absoluto deu-se na Idade Média, uma era obscura de dominação implacável da Igreja Católica sobre todos os aspectos na Europa (a era de dominação começou após a queda do Império Romano, em 476 dC, e prolongou-se até meados do século XV).

O poder não se dá somente em grandes circunstâncias. Segundo o jornalista e livre-docente da ECA-USP Gaudêncio Torquato, em seu livro Tratado de Comunicação Organizacional e Política (Editora Thomson Pioneira, 2004), “O uso do poder pelas pessoas começa na relação mais simples, por exemplo, entre duas pessoas conversando. Quando duas pessoas conversam, uma delas está tentando convencer a outra de que sua opinião é melhor do que a do interlocutor. Nesse sentido, está se processando uma relação de poder. O primeiro quer, de certa forma, impor seu ponto de vista ao segundo e marcar uma vontade, uma posição de poder”.

Três modos de dominar

No livro Anatomia do Poder, escrito pelo economista estadunidense (que também foi assessor de John Kennedy) John Kenneth Galbraith (1908-2006), o poder é dividido em três categorias: coercivo, compensatório e condicionado.

O coercivo é basicamente exercido quando se impõem preferências sob pena de consequências desagradáveis se não for aceito. Um clássico exemplo é o chefe “caxias” que ameaça demitir qualquer um que, segundo os critérios dele, saia da linha.

No poder compensatório, a dominação se dá por meio de recompensas, no qual a submissão é “comprada”. Vai desde a mãe que promete presentes ao filho que se comportar até as alianças políticas que garantem cargos no alto escalão do governo.

O terceiro – e mais perigoso – é imposto pela persuasão e pelos ensinamentos. Essa é a fonte de onde bebem sociedades “democráticas”. Nessa categoria é a que melhor se encaixa o jornalismo e a política. Quando Collin Powell foi às Nações Unidas expor o relatório sobre armas de destruição em massa no Iraque, exerceu esse tipo de poder. O mesmo acontece com a avalanche de notícias diárias sugerindo que todos fiquemos em casa com medo de sermos assaltados.

Por que ele corrompe?

Muito se vê por aí cidadãos que, ao mesmo tempo em que criticam os políticos, dizem que se estivessem lá também fariam o mesmo. O que leva a todos terem essa sede de poder? É possível evitar ser corrompido?

Para o sociólogo Fábio Augusto Pacano, não existe resistência contra o poder. Ele diz que “todo poder corrompe, porque sua conquista, manutenção ou expansão exige do político que este haja de forma amoral. Note: amoral. Não imoral, pois a política tem moral própria, como nos ensina Maquiavel. A sociedade (e principalmente a imprensa) julga o político pela ótica da moral. Todo aquele que gozou o poder a ele se apega, pelo prazer que proporciona ou pela distinção social que empresta a quem o tem; quer pelos ‘contatos’ e as ‘bocas ricas’, quer pela possibilidade de fazer coisas boas para todos. O poder é, em si, gozoso.”

Na contramão, o cientista político e filósofo Luiz Rufino dos Santos Júnior acredita que o poder apenas revela, mostra o que já estava dentro de nós. “Creio que o que mais atrai os homens ao longo da vida é o dinheiro e o poder. Mas creio que o poder mais ainda que o dinheiro, pois muita gente que possui o dinheiro, o procura para obter poder. A palavra poder significa ter a faculdade de agir, pensar, etc.. Aos que alcançaram o poder, seja qual for, insisto que o homem é mau por natureza e que o poder só exacerba essa natureza assim como sua bondade. Então não é o poder a origem do mal ou do bem, mas uma forma de exacerbá-los.”

No trabalho

É impossível falar de poder e não falar de trabalho – lugar onde a maioria dos cidadãos passa boa parte da vida e, consequentemente, exerce um papel social.

Segundo a professora doutora da FEA-RP/USP e Psicóloga Adriana Cristina Ferreira Caldana, pouco se muda na cabeça da pessoa quando ela adquire algum poder. “A grande questão são os papéis sociais e os relacionamentos. Conforme nós crescemos, construímos uma identidade de acordo com o que é esperado de nós, o mesmo acontece nas empresas”.

Aquele amigo de longa data que mês passado foi promovido e se tornou o maior mala do mundo, Adriana explica: “Também construímos percepções de papéis. ‘Qual o comportamento adequado quando atingir determinado status?’ é o pensamento”.

A psicóloga (que realiza pesquisas na área corporativa) diz que a mudança de comportamento não é regra, mas acontece com a maioria, visto que as pessoas tendem a dar muito valor a símbolos de status (o poder é um deles). É cultural. “Pessoas que superestimam status não estão apenas preocupadas com seus serviços, estão preocupadas também com esses símbolos”. Quer conhecer um homem? Dê o poder a ele.

Lá estava Khaled em um ônibus viajando de Marrakech para Rabat quando uma turista loira gritou “Socorram-me subi no onibus em Marrocos”. Isso foi o gatilho que Khaled, filho de Hassan precisava para refletir sobre a miserabilidade da sua vida.

Vendo aquele mar de grãos de areia, o representante comercial de carnes exóticas (do tipo kebab) pensou até onde iria a subjetividade da existência da areia. Aquilo era areia ou uma população densa de pequeninos grãos que um dia foram gigantes rochas?

Khaled pensou o quão grande ele já foi. Já fora igual a rocha vulcânica que dominou o mundo bilhões de anos atrás, mas chorou quando percebeu o ponto que chegou: ouvir turistas loiras cinquentonas e gordas gritando palíndromos* (para quem não entendeu, leia “Socorram-me subi no onibus em Marrocos” da direita para a esquerda).

Eis que o sentido da vida nunca foi mais claro: o Universo nada mais é que um palíndromo. “A droga da gorda” (leia isso no sentido contrário também) acabara por ser todo o sentido da existência. Do pó viemos, para o pó voltaremos. Eis então, que Khaled enconstou a cabeça no banco do ônibus, começou a cochilar e sonhou com o excesso de palavras no cinema mudo…

*Palindromo: diz-se de palavra, frase ou verso que podem ser lidos da esquerda para a direita ou vice-versa, sem modificação de significado ou sentido

Palavras Soltas

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