A Carne

 Posted by at 9:38 pm  Crônicas, T.I.
mar 072010
 

… continuação da Saga de Khaled (clique para ver o primeiro episódio)

Khaled chega em Sabat e logo de cara vê um grupo católico em pregação. Apesar de tal ato ser crime passível de pena de morte em qualquer país islâmico, os ortodoxos irlandeses insistiram na  pregação suicida.

Eis então que chega a guarda do império islâmico e leva os irlandeses loucos para o xilindró. Alguns dias depois, na hora da execução – que fora transmitida em rede nacional, eles gritam: “A barbárie de vocês nos levará ao paraíso onde comeremos a carne de Jesus!”, logo após as últimas e profanas palavras, descem as espadas dos carrascos rumo à garganta dos infiéis.

Enquanto isso, estava lá Khaled em um botequinho tomando um suco (já que o islamismo abomina o consumo de bebida alcoólica) e assistindo a famigerada execução, que por sinal foi tão rápida que não teve nem tempo da diplomacia internacional agir.

Pensativo em tal ato de brutalidade (me refiro à pregação católica em solo marroquino), Khaled avisa para o dono do bar:

- Ei Rashid, os próximos turistas que vierem aqui e estiverem procurando por carne da boa, faz favor, passa meu celular!

Khaled pega seu celular com pressa, liga para sua empresa lá em Marrakech e avisa para seu chefe Salim:

- Chefe, estamos concorrendo com o sobrenatural, vamos inovar ou estaremos em apuros! Os irlandeses foram só o começo!

fev 092010
 

Lá estava Khaled em um ônibus viajando de Marrakech para Rabat quando uma turista loira gritou “Socorram-me subi no onibus em Marrocos”. Isso foi o gatilho que Khaled, filho de Hassan precisava para refletir sobre a miserabilidade da sua vida.

Vendo aquele mar de grãos de areia, o representante comercial de carnes exóticas (do tipo kebab) pensou até onde iria a subjetividade da existência da areia. Aquilo era areia ou uma população densa de pequeninos grãos que um dia foram gigantes rochas?

Khaled pensou o quão grande ele já foi. Já fora igual a rocha vulcânica que dominou o mundo bilhões de anos atrás, mas chorou quando percebeu o ponto que chegou: ouvir turistas loiras cinquentonas e gordas gritando palíndromos* (para quem não entendeu, leia “Socorram-me subi no onibus em Marrocos” da direita para a esquerda).

Eis que o sentido da vida nunca foi mais claro: o Universo nada mais é que um palíndromo. “A droga da gorda” (leia isso no sentido contrário também) acabara por ser todo o sentido da existência. Do pó viemos, para o pó voltaremos. Eis então, que Khaled enconstou a cabeça no banco do ônibus, começou a cochilar e sonhou com o excesso de palavras no cinema mudo…

*Palindromo: diz-se de palavra, frase ou verso que podem ser lidos da esquerda para a direita ou vice-versa, sem modificação de significado ou sentido