Avós do Brasil

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jan 222010
 

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Diversão não tem idade.

Nelson Rodrigues já dizia que “o jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade”. Mesmo assim, nos dias de hoje, a jovialidade tem maior valor social que a experiência. Esquecemos cada vez mais daqueles que viveram o que nós nunca viveremos. Aqueles da terceira idade, que tiveram experiências únicas. Histórias para contar que talvez nunca se repitam. A sociedade do século XXI volta a passos largos para os moldes da sociedade do século XIX, quando alguém com 40 anos já era considerado “velho”, alguém para ser deixado de lado, no limbo do esquecimento.
De acordo com o estudo “Projeção de População do IBGE”, de 2004, em 2050, os maiores de 65 anos no Brasil, que hoje são 6% da população, serão 18%, número que se igualará ao de jovens de 0 a 14 anos (que hoje são 30%, de acordo com o mesmo estudo). Em termos absolutos, serão mais de 13 milhões de habitantes de cada uma das duas faixas etárias.
Cada vez mais os maiores de 60 anos optam por seguir uma vida longe dos “cronologicamente” jovens. É o que confirma o poeta e músico Sebastião Borges, 85 anos, que hoje mora no Lar Padre Euclides. “Se eu ficasse na casa do meu filho, ficaria sozinho o dia inteiro, enquanto ele e a minha nora trabalham, pois lá não tem ninguém para ficar comigo. Já aqui, posso viver tranquilo com pessoas da mesma idade que eu”, diz.
Há a dona de casa Ofélia Giarola, 91 anos, que pratica sagradamente seu crochê vespertino. Há 20 anos morando no Lar, ela diz que não sai dali por nada. Lá vivem os amigos e conhecidos. “E ainda de vez em quando aparecem uns jovens para conversar comigo. Adoro eles. Assim como temos muito a ensinar, eles também têm” comenta Ofélia.

Particularidade

Cada um de nós tem uma história interessante de vida para contar, mas poucos podem dizer que compartilham da mesma história de Marco Antonio da Silva, 70 anos, mas que segundo ele, sente-se com 45 e vive atualmente em sua própria casa, em Ribeirão Preto.

Marco Antônio da Silva: Um minuto a mais...

Natural de Barbacena, Minas Gerais (aquela do Joselino, da Escolinha do Professor Raimundo), Marco viveu boa parte da infância na favela. É filho de pai magarefe (aquele que trabalha no matadouro dando o golpe de misericórdia nos bovinos) e mãe lavadeira. Só entrou na escola aos 12 anos. Aos 16 já havia terminado o primeiro grau. Voraz por conhecimento, não poderia ficar os básicos oito anos com os demais, seria uma negligência do sistema educativo.
Aos 18 anos, tornou-se recruta da Polícia Militar de Minas Gerais. Optou por essa carreira por temer os ônus que enfrentaria caso fosse para o Exército (havia uma lenda na época que todo recruta que entrasse para o serviço militar, teria de trabalhar na lavoura de arroz em Caçapava, interior de São Paulo). Pouco tempo depois, tornou-se sargento. Assim que conseguiu um cargo melhor, foi estudar Contabilidade. Queria dar o exemplo. “Quando eu quisesse cobrar um filho meu, o que eu iria dizer a ele? Teria de dar o exemplo para fazê-lo seguir em frente nos estudos.”.
Insatisfeito e ávido por conhecimento, já formado em Contabilidade, foi ainda cursar Direito. Formou-se em 1979 na sua segunda faculdade, mas só colou grau em 1986, devido aos encargos militares. Tornou-se professor de Direito para os novos recrutas da PM mineira, em Passos. “Já dei aula pra tanta gente… Hoje, muitos estão em cargos altos, muito acima do meu, mas mesmo assim, mantêm contato constante comigo e me tratam com respeito” ressalta.
Mesmo contra todas as possibilidades (e dificuldades), até aí a história de Marco Antonio não será a primeira nem a última de um brasileiro. O que o diferencia de boa parte dos demais é seu legado. Portador de uma humildade ímpar, diz que, além de seus quatro filhos de sangue, pegou outros 14 (sim, quatorze!) para cuidar. “Nunca na minha casa comprei menos de 40 quilos de arroz por mês. Não queria que nenhum dos meus filhos passasse as dificuldades por que eu passei na infância”.
O altruísmo de Marco Antonio fez escola. Uma de suas filhas já pegou três crianças necessitadas para cuidar (além da filha biológica). Hoje, Marco diz que sua casa está mais “vazia”, pois os filhos cresceram e não costuma se ver mais que 10 pessoas na casa, visto que cada um foi para um lado e fez sua vida, seguiram suas próprias jornadas.
A próxima jornada (aquela que todos seguiremos um dia) não é tabu para esse senhor que segue a doutrina espírita: “Olha, quando eu voltar na minha próxima reencarnação, espero ajudar mais pessoas do que nesta. Se eu não voltar, onde estiver, farei o possível para que isso aconteça. É por isso que pavimento a estrada da vida da melhor maneira possível a cada dia. Se não pavimentarmos uma boa estrada, não conseguiremos chegar aos nossos objetivos”.
Quando questionado se houve retorno por tudo que fez – e faz, se valeu a pena, ele logo rebate: “Nada que fiz foi por retorno algum. Tudo que fiz foi para ver os meninos alegres. Se eles estiverem alegres, esse é o maior retorno que eu poderia ter”.
De discurso sereno e alegre, Marco completa: “Nada é fácil na nossa vida. Vivemos 1 minuto de alegria e 10 horas de tristeza. Se com tudo isso que fiz e espero fazer, eu puder ter 2 minutos de alegria e 9 horas e 59 minutos de tristeza, já me sentirei realizado”.

Mundo à parte

O distanciamento das pessoas de terceira idade em relação aos demais setores da sociedade é cada vez maior. No Núcleo de Atendimento à Terceira Idade de Ribeirão Preto, onde há mais de 1300 cadastrados, pode-se dizer que lá existe uma “sociedade” à parte.
De acordo com a assistente social Marília Borragini, existe um comitê gestor do Núcleo formado por seis pessoas, duas da Prefeitura e quatro frequentadores do Núcleo, eleitas. “Há um processo eleitoral com urnas, contagem de votos e os demais caminhos democráticos”, diz a assistente.

Após sete anos de tramitação na Câmara dos Deputados, em setembro de 2003 foi aprovado o Estatuto do Idoso, que dentre vários direitos assegurados, diz no Capítulo  IV, Artigo 5º, Parágrafo 2 que “Incumbe ao Poder Público fornecer aos idosos, gratuitamente, medicamentos, especialmente os de uso continuado, assim como próteses, órteses e outros recursos relativos ao tratamento, habilitação ou reabilitação”. Logo em seguida, no Parágrafo 3, é dito que “É vedada a discriminação do idoso nos planos de saúde pela cobrança de valores diferenciados em razão da idade”.

Dignas do comparecimento maciço de seus frequentadores, as eleições do local são amplamente festejadas. Marília Borragini comenta que tal empolgação acontece pela proximidade pessoal entre eleitor e eleito. “Além disso, o frequentador vê de imediato o resultado do trabalho do comitê gestor, sem burocracia”.

Além do dominó

Quando se fala em “jogos” e “terceira idade” na mesma frase, logo vem a imagem de um grupo de senhores reunidos na praça jogando dominó. Isso passou. Hoje, a terceira idade pratica (à maneira deles) o vôlei, um dos esportes que até então eram exclusividade dos “jovens” devido ao teor competitivo. Apesar disso, o pouco contato físico facilita a adaptação do esporte para os maiores de 50 anos.
Ainda assim, as tradicionais partidas de buraco, damas, sinuca, bocha ainda são maioria entre esse público, que um dia foi a voz do Brasil.