Alguém quer exemplo melhor de jornalista que o Forrest? O cara simplesmente corre o mundo atrás de histórias e volta para o seu povo para contá-las.

Mais impressionante é a neutralidade quase robótica com que ele conta as histórias. Ele não precisou ser um ávido agente de mudança social. Eu mesmo já acreditei demais da conta nesse triste conceito de que jornalista tem de ser o cidadão que vai esclarecer as mentes, que vai descobrir o que está lá no fundo e trazer à tona. Isso NUNCA acaba bem. O jornalista se auto proclama rei da realidade em que vive. O resultado disso é a indústria manipulativa que se tornou o que eles ainda insistem em chamar de “jornalismo”. São mega corporações agindo como motores de mudança social, não diferente de qualquer jornal de bairro que pretenda o mesmo. Dos dois, a diferença é só o poder de alcance do que é dito.

A realidade propriamente dita já é o motor propulsor das mudanças. Se eu, e 99,99% dos jornalistas, colocássemos mais os pés na rua atrás das histórias (e não com uma pauta pasteurizada em mãos), talvez com o simples fato de mostrarmos as histórias (com o menor nível de subjetividade possível), elas sozinhas já se tornariam o motor propulsor de mudança propriamente dito.

Para quem talvez ainda não tenha percebido, o instigante do Forrest não era a forma como ele contava a história, mas sim a história propriamente dita. Eram histórias que não precisavam ser um cretinismo de autoajuda ou um discurso apaixonado. Era simplesmente a história sustentada por si só, uma vez que ele estava lá para vê-la acontecer. A riqueza de detalhes da testemunha ocular é quase invencível contra qualquer nariz de cera* bem formulado.

O  intuito deste artigo não é querer falar em “imparcialidade”. Não acredito nesse tipo de absoluto. A intenção mesmo é que ao menos um cidadão que leia isso reflita, nem que por alguns segundos. Não devo dizer “ninguém mudará lendo este artigo”, pois a sua pessoa é o conjunto de experiências vividas desde a sua fase de feto até o momento em que lê estas linhas. Apenas reflita mais e pense por si próprio. Não deixe que façam isso por você. Ninguém, principalmente os jornalistas.

* “nariz de cera” é uma expressão usada no jornalismo para designar o que, no popular, chamam de “enchimento de linguiça”; preenchimento desnecessário para dar volume.

Coloquio_Ruth_Duarte

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Para falar sobre todo o currículo acadêmico e profissional de Ruth de Gouvêa Duarte seria necessário um adendo neste Colóquio. Graduada em Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), possui mestrado e doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP). É professora, pesquisadora, escritora com indicação ao Prêmio Jabuti e avó do Gabriel (o Monge do IR!). Nos recebeu em sua casa, em São Carlos, para uma conversa sobre inconfidências da educação.

Décadas de experiência

Marcelo Dias –  Como está a educação no Brasil, com relação ao acadêmico, ao ensino superior?

Ruth de Gouvêa Duarte - A educação é um processo, não é algo que se possa confinar no lar ou na escola. Mesmo que você pense em educação escolar, ela é um processo também, tem que abarcar muitos anos. É preciso, então, haver dentro da escola uma filosofia de partida, que todos sigam. Caso contrário, começa a haver atrito. E, além disso, principalmente na Academia, é preciso que os diversos setores também estejam conformes, senão cada grupo pensa uma coisa. E como nós não estamos tratando de crianças, é preciso que o educando concorde com aquilo de alma e de espírito. E é difícil você dizer para um aluno da universidade que ele é um educando, porque ele acha que já deixou de ser adolescente, que está apenas aprendendo algo, adquirindo conhecimentos. O que não é verdade, a educação abarca a vida da pessoa, não é só o processo educativo da escola, é um processo contínuo. Na vida acadêmica, nem todos os professores se acham educadores. No caso particular das escolas de Medicina, Engenharia, Odontologia, nas quais o professor não tem a formação pedagógica, ele esquece um pouco o lado educativo. E se ele não teve essa formação e não estudou um pouco de psicologia, ou ele é professor porque nasceu assim, e tem uma linha ineludível, vocação para o magistério, ou ele vai ensinar sem educar, vai instruir. Então a instrução faz parte da educação, mas não é a educação.

Marcelo – O professor que é professor de nascença, e faz pedagogia e estuda psicologia, extrapola a sala de aula?

Ruth – Extrapola. Até o professor que não está absolutamente consciente desse papel, de que ele é também um exemplo, esse também extrapola, tanto para o bem como para o mal.

Marcelo – Como?

Ruth – É muito comum você ouvir críticas, que o professor prefere o laboratório e as pesquisas, ao invés das aulas. Ainda que o professor tenha essa preferência, ele não pode se esquecer das aulas. Isso é terrível para os alunos, pois a primeira função da escola é graduar. A pesquisa dele é em paralelo. Há muitos na graduação que já fazem iniciação científica, ou que sonham com a vida acadêmica, mas não necessariamente. É triste, e irrita saber que professor prefere o laboratório. Em todas as universidades européias e americanas, quem dá aula para a graduação são titulares. Nas nossas universidades isso não é bem verdade, depende muito da diretoria e dos chefes de departamento. O professor mais graduado é quem tem direito.

Marcelo – Aqui nas públicas ocorre como?

Ruth – Na verdade, fazendo um parêntese, nas escolas particulares as aulas recebem maior atenção dos docentes. Por dois motivos. Primeiro porque poucas fazem pesquisa, e segundo, o aluno cobra melhor a aula: ele paga. Ele sabe o preço. O aluno da escola pública acha que não paga, ele não se dá ao trabalho de pensar que o dinheiro que foi para lá é dinheiro dele também.

Marcelo – Aliás de todos.

Ruth – De todos. O que é pior, às vezes abaixo dele. A ideia de que a universidade pública é deles só vem na hora em que eles invadem para fazer greve. Tirando isso, é difícil ele ter a consciência de que aquela aula é paga, de que ele está pagando.

Leonildo Trombela Junior – O que seria esse conceito abaixo dele?

Ruth – A pessoa abaixo dele no sentido financeiro, eu me refiro.

Marcelo – Que paga através dos impostos?

Ruth – Paga através dos impostos. Aliás, de tudo. A minha empregada ganha um pouco mais de um salário mínimo e não paga imposto de renda. Mas ela paga por tudo o que compra, come e veste. Então, com este imposto embutido em tudo, todos pagam. É preciso conscientizar os alunos politicamente. Na verdade, os alunos da pós-graduação, ou alguns da graduação, vão muito motivados. Tanto que até relaxam o curso. Começam a ver os defeitos, e pensam: “podia ser melhor, mas eu vou ocupar meu tempo com outra coisa”.

O que falta ao professor é querer. É pegar o aluno e motivar a sala. Eu faço absoluta questão, dou aula com o maior prazer. Eu prefiro a aula, a verdade é essa. Dou quatro horas aula e eu não dou intervalo. Faço isso porque um aluno demora dez minutos, outro demora quinze, e então vira aquele “auê”. Combino de terminar a aula quinze minutos antes. Mas na verdade nunca terminou.

Eu tenho colegas que não possuem magistério, mas lecionam. Um exemplo é o engenheiro Marcius Fantozzi Giogetti, ele nasceu professor. Ninguém dá aula como ele. É professor do meu departamento de hidráulica, aposentado como eu, mas continua dando aula.

Há outro professor, que se chama Rodrigo de Mello Porto. Ele não só é um grande professor, como é um grande inovador. Ele faz onze questões na prova, e não dez. E a décima primeira questão não tem nada a ver com a prova. Ele faz uma questão de cultura geral, de atualização, interessantíssima. E depois os alunos esquecem as questões da prova, mas lembram, pelo resto da vida, daquela questão extra. O dia em que ele entrou aqui, ele disse, “já tenho uma questão para minha próxima prova: vou perguntar sobre o Escorial.” É porque coloquei ali (escrito em um papel junto a um mural de fotos, na porta do escritório) “O meu pequenino escritório, na minha pequena biblioteca, para mim é o Escorial.”

Marcelo – Afinal o que é o Escorial?

Ruth – É o maior monumento da Europa. Ele foi construído durante muitos anos, a mando do rei após a guerra espanhola. É maravilhoso. A biblioteca do Escorial é composta por prédios e mais prédios. É só procurar na internet por “El Escorial”, vocês vão ver. E o meu sogro, que era professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, esteve lá. No monumento o nome do rei é muito citado, mas ninguém fala do arquiteto. Então ele fez um soneto bonito, que termina assim “não foi um rei que construiu este monumento, um rei não pode tanto”. Eu acho isso lindíssimo. E ele custou para descobrir qual foi o arquiteto que tinha desenhado o prédio.

O Escorial

Mas enfim, voltando ao Rodrigo, essa foi a sacada que ele teve. E ele é professor de hidráulica. É uma coisa que todo mundo comenta, passam os anos e as pessoas ainda se lembram das questões que ele colocou, por serem completamente diferentes.

Em todas as universidades européias e americanas, quem dá aula para a graduação são titulares. Nas nossas universidades isso não é bem verdade, depende muito da diretoria e dos chefes de departamento. O professor mais graduado é quem tem direito.

Marcelo – A senhora falou que gosta mais de dar aula…

Ruth – Eu gosto.

Marcelo – A senhora dá aula para primeiro ano?

Ruth – Eu dava. Quando eu entrei na universidade como professora, a disciplina que eu lecionava para o primeiro ano, era Ciências do Ambiente. Obrigatória para todos os cursos de engenharia, não importa qual. Ela foi criada em 1976 para levantar a consciência ecológica. Na verdade, Ciências do Ambiente é Ecologia aplicada à Engenharia. E quando comecei a ministrá-la, procurei pelo Márcio Giorgetti, que era chefe de departamento, e disse que essa disciplina estava errada. O aluno do primeiro ano tem as disciplinas básicas (Química, Física, Matemática), e geralmente não gosta do curso de engenharia nos dois primeiros anos. Quando ele entra no terceiro ano e vai ter as disciplinas propriamente ditas de engenharia, ele se encontra. Porque nessa ocasião esta disciplina era obrigatória, mas foi eletiva para os quarto e quinto anos. Então vários alunos desses anos já tinham suprido aquele problema, muitos já estavam fazendo iniciação cientifica. Eu dava aula com mais uma professora, que já estava quase em final de carreira, e que achava o contrário. Ela não queria dar essa aula para o pessoal mais velho, porque ela dominava melhor a turma do primeiro ano. Mesmo assim procurei o Márcio e dei minha opinião.

Outra disciplina é a de Humanidades, que hoje é ministrada pelo pessoal de Arquitetura, mas que deveria ser de responsabilidade dos professores da área de Humanas. Essas duas disciplinas, que agora estão no quarto ano (com opção de se fazer no quinto), nessa ocasião, eram dadas nos primeiros anos do curso. Dei outra matéria também, Qualidade da Água, uma disciplina técnica para o terceiro ano. Mas atualmente estou somente na pós-graduação. Como já me aposentei, não preciso dar mais aula para a graduação.

Claro que os alunos que chegam à USP passam por afunilamento, são alunos culturalmente diferenciados e que vieram de escolas particulares. (…) Mas depende também muito do aluno que goste de ler, que faz uma boa escola por si só.

Marcelo – A senhora sente alguma diferença dos alunos do primeiro ano de alguns anos atrás para os de hoje?

Ruth – A primeira diferença é que os alunos de antigamente do primeiro ano só não sabiam escrever, mas liam bem. Os de hoje não sabem nem ler. Eles lêem um texto e não entendem, e a situação está piorando terrivelmente. Mas a culpa é do Ensino Médio. Claro que os alunos que chegam à USP passam por afunilamento, são alunos culturalmente diferenciados e que vieram de escolas particulares. Isso pode ser visto naquelas fichas que são preenchidas, questionando a escolaridade dos pais e a situação financeira (o “currículo oculto” na Europa). Mas depende também muito do aluno que goste de ler, que faz uma boa escola por si só.

Há alguns anos, por exemplo, o que me incomodava muito nos últimos anos de graduação eram os alunos frequentando as aulas de chinelos, bermudas e os pés sujos. Agora isso é proibido, mas os alunos achavam uma maravilha colocar os pés sobre as carteiras. Eu até tinha uma amiga psicóloga que me orientou uma saída para quando os alunos colocassem os pés para cima, deveria dizer assim: “Interessante. Todos aqui são do terceiro ano e todos já tem mais de dezenove anos. É bem interessante isso. Tem alguma coisa errada no ballet?” Porque botar as pernas para cima é típico de adolescente. E isso quem diz são os psicólogos, não eu. O adolescente é que põe as pernas para cima cada vez que se senta. O adulto só faz isso quando está muito cansado. “Você está cansado? Então por que vai jogar futebol?”

Então é diferente, foi piorando. Agora é também uma questão de idade. Eu adorava dar aula para eles, mas fui cansando, e hoje prefiro a pós-graduação, onde os alunos são mais maduros. Na graduação a turma é muito jovem. Eles não têm maturidade para fazer universidade, ficam perdidos no primeiro e segundo anos, e isso é muito comum em todas as universidades. Deslumbrar-se quando se está fora de casa, de sua cidade, por ficar perto das festas e dos centros acadêmicos. Talvez até fosse bom ter um ano propedêutico (que prepara para receber ensino mais completo) só para o aluno aproveitar e se enturmar. Agora, na pós-graduação, você pode tratá-los como adultos, são profissionais. Seria difícil dar aula para a graduação hoje, o entra e sai me desconcentra. Agora ainda é pior, porque antigamente eles podiam fumar na sala. Hoje tem que sair, e mesmo que a gente não queira, eles pegam o cigarro, falam “vou fumar” e saem. Eu não sei, toda a filosofia da escola deveria passar por uma reformulação. A começar por diminuir a quantidade de alunos em sala. Como fazer uma pergunta para uma sala com 160, 140 alunos?

Marcelo – Uma coordenadora do curso de Direito da cidade de Marília disse uma vez  que 60% do que se leva de sua vida acadêmica, aprende-se fora da sala de aula. Serão grupos de filosofia, são os eventos, o próprio diretório acadêmico e toda a vivência fora de sala de aula.

Ruth – É verdade! E é leitura! Essa é a vantagem de se estar em Marília, São Carlos, Ribeirão Preto… Pois em São Paulo, as universidades são maiores, e os alunos já saem com estágio e trabalho, mas eles não convivem entre si. Não sei como é em Ribeirão Preto, mas aqui o campus é uma atração.

Gabriel Duarte –  De certa forma, mas o campus ainda é muito disperso, as escolas são distante umas das outras, e você acaba não tendo tanta interação entre alunos das unidades diferentes.

Ruth – Aqui tem os cursos de Física, Matemática, Química, Computação, e o de Arquitetura, que pertencem à escola de Engenharia. O campus aqui é pequeno, está todo tomado. E há mais dois campi: um de Ciências Ambientais, à margem de uma represa, onde trabalhei por muito tempo; e o campus II, onde funcionam os laboratórios de Saneamento ou Laboratórios de Processos Biológicos. Aconteceu que eles ficaram isolados, e ao invés de se agruparem participam pouco do campus. Enquanto que aqui, a maior vantagem é que há uma interação entre a pós-graduação e a graduação, eles frequentam o mesmo lugar. Há outras duas coisas interessantes que foram criadas: uma foi a proibição dos trotes, e outra foi um acordo tácito entre os alunos da primeira série de que ninguém colaria.

Marcelo – Isso aconteceu aonde, na Federal?

Ruth – Não, na USP. Os alunos instituíram que não colariam, e nos cinco primeiros anos isso foi seguido. Mas quando saiu a primeira turma, o acordo se diluiu. Mesmo assim, você pega a cola, é evidente que vai existir. Mas é muito mais raro. Porque os próprios alunos exercem pressão sobre isso. Virou uma filosofia, como no caso do trote, impedido pelo Centro Acadêmico. Eu fico louca da vida quando ninguém cita que isso faz parte do regimento. Penso em contar, escrever para o Estadão, mas fico com medo de que peguem uma frase solta e coloquem, por exemplo, na carta do leitor e fique meio festivo. E não é essa a minha ideia, acabo não mandando. Tem muita coisa bem feita, mas às vezes saem algumas bobagens, às vezes penso que podem escolher uma frase minha, e não quero que todo mundo que me conhece, como ex-alunos, leiam isso e achem que eu não tenho o que fazer. Que deveria fazer crochê (risos). Mas essa é uma informação extremamente importante, que os alunos não sabem.

Marcelo – A senhora falou do convívio. As faculdades, especialmente as públicas, foram criadas arquitetonicamente, principalmente por conta do período da ditadura, com campi gigantescos, com unidades completamente separadas, e principalmente separando a área de Humanas das demais.

Ruth – Lógico, a Humanas é um perigo. Humanas serve para pensar mais. Mas a USP de São Carlos foi criada em 1953 e a de Ribeirão em 1963, portanto antes da ditadura. A Federal daqui foi criada em 1970, mas com 2 cursos apenas e com 30 alunos cada um. Só. Ela custou a crescer, mas nos últimos anos “inchou”, com muitos cursos, muitos alunos.

Marcelo – E como devolver hoje esse convívio?

Ruth – Aqui na federal não sei dizer, aqui não temos Humanas. A federal é muito grande, já foi uma fazenda. Enquanto que na USP o campus é pequeno, embora os cursos de Química e Física fiquem separados, o centro de convivência, o restaurante e várias instalações, ainda são os mesmos, e todos convivem. É tudo muito confinado, diferente de Ribeirão Preto.

Mas o que percebo quando estou corrigindo dissertações e teses da turma de Humanas, é que eles pinçam o que lêem. Cada vez eu fico menos convicta que o pessoal de Humanas leia mais que o pessoal da engenharia.

Leonildo – Você acha que tem muitos intelectocratas (intelectual burocrata) nas faculdades?

Ruth – Tem. E isso é mais verdade nas escolas técnicas, como a de engenharia, que tem de ensinar a técnica e a arte de construir. Você acaba pensando que eles lêem pouco, e pode até ser verdade, que sejam tecnocratas. No entanto temos expoentes de ir e vir, tornando isso muito individual.

Meu mestre, o professor Samuel Branco, escrevia como ninguém. Eu também gosto de ler e escrever. Na verdade queria ter feito jornalismo, mas meu pai que era jornalista, disse que essa não era profissão para mulheres. E não era mesmo, na verdade nada era profissão para a mulher, somente ser professora. Na minha faixa etária são raríssimas que chegaram à universidade, chegar na universidade, a não ser na área de educação. Todas as mulheres ou eram professoras ou donas de butique. É muito raro ter essa consciência.

Agora, ler é vicio. Leitura, esse vício impune… (risos). Ou se gosta de ler ou não. Cheguei à conclusão de que ler é uma senóide. Às vezes você passa por uma fase de acomodar as ideias, e para de ler. Meu avô não era muito de ler, ele era mais de estudar, era muito mais técnico do que eu. Mas gostava de ler, tanto que quando pegava um livro que gostava, passava para ele.

Marcelo – Falando de livros e de leitura, talvez a maior deficiência hoje da educação seja não prover o interesse pela leitura.

Ruth – Quer saber qual é a maior deficiência da educação? Essa máquina bendita e maldita (aponta para o computador). O aluno não tinha outro jeito. Ainda que fosse um candidato à vida acadêmica, ele tinha que ler os livros. O máximo que ele podia ler era alguma resenha. Hoje ele não lê livro nenhum, pois o aspecto técnico, os comentários, tudo está lá no computador.

Marcelo – Mas isso seria consequência do que vem sendo desenvolvido desde o ensino fundamental?

Ruth – Eu acho que tudo é falta de hábito de leitura. Do ensino fundamental a família. É a falta de tempo. Você até quer ler, mas demora mais tempo. Por quê? Por causa da luta pela vida, e de tudo que tem de interessante para fazer. Um pouco também devido ao bendito computador. Antigamente eu dizia para os alunos “Esqueçam a televisão quando chegam em casa, primeiro façam o que tem que fazer para escola”. Hoje se fala “Esqueçam o computador”. É a falta de tempo, porque o mundo ficou complicado, e todos querem fazer algo diferente, isso é normal. E o tempo que você perde com deslocamento e tudo mais. Tem muita gente que não lê nem jornal. Ou lê o jornal da cidade, mas aqui em São Carlos os jornais são todos uns pasquins, não tem o que ler. Então é muito complicado, você tem um jornal que dizem ser bom, e coisa e tal, mas que não tem nada que preste. Agora, ler é vício. Ou lê, ou não lê. E se você pensar bem, na correria de vida, quando é que sobra tempo para ler? Mesmo pra mim, que estou aposentada? É à noite, ou então no final de semana, quando se tem um pouco mais de tempo. Antes não havia televisão, não havia computador, então a situação era outra.

Leonildo – Você que é educadora e já pensou em fazer jornalismo, o que acha da questão de ter caído a obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

Ruth – Por pior que seja uma escola de jornalismo, “ruim com ela, pior sem ela”. Eu sou absolutamente contra cair o diploma para a função jornalística. O que não significa que é preciso ser jornalista para se fazer uma boa redação, escrever cientificamente por exemplo. Mas eu precisaria de um jornalista para “coar” aquilo que eu escrevi. Eu sou capaz, eu sei escrever, eu conheço o português. Meu pai era jornalista, formado na Casper Líbero. Era um homem muito culto.

Leonildo – Como ele se chama?

Ruth – Helvídio Gouvêa. Ele foi jornalista da Folha por muitos anos. Seus artigos estão na Federal para a publicação de um livro. Ele escrevia muito bem, e a família Gouvêa é composta de muitos jornalistas.

Mas não sei como estão os cursos de jornalismo. Acho que por pior que estejam, eles cobram muita leitura e muita escrita, não cobram?

Leonildo – Cobrar eles cobram, mas cumprir é outra história…

Ruth – Mas aquele que quiser fazer bem feito, faz. Qualquer curso que você faça, ainda que seja engenharia, odontologia, medicina. Você pensa que todo mundo segue lá na ponta? Não estão lá, não. Você sempre terá, por mais que deteste, a elite intelectual. Toda sala de aula tem aluno bom. Não o bom aluno, de boa cabeça, mas aquele que lê, que cumpre suas tarefas. Mesmo que cumpra mal, que saia da aula, eu não estou muito preocupada se ele assiste ou não. “Assinou a lista? Se vai sair depois, sai já”. Estou esse ano com dois alunos, um moço e uma moça, que ou um deles está lendo, escrevendo ou sei lá o quê, ou ficam passando bilhetinho um para o outro, como se estivessem no terceiro ano primário. Só falta fazer aviãozinho. E são alunos de pós-graduação! Na próxima aula vou falar “Assine e saia”. A lista vai passando e eles assinam.

Eu tenho muitos alunos. Como minha disciplina é aberta a todos, e é redação de trabalho científico, eles vêm. Eu dou a lista e começo a aula. Na aula seguinte, eu passo e digo, “Aqueles que vão ler, escrever ou passar bilhetinho, prefiro que saiam já, para não perturbar depois”. Porque eu não me concentro. Tem professor que não está nem aí, não sei se ele consegue se concentrar, mas depende da disciplina também. Você vai por um problema para fazer, ou vai ensinar uma técnica, uma tecnologia, é diferente. Quando eu dava Qualidade da Água eu nunca vi se o aluno estava ou não prestando atenção. Mas quando você vai dar uma aula sobre ensinar a escrever, a pesquisar teses e dissertações, é preciso ver se a revisão bibliográfica não é uma cópia de outra. É preciso fazer isso, ver se o texto está bem escrito, se o texto está mal escrito. A parte de revisão bibliográfica é a mais difícil da tese. Você lê muitas coisas, quase sempre em inglês, às vezes um pouco em francês, e depois cada um tem seu estilo. Daí vira uma salada russa, aquela mistura de coisas. É preciso ver se o aluno é capaz de escrever fugindo do estilo do autor.

Marcelo – Tirando a especificidade da pós-graduação, e posto as dificuldades e carências que a gente identifica na educação: uma graduação feita de maneira séria, como deve ser feita, e com as cobranças que uma graduação exige, não seria tão boa quanto uma pós-graduação?

Ruth – Não, porque a pós-graduação exige que o aluno tenha um arcabouço técnico, que ele vai usar como ferramenta para fazer pesquisa. A pós-graduação tem em si a ideia da dissertação, da tese escrita. É uma parte dos requisitos. Você lê aqui (mostra uma tese de pós-graduação) “Tese apresentada na Escola de Engenharia de São Carlos, Estado de São Paulo, como parte dos requisitos para obtenção de título de doutor em Engenharia”. Então a aula é um dos requisitos. Seja a parte experimental e laboratorial, seja a parte de aplicação de questionários (uma pesquisa mais qualitativa, muito comum no saneamento), seja uma parte de escrita e leitura do aluno (em que ele vá comparar textos, etc.), a dissertação é uma parte fundamental para a qual se supõe um conhecimento prévio. A diferença principal, da graduação para a pós-graduação, é esse embasamento.

Na verdade, eu tenho ojeriza da história de que a universidade é para todos. Não é. A universidade é um direito de todos, mas é para aqueles que querem botar a b. na cadeira, a cara no livro, e estudar. Senão, o que faz na universidade?

Marcelo – A gente encontra alunos dentro da graduação, tanto em escolas particulares quanto em públicas, que destoam do grupo, e que participam, desde o primeiro ano, da iniciação cientifica. Você vê que ao final, o trabalho e a conclusão apresentados…

Ruth – … são verdadeiras dissertações de mestrado. Muitos. Dissertações de mestrado, muitas são verdadeiras teses. Por quê? Porque se trata de um aluno diferenciado. Não são todos, há trabalhos de conclusão de curso que são uma piada.

Outra coisa, nas universidades públicas tem iniciação cientifica. E muitas das universidades particulares também.

Marcelo – Mas não é obrigatório. Não é fomentado.

Ruth – Obrigatório não, na pública nem dá para ser obrigatório. Não há professor que consiga ter mais do que três ou quatro alunos orientados de uma vez. Na Universidade de São Paulo, para começar a fazer o mestrado, é preciso ter iniciação cientifica. E mesmo que você faça mestrado e doutorado, é na iniciação científica que se aprende a fazer pesquisa. Agora, isso não é mesmo para todos. Na verdade, eu tenho ojeriza da história de que a universidade é para todos. Não é. A universidade é um direito de todos, mas é para aqueles que querem botar a b. na cadeira, a cara no livro, e estudar. Senão, o que faz na universidade?

Gabriel – Você acha que a ideia da extensão, que é uma das partes do tripé da universidade pública – ensino, pesquisa e extensão – como extensão da produção da universidade e das atividades no seu espaço para a população…

Ruth – … é,  a extensão tem esse sentido.

Gabriel – Mas você acha que a ideia da universidade para todos não teria uma base nisto?

Ruth – Não, não. Essa ideia é de que todo mundo tem que fazer uma universidade. Nem nos países mais desenvolvidos existe isso.

Marcelo – Mas é constitucional esta ideia.

Ruth – Pois é, mas veja, a universidade é um direito de todos. Como eu vou obrigar a minha empregada, que estudou só até a oitava série? E eu fiz de tudo para ela fazer o colegial, ela é muito inteligente. Nunca consegui que ela voltasse, ela tem ódio de sentar e estudar. Ela é inteligente porque é bem dotada.

Marcelo – Culpa da escola?

Ruth – Eu acho que a família também não incentivou. E ela está em outra: ela quer ganhar dinheiro.

Leonildo – Mas você não acha que esse querer que todos façam uma universidade não é consequência de uma sociedade que preza pelo tecnicismo?

Ruth – Não sei. Acho que está ligada a outra coisa, à diferenciação salarial. Não pelo tecnicismo, mas o grau de informação e o ganhar mais. Por exemplo, nos Estados Unidos, mais do que na Europa, os salários não têm esse degrau.

Leonildo – Perguntei sobre o tecnicismo no sentido de que a pessoa não analisa o conhecimento, mas analisa o diploma.

Ruth – Já nem sei até quanto que analisa o diploma só.

Leonildo – Mas ele pesa muito.

Ruth – Pesa, mas isso é besteira. Por exemplo, aqui na Escola, dentro da pós-graduação, os alunos que vem de escolas particulares as vezes são melhores que muito aluno formado aqui em São Carlos (na Universidade de São Paulo ou na Universidade Federal de São Carlos). Quer ver, a federal do Rio Grande do Norte, do Ceará, da Bahia, da Paraíba, Santa Catarina é muito bom, Paraná tem a UEL (Universidade Estadual de Londrina), eles passam à frente dos alunos daqui, especialmente das nossas federais. Mas passam até à frente de muito aluno da USP também, no exame de seleção para a pós-graduação. Há escolas muito boas. E de vez em quando há vários alunos que vem da Unip e passam, que vem de qualquer universidade e passam. Tem um aluno que veio da Barão de Mauá, de Ribeirão Preto, que prestou exame e entrou, fez mestrado e agora está fazendo doutorado. Ele é um excelente aluno. Mas esse é um caso particular. O problema que eu penso é o seguinte: eu acho que o aluno que quer estudar, estuda. Hoje existe uma série de incentivos, bolsas etc. Mas o aluno tem que querer estudar, ou ganhar mais. O grande erro do brasileiro foi ter acabado com as escolas técnicas. As próprias Fatec, que são cursos técnicos, tem o mesmo valor de diploma das universidades.

Leonildo – E agora estão voltando.

Ruth – E tem que ser! Se o aluno faz um curso técnico e se torna um grande profissional, é isso que interessa. Por exemplo, nos Estados Unidos, quando nós fomos para lá em 79, tinha o pessoal que vinha fazer a faxina no bloco de apartamentos do campus. E o carro deles era igual ou até melhores do que os dos professores. Por que? Porque eles ganham muito bem. Baby-sitter (babá) nos Estados Unidos ganha mais que professor universitário. Aqui, eu acho que essa procura por título tem a ver com salário, que também já caiu muito. Tem uma moça daqui, ela é bióloga e fez mestrado e doutorado. A avó dela tem uma rotisserie. Ela largou tudo e foi virar cozinheira com a mãe e avó quando percebeu de que por mais que ela trabalhasse, não ia ganhar bem como elas. Então depende também do que você quer com o dinheiro, do quanto você quer, do que você quer fazer com ele.

Mas agora, você fala “ah, tem aluno de universidade particular que é muito bom”. E tem aluno da universidade pública que é muito ruim! Agora que as universidades particulares cresceram, estatisticamente quanto mais você cresce, maiores as chance de pegar mais gente boa. Meu filho é coordenador da Engenharia da Unip, nos temos alunos e mais alunos de lá que passam aqui na pós-graduação. Hoje, se as universidades públicas não se cuidarem, vai acontecer conosco o que acontece nos Estados Unidos e na Europa, onde as melhores não são as públicas.

Leonildo – Você diz mais ou menos o que acontece com os colegiais (ensino médio) também?

Ruth – Exatamente. Porque veja, em educação, escola pública existe em grande número nos países mais pobres. À medida que o país vai ficando mais rico, ele consegue melhores universidades particulares. As melhores universidades americanas são pagas, Harvard, MIT, Stanford. A USP faz muita questão de se segurar, assim como a Unesp. A Unicamp luta mais que a Unesp, mas seu maior problema foi o excesso de alunos, que a inchou. Quisera botar muitos campi, mas lógico que você perde em qualidade.

Marcelo – Colocada a realidade da educação, qual a visão que a senhora tem daqui para frente?

Ruth – O primeiro entrave é a situação do lar. A escola não pode entrar em atrito com a família, se isso acontece o adolescente fica perdido. Por isso a urgência da conscientização dos pais em educar os jovens, pois a escola não consegue fazer tudo sozinha. O outro lado dessa história é que a escola e os educadores são responsáveis por irem além da instrução, e isso é muito difícil na universidade. A educação precisa de que os dirigentes, não os da universidade, mas do governo, enxerguem a questão de forma diferente.

Outro complicador é a disputa da escola com a televisão e o computador. Ao mesmo tempo, que não existe uma seleção do que pode ser ensinado por eles. É preciso mais leitura. A escola seja ela técnica ou não, independente do nível, deve ensinar o aluno ler e amar a leitura, caso contrario ele não vai crescer.

O professor tem que se entregar, tem que atender ao aluno individualmente. Tem professor que fica um tempo depois da aula e conversa com o aluno, mas para isso é preciso tempo. O que acontece nas universidades com horário integral. Se você não tem tempo de ficar na escola é difícil. E no ensino fundamental, com a porcaria que estão ganhando, o professor leciona em uma escola de manhã, outra à tarde, outra a noite, e não tem tempo de atender o aluno. Como que você prega ensino e educação se não tiver o papel de educador em todo canto, seja em casa ou na escola.

Eu gosto dos jovens, dos estudantes. E cheguei à conclusão de que eles também gostam dos professores. Um exemplo é essa aluna. Ela já concluiu o mestrado, mas sempre que vem para São Carlos me visita. Vocês também querem conviver com professores, mas cadê o tempo?  Por esse motivo que a universidade não pode espalhar os campi. Se a intenção for espalhar, o interessante é misturar todos os cursos. Se você faz psicologia, ele engenharia, o outro medicina, vocês não se encontram. Se você tem um centro acadêmico para o grupo todo, você troca informações, livros e opiniões. Nesse sentido apoio os jogos abertos, shows e as confraternizações nas universidades. Se você convive só com o seu pessoal fica muito fechadinho, numa bolha de vidro.  Estudando as mesmas coisas, lendo os mesmos livros, falando bem ou mal dos mesmos professores. Agora se você convive com um universo maior, amplia seus horizontes.

O professor em tempo integral é um ponto importante. Hoje a USP está lutando para isso. Mas tem que ver se é tempo integral mesmo, se é de direito ou de fato. Porque o professor que estiver em tempo integral na sala dele, ou no laboratório, ele recebe o aluno. Outro é a iniciação cientifica e os estágios, que aumentam a convivência com o professor. Por isso que a iniciação científica é o degrau para o aluno fazer pós-graduação.

Agora, quanto mais tempo você passar dentro da escola é melhor, sem a menor dúvida. Ainda que no barzinho batendo papo. Você tem que estar ali, trocando opinião, trocando ideia. Você pensa que aprende só na sala de aula? Quer saber de uma verdade que eu digo para os meus alunos? Para pensar na sua escola, desde o fundamental. Uma disciplina que você não está acompanhando, a aula é uma chatice, e você precisa fazer a prova, pegue um livro e estude. Você aprende mais. E você segue fazendo isso a vida inteira. Você perde uma aula por um motivo qualquer, depois pega e vai estudar. E quanto mais você tem a tecnologia, melhor. Seja livro, seja computador. Eu gosto de papel, eu gosto de ler. Às vezes me pego imprimindo e-mails, porque eu não posso guardar todos, mas quero ter.

Mas se você tem uma conversa na universidade, você tem troca de experiências. Não importa o que você está fazendo, você tem que estar junto com um pessoal que você possa conversar. Seleção de amigos é uma coisa complicada.

Marcelo – É a família que você escolhe?

Ruth – É a família que você escolhe. E a grande vantagem da universidade, conviver com pessoas de todos os cursos.

Para falar sobre todo o currículo acadêmico e profissional de Ruth de Gouvêa Duarte precisaria de um adendo neste Colóquio. Graduada em Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), possui mestrado e doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP). É professora, pesquisadora, escritora com indicação ao Prêmio Jabuti e avó do Gabriel (o Monge do IR). Nos recebeu em sua casa, em São Carlos, para uma conversa sobre inconfidências da educação.

(publicada originalmente na edição 11 – setembro de 2009 – segunda quinzena)

Professor, diretor, reitor, amigo, pai. Durante as últimas quatro décadas esse jovem de cabelos brancos ensina, através de ensinamentos ou exemplo de vida, centenas de jovens (e adultos). Professor Valter é pró-reitor acadêmico do Centro Universitário ‘Barão de Mauá’. Concedeu-nos o prazer deste Colóquio no bar da Cláudia, na Lagoinha. Local onde encontra os amigos e brinda a vida.


IncRibeirão – Qual é a motivação que o senhor tem para, depois de 43 anos, continuar trabalhando com educação?

Prof. Valter – Não são bem 43 anos, acho que é um pouco mais. Há 43 que eu trabalho no Centro Universitário ‘Barão de Mauá’. Mas antes eu trabalhei no ginásio do estado em Altinópolis. Fiz uns cálculos e dos meus 66 anos, praticamente a minha vida toda eu passei dentro de uma escola. Ora como aluno, ora trabalhando.

IncRibeirão – Então o senhor nunca saiu da escola!?

Prof. Valter – Tive muitas oportunidades, até que não faltaram, não. Vejo isso como um avanço muito grande em nossa realidade até quando analiso a minha própria trajetória. Desde a infância, minha juventude, até hoje. Pensei ‘Pô, vou falar isso para os meninos. ’ Tenho um defeito no braço esquerdo, pois tive paralisia aos seis anos de idade. E isso dificultou muito, era um trauma e uma dificuldade muito grande em suplantar. Porque tudo o que você faz com dois braços, eu teria que fazer com um. E não se pode, hoje, se colocar na mesma posição. Existem todas as facilidades. Há quarenta anos, não existia computador, nem se ouvia falar. Era máquina de escrever Olivetti e tinha um curso pra conseguir um emprego como escriturário, auxiliar de escritório, que era o meu objetivo. Meu pai faleceu quando eu tinha 3 anos, e ficamos eu e minha mãe. Ela sem formação nenhuma, mas linda, maravilhosa, inteligente. Uma pessoa a quem dedico o maior respeito até hoje. Nós tínhamos que estudar e aprender datilografia para conseguir um emprego modesto. E na época dava para se manter. A evolução que eu quero colocar é a seguinte: hoje você vai prestar um concurso público, tem dez por cento das vagas reservadas para um deficiente físico. Tudo tem acessibilidade para o deficiente, ‘ene’ situações que, embora não integralmente entrosado na sociedade, no mercado de trabalho, ele tem mais possibilidade. No meu tempo, pra terem uma idéia, jogava futebol, basquete, sempre gostei de esportes. No futebol, o professor falava que não me levaria pra treinar no Botafogo ou Comercial (morava em Altinópolis, nasci em São Paulo e fui criado em Altinópolis), ‘porque você vai chegar lá e eles não vão te colocar pra treinar de forma alguma por conta do seu defeito físico.’ Prestava concurso, chegava na hora do exame médico, era aprovado para escriturário. Me recordo que passei no concurso público do Banespa, que era o que todo mundo queria, o Banespa e o do Banco do Brasil. Na hora do exame médico, fui obrigado a fazer um exame de datilografia, na frente do médico chefe do Banespa, na rua Quinze de Novembro em São Paulo, porque ele não acreditava que, com uma mão só, eu pudesse datilografar. Depois ele me liberou assim (ou sofreria um processo indenizatório tremendo) ‘Vamos fazer o seguinte, eu vou assinar o laudo (naquela época se trabalhava com camisa branca, manga comprida, abotoada e de gravata). Você vai trabalhar de manga comprida e ninguém vai ver mesmo, então eu vou te liberar.’ Outras vezes passava em concurso público pro Estado, chegava na rua Maria Paula em São Paulo e, depois de uma série de exames, o último era o clínico geral. Ele me perguntou ‘Teve alguma doença grave?’ Falei não. Quando ele começou a me examinar, e colocou a mão no meu braço, perguntou ‘Que que você tem no braço?’, ‘Tenho paralisia infantil.’ O médico falou o diabos pra mim! Que eu estava escondendo, que estava sendo desonesto. Na minha opinião não era uma doença grave, tinha me superado, passado em concurso que constava provas escritas, todos os exames médicos, datilografia, tudo isso. Graças a Deus, com o passar do tempo, eles foram ver que o deficiente físico poderia colaborar e prestar um serviço para a sociedade. E hoje eu vejo com muita alegria tudo isso que se faz hoje. Ontem li uma notícia que o primeiro juiz cego do Brasil está assumindo como desembargador no Paraná,  para o Tribunal Regional do Trabalho. Poxa vida! Isso é fantástico. É uma conquista muito grande. Então tudo isso é questão de educação. Tudo envolve educação. Participei disso como ator, sofrendo as conseqüências disso tudo. Uma vez prestando concurso interno em um banco lá em Altinópolis, passei em primeiro lugar, o gerente me chamou na sala e falou ‘Olha Valter, você passou em primeiro lugar, porém eu não posso te contratar porque eu tenho um indicado aqui que é o melhor cliente do banco e tenho que atendê-lo.’ Respondi ‘Concordo plenamente.’ Saindo da sala do gerente, o contador disse ‘Você viu, Valter, por que você não pode ser contratado, né?’, ‘Sim, ele me falou.’, ‘Então, você não poderia pegar a máquina de escrever com uma mão só do balcão e colocá-la em cima de uma mesa!’

IncRibeirão – Só por isso?

Prof. Valter – Só por isso. Então são situações que hoje evoluíram.  E obrigatoriamente o Estado exige que seja dada acessibilidade, oportunidade, não é ainda de uma forma ideal, mas é um avanço muito grande.

IncRibeirão – Ao menos existem as leis para que possam ser cobradas.

Prof. Valter – Sim, sim!

IncRibeirão – Não que elas sejam aplicadas.

Prof. Valter – Mas elas começam a ser. Hoje, todos os prédios públicos têm que ter acessibilidade. Uma faculdade que não tem acessibilidade, não tem curso autorizado. Com essas modificações, nós tivemos a oportunidade de oferecer, lá na Barão de Mauá, a formação a uma deficiente visual total, a Ana Maria Coutinho, e a um pedagogo. Há pouco tempo, uma aluna concluiu o curso de História. E isso tudo pela obrigatoriedade da lei, se não houvesse essa conscientização, essas pessoas estariam à parte, não teriam oportunidade. São poucos? São poucos, mas sempre é um início. Comparo a educação com moda, estilo. A moda vai e volta. E a educação é um pouco isso. Muda um governo, muda um processo, daí um pouco volta aquilo. Hoje com a semestralidade, o bacharelado, curso três em um (que é o bacharelado mais a licenciatura), estão dando ênfase pra tudo isso. Se você pegar lá em 1939 já tinha isso. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases para a Educação) de 1998 foi uma lei que todos os analistas educacionais falaram que era muito aberta, porque dava liberdade às instituições para que se criasse. A criatividade prevalece. Logo em seguida, veio a regulamentação e acabou voltando ao que era antes. Depois, vieram as diretrizes curriculares. Ótimo! Possui as obrigações e o curso programado dentro das suas características. Porém seguindo algumas regras, que determinam carga horária mínima, duração mínima, determinam inclusive as disciplinas. Do contrário, as comissões que avaliam o curso te direcionam ou te obrigam a isso. Volta ao que sempre foi muito contestado, anterior a 68. Tinha uma lei, a 5.540, que definia os currículos mínimos e o tempo de duração dos cursos. Tinha ali um elenco de disciplinas que obrigatoriamente tinha que constar do currículo da sua escola.Diziam que isso engessava muito a criatividade dos estudantes. Foi revogado, vieram as diretrizes e agora está voltando tudo! Os cursos tecnológicos, superiores. Que equivalem aos de graduação.

IncRibeirão – Os de dois anos?

Prof. Valter – Dois ou três. Não é você quem determina. Ele já vem predeterminado. O nome não é você quem dá, existe um catálogo de denominação.

IncRibeirão – É como um pacote mesmo?

Prof. Valter – Um pacote. Só que antes era o currículo mínimo das profissões regulamentadas. Agora não, agora o tecnológico é dessa forma. Se pegar a graduação, também é dessa forma.  É um vai-e-volta muito grande. A excelência do ensino, a formação de bons profissionais, está concentrada basicamente numa escola séria, onde professores te dêem uma formação correta, exigente e onde haja um alunado comprometido. O resto é o resto. O jeito que se vai fazer isso é supérfluo, a própria estrutura da escola vai administrar isso. Ficar impondo muita regra você desvia recursos que teria que aplicar na qualidade de ensino para cumprir determinações legais. Por exemplo, o nosso centro universitário. Tem que ter no mínimo 30% dos professores com titulação de mestres e doutores. Não estou menosprezando o título de mestre, mas a experiência que tenho é que, às vezes, a pessoa com titulação de mestre não propicia a formação que um graduado propicia. O graduado tem muitas vezes o conhecimento, oratória, tem o dom de ser professor. Hoje se termina a graduação com 21 anos, 22 terminou mestrado, 24 terminou o doutorado. Sem experiência de docência, experiência de vida ou profissional. Mas tem um título. E muitas vezes ele não dá o recado. Já vi muitos e muitos doutores excelentes e respeitados pesquisadores, que na hora de dar uma aula não conseguem. Aquele que ou o aluno dorme ou sai da sala. Ele não consegue transmitir…

IncRibeirão – Tem professor que tem o dom de derrotar a insônia.

Prof. Valter – E tem professor que, ao contrário, consegue fazer com que todo mundo assimile o que ele está dando. Então essa é a grande preocupação do ensino. Se atender as determinações legais para funcionar, às vezes o recurso que é usado deixa de ser aplicado lá onde precisariam. Não só a formação profissional não, a humanística, do cidadão mesmo. Penso que para qualquer curso, é obrigatório o conhecimento da língua portuguesa, da sociologia e de todas essas disciplinas voltadas para a humanidade. Isso daria uma visão para o formando, muito mais consciente do mundo em que ele está envolvido, e aí sim ele poderia ser um agente de transformação.

IncRibeirão – Vivemos muito presos na lógica?

Prof. Valter – Na lógica e no sucesso imediato. O aluno quer concluir o curso hoje e amanhã ele quer estar no mercado de trabalho defendendo o dele, correndo atrás do salário, comprando sua casa, seu carro, etc. Tudo bem que ele faça isso, a escola tem que propiciar oportunidade para que ele cresça também nesse aspecto. Mas se você desse uma formação mais cidadã para ele, mudaria muitos aspectos do mundo. Daí você fala que isso é sonho, é para daqui duzentos anos. Não é.

IncRibeirão – Qual o maior empecilho para que isso seja aplicado hoje nas faculdades, principalmente nas particulares?

Prof. Valter – Não é só faculdades, isso tem que começar no seu início, no ensino de base. Existem muitos colégios que tentam fazer isso. Agora, na faculdade é primordial. Mas não é obrigatório porque não é obrigado a incluir no currículo. Nas diretrizes, todas elas têm uma formação humanística, de cidadão, etc.

IncRibeirão – Por exemplo, em um curso de ciências da computação, como chegar a isso?

Prof. Valter – Você pode. Um curso de medicina por exemplo. De biomedicina, de enfermagem. Tem que formar não só o enfermeiro, o biomédico, não só o farmacêutico. Mas alguém que esteja comprometido com a sociedade, com a comunidade.

IncRibeirão – As pessoas não têm isso em casa, essa noção, e então passam para a escola essa responsabilidade?

Prof. Valter – Não tenha dúvida. Estou com 66 anos. Tenho até hoje os conceitos e os princípios de comportamento envolvendo ética, honestidade. Se bem que honestidade está envolvida na própria ética. Um conceito bem amplo daquilo que eu trouxe de casa. Falo isso por experiência própria, de quarenta e tantos anos conversando com aluno. Por mais que a família queira dar, muitas vezes ela não passa esses valores. Às vezes porque é o próprio exemplo. No meu tempo, a mãe ficava cuidando da educação do filho, acompanhando. Atualmente ela tem que sair para trabalhar. Não condeno isso, primeiro porque ela tem que ter a oportunidade dela. Segundo porque muitas vezes é necessário. O sucesso profissional dela tem que ser considerado. A criança vai sendo criada dentro daquilo que ela vive, e ela vive nessa competitividade e vai entrar passando por cima de todo mundo se ela puder.

IncRibeirão – Bem bárbaro isso.

Prof. Valter – Outro dia atendi a mãe de um aluno que foi reclamar de nota, e que o professor estava perseguindo ele. Fui conversando com ela e questionei, quantos anos tem seu filho? Ela falou 35 anos! A mãe foi reclamar da nota de um filho de 35 anos! Quando fazia o grupo, chegava em casa, falava alguma coisa da escola e minha mãe respondia ‘Você não tem razão!’, ‘Mas mãe, ele me perseguiu!’, ‘Perseguiu coisa nenhuma! Você que não fez a tarefa, que não estudou, você que aprontou dentro da aula e o professor tem razão. Se você tivesse estudado, ficado quieto, feito os exercícios e as provas, ninguém ia te pegar no pé. Foi porque você não fez nada!’ Jamais ela foi lá. Eu pagava o pato perante ela. Nunca me relou a mão ou me deu castigo. Mas o sermão que ela fazia… eu pedia ‘Faça que nem os outros pais, as outras mães, pega a varinha e pode bater, mas não faz sermão, não.’ O sermão era pior do que apanhar. Mas isso é educação de berço.

IncRibeirão – Hoje em dia o sermão não é ouvido, e se bater o pai vai preso…

Prof. Valter – Vai preso e se você fizer qualquer coisa na escola, responde na justiça. É muito difícil.

IncRibeirão – E se o professor der algum sermão, o aluno já fica injuriado.

Prof. Valter – Não está acostumado.

IncRibeirão – Nessas mais de quatro décadas de ensino, principalmente dentro de uma faculdade, onde se gerencia a futura vida profissional e se lida com a dita “melhor fase da vida” da pessoa, quais as histórias que te fazem acordar e ir trabalhar todo dia?

Prof. Valter – Tenho o privilégio de ter feito a colação de grau da mãe, posteriormente da filha e hoje, há pouco tempo, uma senhora me procurou depois de uma colação de grau: eu estava colando grau do neto dela! Isso é um privilégio que nos deixa muito satisfeitos. E vejo o seguinte: na entrada das aulas ou do intervalo, sempre fico ali no pátio e observo os jovens entrando e saindo das salas, principalmente à noite. Percebo a responsabilidade, não só do diretor, do professor, mas do servente e de todo mundo envolvido dentro de uma escola. É uma responsabilidade que envolve pessoas que estão em busca de uma vida melhor. Pessoas que muitas vezes você vê e pensa, ‘Eu tenho que oferecer algo para que essa pessoa cresça.’ E a responsabilidade aí até nos dá medo. Porque se a gente falhar, se a estrutura toda falhar, essas pessoas ficarão decepcionadas e não conseguirão alcançar os objetivos delas. Isso nos traz um senso de responsabilidade e preocupação muito grande. Mas também nos traz muita alegria quando você sai e vai numa escola de 2º grau e vem os professores, o diretor, a diretora, te abraçar e dizer ‘Puxa vida, Valter, que bom! Lembra de mim? Sou ex-aluna de lá. Estou aqui porque tive um problema lá e você me ajudou, incentivou. E estou aqui graças a você.’ Isso traz uma satisfação muito grande. Situações nesse tempo todo, inúmeras nesse aspecto, é difícil situar uma ou outra. Muitas vezes, por exemplo, a família chega aqui, deixa o aluno, o filho, e aí, ao invés dele aproveitar aquela liberdade para desenvolver as atividades e estudar, por companhia ou razões outras que não vêm ao caso, ele acaba indo para um outro lado, e o pai chega aí depois de dois anos pensando que o filho está para terminar, e ele nem matriculado está.

IncRibeirão – Já aconteceu do pai chegar e nem matriculado o filho estava?

Prof. Valter – Teve! Muitas vezes. Pai vir para a colação de grau e o filho não ter terminado nem o primeiro ano. Me vem aquele sentimento de frustração, mas ao mesmo tempo até de alegria porque eu pude ajudar um pai a tirar o filho de onde ele estava. Quando o pai vem e diz como o filho está, eu falo e já falei muitas vezes, ‘pega teu filho, leva com você, dá atenção para ele, leva embora.’ Perguntavam, ‘mas e a escola?’. ‘Escola é secundário, cuida do teu filho que ele está precisando mais de você.’ São situações assim que muitas vezes me lavam a alma. Que gostoso trabalhar com pessoas que você pode ajudar. Propiciar condições para que ela cresça, para que amanhã seja um cidadão consciente, cumpridor dos seus deveres, trabalhador. Onde é a biblioteca hoje, tinha na parte de cima, como um anfiteatro, mas era reto. Chamávamos de Jumbão, porque tinha o supermercado Jumbo Eletro e lá também era grande. Um belo dia, chegam para fazer matrícula um senhor, a esposa dele e a filha. Na época existia o crédito educativo e o pai questionou onde poderia ver o crédito. Falamos ‘O senhor vai no Jumbão e pega todas as informações.’ Ele saiu. Três horas da tarde, no sol de Ribeirão Preto, chegam o senhor, a mulher e a filha transpirando, todos molhados, e ele disse ‘Oh moço, o senhor mandou, fui lá no Jumbo mas lá não tem crédito educativo.’, ‘Mas onde o senhor foi?’, ‘Ué, lá no Jumbo Eletro da Independência!’ Ele foi à pé da Barão Central até lá!

IncRibeirão – E sua vida como aluno, como foi?

Prof. Valter – Na época tinha o grupo, o ginásio, o colegial que era feito se a opção de seguir carreira fosse na área de saúde, ou clássico para a área de humanidades. Em Altinópolis não tinha nem ginásio na época. Tínhamos que ir para Batatais. Logo em seguida inauguraram em Altinópolis e eu terminei lá. Mas para continuar, tínhamos que ir para Batatais ou Ribeirão.  Era só eu e minha mãe e não tínhamos condições, tinha que trabalhar. Minha mãe foi muito legal comigo porque na segunda série do ginásio eu reprovei. Reprovei em matemática e minha nota está lançada no livro lá, 4,999 e a média era 5. E para se ter uma idéia, eu trabalhei na secretaria do ginásio e fui lá ver. Mas tinha reprovado e minha mãe não foi reclamar, não! Deu uma dura em mim, que deveria ter estudado mais para alcançar o cinco. Ela disse que eu ficaria velhinho, mas que o ginásio eu iria terminar, porque iria precisar. Terminei, comecei a trabalhar lá, mas vi que não seria possível, era uma cidade muito pequena. Na época, fazia a conta-corrente de uma cooperativa. O presidente era o mesmo da CAFECAN em Ribeirão. Era de cafeicultores, na época uma potência, uma das maiores empresas de Ribeirão em volume de dinheiro. Ficava na Avenida dos Bandeirantes, um daqueles 3 armazéns que tem lá, o do meio. E ele me trouxe para Ribeirão e fiz o técnico de contabilidade no Senac.

IncRibeirão – Isso contava como o segundo grau?

Prof. Valter – Sim, como segundo grau. Logo em seguida comecei a trabalhar na Barão de Mauá como técnico em contabilidade. O tempo passou, trabalhei na secretaria, no expediente, e lá fui conquistando a simpatia dos professores, dos alunos, dos proprietários da escola, e chegou numa ocasião que veio a faculdade. Em agosto de 1968, nós começamos a faculdade. Comecei a atender, conhecendo todo mundo, eles gostando de mim. Trabalhando com o doutor Domingos João Batista Spinelli e o senhor Fávaro, fundadores. Quando o professor Nicolau Filho assumiu juntamente com o dr. Domingos, ele me colocou como Diretor de Ensino da faculdade sem eu ter um curso superior.  Eu falei ‘Mas professor, eu não tenho nem curso superior, como eu vou conversar com esses professores?’ Ele respondeu ‘Se der algum problema, manda vir conversar comigo.’ E eu assumi. Mas vi a necessidade de ter um curso superior. Me casei e minha primeira filha não conseguia sugar o leite de minha esposa. O médico insistindo e ela chorava muito. Então colocava as duas no carro e começava a andar. O carro, com aquele balanço, a acalmava. Um dia, passando em frente à Unaerp, falei para minha mulher ‘Vou entrar aqui, fazer a inscrição pro vestibular e vou terminar Direito.’ Havia feito dois anos na municipal de Franca. Não aproveitei nem os créditos, comecei da estaca zero. Casado, com 36 anos, aquela meninada e foi uma experiência maravilhosa.
O senhor cursou direito?
Cursei direito, no meu histórico creio que não tenha nenhuma falta, nunca peguei uma dependência e trabalhando os três períodos. Fazia o curso à tarde. Saía de casa, deixava minha esposa no Santa Úrsula (antigo colégio), vinha para a Mauá ver se estava tudo em ordem, corria para a Unaerp, depois corria para a Mauá às 16h30, às 18h pegava minha esposa e levava para casa, e às 19h estava de volta na Mauá. Ficava até as onze da noite. E trabalhava aos sábados.

IncRibeirão – Durante quanto tempo isso?

Prof. Valter – Os quatro anos do curso. Muitas vezes ia pra casa e no caminho pensava em largar o curso. E o que me levou a terminar e a depois fazer outras coisas era o medo de me arrepender dali dois, três anos.     E consegui terminar. Fiz alguns cursos, que chamaria de extensão, na área educacional. Já conhecia tudo. Hoje nem tanto, mas antigamente eu sabia bastante da área de legislação educacional. Mas a gente vai ficando velho e esquece tudo. (risos)

IncRibeirão – O senhor fez algum mestrado, doutorado?

Prof. Valter – Não, não. Mas ainda vou fazer. 66 anos, eu ainda vou fazer. Não sei se ano que vem, mas vou. No direito, tem alunos com 60. Tem um amigo meu com 55 anos! Ele diz que tem que pagar a mensalidade em dia porque tem 55% de desconto. Mas eu vou fazer mestrado. Minha filha está terminando e assim que ela acabar o dela, eu começo o meu. Fiz até inscrição no Moura Lacerda, depois fui lá me informar e o valor era considerável. Até dava para pagar, mas não achei justo eu fazer um mestrado e minha filha não. Porque ela havia entrado na Unaerp e não dava para manter os dois. E logo depois que ela começou, conseguiu uma bolsa da CAPES. Ela não pagou e ganhou um salário para estudar. Mas ainda vou fazer um mestrado, numa estadual ou federal.

IncRibeirão – O senhor tem alguma área específica?

Prof. Valter – Sempre nessa área educacional. Mais administrativa, legal, o que dá o suporte para tudo isso. Hoje uma escola está como empresa. Por exemplo, você falou que seu pai é contador. Ele tem que ficar lendo, pois de meia em meia hora sai uma legislação nova.

IncRibeirão – Todo dia ele fala de uma lei nova…

Prof. Valter – A escola está do mesmo jeito. Toda hora, todo dia tem uma nova portaria, resolução, parecer, decreto, lei e você tem que interpretar isso. E ainda vou fazer não por efeito profissional. É uma satisfação pessoal. Minha e, se Deus quiser, um exemplo principalmente para os meus filhos. Que graças a Deus eu não tenho preocupação nessa área dos estudos com eles. São estudiosos e bons alunos, mas acho que é ainda algo que gostaria de deixar para eles. Estou deixando um exemplo que, quando todo mundo tinha televisão em casa, a gente tinha lamparina. Saímos daquela, tivemos condição de oferecer um padrão de vida bom para eles. Sempre me portei dentro de princípios morais e éticos de honestidade, que é um exemplo que deixo para eles. E um exemplo principalmente de respeitar as pessoas. Ao invés de olhar o lado negativo, pode ter certeza que qualquer pessoa tem um lado muito bom que se você olhar, o aspecto negativo vai passar. Acreditar nas pessoas.

IncRibeirão – Qualquer pessoa?

Prof. Valter – Acredito que sim, muitas vezes alguém chega e me diz ‘Poxa Valter, o cara te fez de bobo.’ Tudo bem. Mas um me fez de bobo. Quantos eu atendi bem e precisavam que naquele momento alguém acreditasse neles? Porque hoje teve um retorno muito favorável. Esse um que me fez de bobo, azar o dele. Eu acreditei nele. Uma vez, como advogado, recebi um senhor e os filhos dele estudaram lá, e ele estava devendo. Ele chegou perguntando como fazia para pagar. Respondi perguntando ‘De que jeito você pode pagar?’, ‘Ah, eu posso pagar assim, assim.’ Tirei juros, honorários (eu nunca vi honorários na minha vida) e ele perguntou onde iria assinar. Falei que ele não iria assinar nada. Ele vai cumprir se ele quiser. Sempre fiz isso e a maioria cumpriu mais do que se tivessem assinado. Iria fazer o quê? A pessoa chega lá sem condição e vou pisar ainda mais na cabeça do pobre coitado? Muitas vezes não se paga não por falta de vontade, mas por falta de condição. Agora vai afundar mais o cara? Eu estipulava uma quantia e eles pagavam, às vezes muito pouco, mas pagavam.  Teve um que chegou todo pomposo, falando que não iria pagar. Falei ‘Vamos lá, a gente faz um acordo.’ Devia mil reais, que naquela época representava um ano inteiro de curso. Quis pagar em cinqüenta vezes de vinte reais. Mas fiz ele assinar as promissórias, tive uma mão de obra para fazer! Passado algum tempo e perguntei se estava dando tudo certo, se estava pagando. Ele respondeu ‘Eu não, eu não vou pagar aquilo lá nunca! Se quiserem vão me cobrar na justiça.’ Esse me fez de bobo, mas e todos os outros?  Como falei no início da conversa, as pessoas que no ginásio, nas empresas, supermercados, me encontram e falam ‘Graças a você eu concluí o curso, graças a você eu sou o que sou hoje.’  Naquele determinado momento eu acreditei nele. Isso que eu quero deixar para os meus filhos.

IncRibeirão – A lição é acreditar no ser humano?

Prof. Valter – Ah sim, sempre. Sempre acreditar. Isso é de fundamental importância. Você não tem porque não acreditar. As pessoas têm o lado bom e você tem que acreditar, sim. Porque quando você está bem, todos estão ao seu lado. Quando você tropeça, as pessoas ao invés de te darem a mão, querem pisar na sua cabeça, te afundar ainda mais. Poxa, dá a mão, tenta. Às vezes não dá pra ajudar, mas que seja verbal, uma palavra de incentivo e de apoio.  É isso que ela pode estar precisando naquele momento. Acreditar nas pessoas, trabalhando cada um dentro da sua área, procurando fazer da melhor forma possível, sempre pensando no bem estar não só seu, que é de fundamental importância, mas pensando também que outros dependem daquilo. É isso que eu quero deixar para os meus filhos, que eles façam assim, e acredito que eles farão dessa forma.

Palavras Soltas

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