fev 032011
 

Monge… uma questão que sempre me intrigou: Tostines é fresquinho porque vende mais? Ou vende mais porque é mais fresquinho? (Desculpe o merchan). (José Antonio)

Meu caro José Antonio, sobre o “efeito Tostines” e outras contradições do gênero, recomendo a leitura de uma pergunta respondida há alguns meses, sobre o ovo e a galinha. Mas relaxe que o Monge não liga para merchandising. Aliás, não entendo patavinas. Nem sei quem teria que dar dinheiro para quem em uma ação de uso indevido da marca, por exemplo.

Mas enfim, o meio publicitário é muito chato mesmo. Muito ego e pouca criatividade, proporcionalmente. Dezenas de cabeças geniais, confinadas em uma agência com o nobre objetivo de terem “grandes ideias” para aumentar a venda de um determinado produto. De vez em quando surgem algumas boas sacadas, como a famigerada “dúvida cruel” das bolachas Tostines. Mas no geral, clichês e piadinhas sem graça dão o tom dominante.

É a essência da comunicação: todo mundo sempre tem alguma coisa a dizer. Principalmente na hora de vender. O bom vendedor não apenas convence o consumidor de que o produto é bom, mas principalmente o convence a dar o seu dinheiro por aquele produto. É aí que entra a publicidade. Uma piada aqui, uma bela mensagem ali, e o tal consumidor sente simpatia pela marca, torna-se atraído pelo produto. E inicia um relacionamento com aquela empresa, que lhe oferece um produto de forma tão convincente. Mesmo que, no futuro, esta relação acabe em ódio e frustração. No mercado, a monogamia não funciona bem. Toda marca é promíscua por excelência.

ago 312010
 

Querido Monginho, considerando que na maioria dos relacionamentos (qualquer tipo de relacionamento) as pessoas são infiéis em algum momento, qual a relação do ser humano com a traição? Beijos (Nathalia Carvalho)

Querida Nati, a chamada “traição” não precisa ser exatamente uma coisa ruim. Encaremos a coisa como uma mudança brusca de ideia, quando de repente queremos fazer algo diferente do que estamos fazendo. Tal mudança pode ser gerada tanto da própria vontade quanto de alguma influência externa – algo que o parceiro ou colega fez que desagradou a você, uma ideologia diferente, pressão por parte de terceiros etc.

O Monge está tentando pensar em larga escala agora. Quando você diz “qualquer tipo de relacionamento”, na minha cabeça isso inclui amor, família, trabalho, grupos sociais, até mesmo exércitos aliados em uma guerra. Mesmo em situações diferentes, o fenômeno é o mesmo. Se o outro conta com alguma atitude sua, e o que você faz é exatamente o contrário, aí está a traição como a conhecemos.

Não existe “traição menor”. O que muda são as conseqüências dela, de acordo com os contextos do relacionamento que ela afeta. Se um destacamento de um exército resolve debandar e aliar-se ao inimigo, isso pode não fazer diferença no resultado de um conflito, apenas “desestabilizar” a situação que existia anteriormente. Mas se tal debandada ocorre durante uma batalha crucial, onde qualquer desequilíbrio pode fazer a diferença, provavelmente os ex-aliados dos traidores estarão em apuros.

Ok, o exemplo foi um pouco inverossímil. Mas deu para pegar a ideia, não? Da mesma forma, um relacionamento amoroso não irá necessariamente por água abaixo quando ocorre uma traição. A questão, novamente, é a consequência. De repente pode acontecer de a parte traidora apaixonar-se loucamente após o ato, e querer dar um adeus definitivo à antiga companhia. Ou pode ser só uma coisa momentânea, uma vontade carnal irresistível. Claro que uma “escapada” inofensiva também pode acabar definitivamente com um relacionamento, mas aí depende mais da reação da parte traída ao fato. Para algumas pessoas, até mesmo um olhar lânguido para uma terceira seria imperdoável. Por isso mesmo, a comunicação entre as partes é essencial. É sempre interessante saber até onde se pode ir.

abr 222010
 

Alguém quer exemplo melhor de jornalista que o Forrest? O cara simplesmente corre o mundo atrás de histórias e volta para o seu povo para contá-las.

Mais impressionante é a neutralidade quase robótica com que ele conta as histórias. Ele não precisou ser um ávido agente de mudança social. Eu mesmo já acreditei demais da conta nesse triste conceito de que jornalista tem de ser o cidadão que vai esclarecer as mentes, que vai descobrir o que está lá no fundo e trazer à tona. Isso NUNCA acaba bem. O jornalista se auto proclama rei da realidade em que vive. O resultado disso é a indústria manipulativa que se tornou o que eles ainda insistem em chamar de “jornalismo”. São mega corporações agindo como motores de mudança social, não diferente de qualquer jornal de bairro que pretenda o mesmo. Dos dois, a diferença é só o poder de alcance do que é dito.

A realidade propriamente dita já é o motor propulsor das mudanças. Se eu, e 99,99% dos jornalistas, colocássemos mais os pés na rua atrás das histórias (e não com uma pauta pasteurizada em mãos), talvez com o simples fato de mostrarmos as histórias (com o menor nível de subjetividade possível), elas sozinhas já se tornariam o motor propulsor de mudança propriamente dito.

Para quem talvez ainda não tenha percebido, o instigante do Forrest não era a forma como ele contava a história, mas sim a história propriamente dita. Eram histórias que não precisavam ser um cretinismo de autoajuda ou um discurso apaixonado. Era simplesmente a história sustentada por si só, uma vez que ele estava lá para vê-la acontecer. A riqueza de detalhes da testemunha ocular é quase invencível contra qualquer nariz de cera* bem formulado.

O  intuito deste artigo não é querer falar em “imparcialidade”. Não acredito nesse tipo de absoluto. A intenção mesmo é que ao menos um cidadão que leia isso reflita, nem que por alguns segundos. Não devo dizer “ninguém mudará lendo este artigo”, pois a sua pessoa é o conjunto de experiências vividas desde a sua fase de feto até o momento em que lê estas linhas. Apenas reflita mais e pense por si próprio. Não deixe que façam isso por você. Ninguém, principalmente os jornalistas.

* “nariz de cera” é uma expressão usada no jornalismo para designar o que, no popular, chamam de “enchimento de linguiça”; preenchimento desnecessário para dar volume.