Alguém quer exemplo melhor de jornalista que o Forrest? O cara simplesmente corre o mundo atrás de histórias e volta para o seu povo para contá-las.

Mais impressionante é a neutralidade quase robótica com que ele conta as histórias. Ele não precisou ser um ávido agente de mudança social. Eu mesmo já acreditei demais da conta nesse triste conceito de que jornalista tem de ser o cidadão que vai esclarecer as mentes, que vai descobrir o que está lá no fundo e trazer à tona. Isso NUNCA acaba bem. O jornalista se auto proclama rei da realidade em que vive. O resultado disso é a indústria manipulativa que se tornou o que eles ainda insistem em chamar de “jornalismo”. São mega corporações agindo como motores de mudança social, não diferente de qualquer jornal de bairro que pretenda o mesmo. Dos dois, a diferença é só o poder de alcance do que é dito.

A realidade propriamente dita já é o motor propulsor das mudanças. Se eu, e 99,99% dos jornalistas, colocássemos mais os pés na rua atrás das histórias (e não com uma pauta pasteurizada em mãos), talvez com o simples fato de mostrarmos as histórias (com o menor nível de subjetividade possível), elas sozinhas já se tornariam o motor propulsor de mudança propriamente dito.

Para quem talvez ainda não tenha percebido, o instigante do Forrest não era a forma como ele contava a história, mas sim a história propriamente dita. Eram histórias que não precisavam ser um cretinismo de autoajuda ou um discurso apaixonado. Era simplesmente a história sustentada por si só, uma vez que ele estava lá para vê-la acontecer. A riqueza de detalhes da testemunha ocular é quase invencível contra qualquer nariz de cera* bem formulado.

O  intuito deste artigo não é querer falar em “imparcialidade”. Não acredito nesse tipo de absoluto. A intenção mesmo é que ao menos um cidadão que leia isso reflita, nem que por alguns segundos. Não devo dizer “ninguém mudará lendo este artigo”, pois a sua pessoa é o conjunto de experiências vividas desde a sua fase de feto até o momento em que lê estas linhas. Apenas reflita mais e pense por si próprio. Não deixe que façam isso por você. Ninguém, principalmente os jornalistas.

* “nariz de cera” é uma expressão usada no jornalismo para designar o que, no popular, chamam de “enchimento de linguiça”; preenchimento desnecessário para dar volume.

Sexta-feira cedo (29/01) acordo e logo recebo duas congratulações a respeito do “Dia do Jornalista”, uma delas inclusive era um email marketing todo produzido da Faculdade a qual estudo. Até aí tudo bem – apesar de ser extremamente contraditório, eu, cursista do 4º ano recebendo congratulações de uma Instituição de ensino, que como todas as outras, considera jornalista apenas o cidadão com o diploma que comprova seus quatro anos de estudo completos, mas não vem ao caso.

O importante são as datas. Por exemplo: o médico tem seu dia. As especialidades médicas também tem seus grifos no calendário (e são vários dias a se “comemorar”), mas de forma alguma se vê três “Dia do Médico”, seria um absurdo. Para o jornalismo não parece ser.

Entenda a confusão: O “Dia do Jornalista” se repete três vezes ao ano. Você não leu errado. Não é um dia do “jornalista econômico” e outro do “repórter de rua”, são três dias iguais só para o Jornalista!

O primeiro é 24 de janeiro, escolhido por também ser o dia de São Francisco de Sales (padroeiro da profissão).  O segundo dia vem muito tempo depois, dia 29 de janeiro, data da morte do escritor, farmacêutico e jornalista José Carlos do Patrocínio, morto em 1905. A terceira é o dia 07 de abril, data de fundação da ABI – Associação Brasileira de Imprensa, em 1908. Essa última é a mais “difundida” e aceita em publicações oficiais do governo e afins.

Uma profissão tão desorganizada como a nossa, que sequer aceita ser julgada (por achar que está acima da sociedade) precisa mesmo de três datas para encher seu ego. Parabéns, parabéns, parabéns!

(publicada originalmente na edição 6 – junho de 2009 – segunda quinzena)

Rogener Pavinski, 28 anos, filmografista, documentarista, cineasta (ele não aceita o rótulo!), músico, esperantista e modesto. De fala calma, mas de conteúdo, nos brindou com uma cultura ímpar sobre o Esperanto. Língua planejada, dentre muitas que já se criaram, perene (que permanece durante longo tempo) e falada por cerca de dois milhões de habitantes em nosso planeta. Uma opção factual para integração de povos sem perda de sua cultura nativa, identidade ou credo.

Varsóvia, Polônia. Cidade onde morou Ludwik Lejzer Zamenhof , criador do esperanto.

Inconfidência Ribeirão – De onde veio o interesse pelo Esperanto?

Rogener Pavinski – Veio quando eu tinha 12 anos. Meu irmão pegou um livro na rodoviária e levou pra casa. Tinha uma banquinha ou livraria e eles resolveram divulgar um curso introdutório. À partir dali, eu soube o que era o esperanto e depois disso não tive mais contato. Tentei fazer o curso por computador que é muito fácil e bem famoso, mas também não fiz inteiro. No começo de 2002, foi aqui no centro cultural que tinha no Museu de Homeopatia, que havia o curso. Eles organizaram com um mês, todos os dias, um curso de férias. Vieram me convidar, eu já tinha uma base, sabia as regrinhas, aí fiz o curso. Quando eu terminei, comecei a me reunir com o pessoal que fez o curso e estudar uma vez por semana.

Inconfidência Ribeirão – O que é o Esperanto?

Rogener Pavinski – O esperanto é a mais falada língua planejada. Existem outras, ainda vão existir outras, mas o esperanto foi a mais difundida e a que mais deu certo, por vários motivos. Foi iniciada em 1887, quando foi lançada por um oftalmologista polonês chamado Ludwik Lazarz Zamenhof. Ela é neutra, não pertence a nenhum país.

Inconfidência Ribeirão – O Ido seria o esperanto à francesa?

Rogener Pavinski – Isso. Só que ele morreu. Na época, muita gente largou o Esperanto pra ir pro Ido. Mas o Ido morreu cedo porque o Esperanto, além da língua, ele tem uma ideia interna que é a de que cessassem as discordâncias humanas causadas pela não comunicação. O idioma que pertence à um país, ao povo, está intimamente ligada a esse povo. Onde ele nasceu, em Bialystok, na Polônia , falavam-se quatro ou cinco línguas. Tinha os judeus, os alemães, tinha o império russo, entre outros. Ele às vezes nem podia falar o polonês, eram discriminados pela língua e pela etnia, não se comunicavam mutuamente. Desde pequeno ele dizia que sonhava com um mundo onde isso não existisse. A paixão dele sempre foi línguas, sempre foi o lado humano, só que o pai dele o obrigou a estudar medicina. O pai dele sabia muitas línguas, Ludwik aprendeu muito cedo e criou sozinho o Esperanto. Planejou por muito tempo, e no colegial, com 18 anos, lançou pros amigos pra ver se funcionava. Eles tentavam falar só no idioma. Para ele estava bom, pronto, mas teve que viajar pra Moscou e quando ele voltou dizem que o pai havia queimado todos os manuscritos. Fato que não tem comprovação histórica. Ludwig teria recriado a língua, fazendo as devidas correções.

Inconfidência Ribeirão – Como nasce uma língua planejada?

Rogener Pavinski – Os gramáticos e linguistas que criam. Existem línguas que são nacionais, não estudei profundamente cada idioma, mas acredito que a língua falada na Indonésia é 80% planejada, ou seja, não se falava uma língua gramaticalmente estruturada, então planejaram uma para se usar. Por isso ela é bem mais fácil que as línguas próximas (da Indonésia).

Inconfidência Ribeirão – O esperanto está em crescimento ou ele é uma língua que está dentro de uma comunidade específica?

Rogener Pavinski – Ambos. Ele está crescendo, principalmente com a internet que proporcionou o maior uso do esperanto. Tem muitos livros interessantes que, por não serem Best Sellers, não são traduzidos para o português, então, as pessoas lêem em Esperanto. Tem a literatura própria criada no idioma. A língua não tem apoio institucional porque não gera lucro, então, há essa comunidade sim, não diria fechada, que mantém o esperanto, já que os outros países não querem perder a hegemonia de sua língua. O Reino Unido mesmo lucra mais com o ensino do inglês que com a exportação de outros produtos. É equivocado pensar que o Esperanto venha para suplantar alguma língua pátria. Vem como uma segunda língua, uma língua ponte. No Esperanto, toda pessoa pode aprender e chegar ao nível de qualquer outro, porque, quando se trata de língua materna, há um contexto que envolve as pessoas que falam esse idioma que fará com que elas estejam sempre um nível acima daqueles que tentam aprender. No Esperanto isso não acontece. Sem falar também na grande quantidade de dinheiro que é gasto para fazer as traduções de livros para as outras línguas. Com uma língua universal isso não ocorreria.

Inconfidência Ribeirão – Quanto tempo leva em média para se aprender

Rogener Pavinski – O ideal, em dois dias por semana, uma hora ou uma hora e meia por dia. Dizem que é legal ler alguma coisa todos os dias, mesmo um texto pequeno. Em seis meses pode-se aprender a língua, estudando com uma certa linearidade. Tem gente que aprende mais rápido ainda. Tudo depende da disposição da pessoa, mas é muito mais fácil que qualquer outra idioma.

Inconfidência Ribeirão – Você participou de um projeto sobre esperanto…

Rogener Pavinski – Um projeto internacional, que eles estavam procurando fazer um DVD sobre esperanto. Eu entrei no projeto através de uma lista de discussão. Eu acabei fazendo. Durou três anos. Justamente para informar o que é o idioma, como funciona. Foi lançado e tem na internet também. Todo o filme está dividido em seis capítulos. Ele tem 28 línguas em legenda e oito idiomas de dublagem.  e foi feito tudo com colaboração voluntária. Algumas pessoas receberam (remuneração) de fundações que apóiam, mas a tradução foi feita voluntariamente. Tem coreano, chinês, persa, turco…
(www.esperantoe.blogspot.com)

Inconfidência Ribeirão – A música entra aonde?

Rogener Pavinski – Sou músico antes de ser videomaker. A música não entra, a música está. Eu tento juntar as duas coisas que mais me interessam. Música e produção de vídeo. Estou produzindo alguns videoclipes.
Sempre gostei de música. Quando eu aprendi o idioma, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a música. Vi bandas finlandesas, suecas, fazendo umas coisas folclóricas. Eu comecei a ouvir grupos que faziam música em Esperanto, casavam muito bem, achei perfeito e sempre tive vontade de fazer. Surgiu uma oportunidade quando um amigo já tinha um CD. Ele é brasileiro de Campinas, mas mora na Espanha. Tinha feito umas bases de música e depois fiz um poema em Esperanto e ele musicou.

Inconfidência Ribeirão – Você é guitarrista, certo?

Rogener Pavinski – Sim. Sou guitarrista. Ele musicou o poema. Aí começamos a fazer uma colaboração e me chamou pra tocar guitarra. Não evoluiu muito. Ele já tinha arranjado um guitarrista quando eu voltei a falar com ele. Ele me pediu letras, já tinha feito várias bases de música e tava procurando um vocalista. Eu não queria cantar porque eu tava acostumado a cantar mais metal que tem um vocal mais diferente, mais gritado. Eu ajudei a procurar um vocalista e encontramos um, mas era de uma banda sertaneja. Ficou ruim, o cara cantava perfeitamente as notas, mas tinha uma entonação de música sertaneja. Então, por falta de vocalista, eu fiz o teste e entrei na banda. Ele mora na Espanha, o guitarrista amigo dele morava em Campinas e eu moro em Ribeirão, então ele fazia as bases pelo computador, o guitarrista gravava em casa e mandava pra ele e eu gravei aqui em Ribeirão. Gravamos assim, sem ensaiar juntos. Agora a formação mudou, eu estou na voz, guitarra e contra-baixo, um amigo esperantista de Fortaleza, Leandro Moreira, o Roger vai continuar com os teclados e sintetizadores e o baterista é o Rômulo (vocalista e guitarrista da banda Necrofobia de Ribeirão Preto). A gente vai sair em turnê dia 17 de julho, vamos tocar na República Tcheka que é um congresso de jovens esperantistas, na Polônia na cidade do criador do Esperanto pois esse ano se comemoram os 150 anos de seu nascimento e também na Alemanha tem show fechado já. (as músicas podem ser ouvidas em www.myspace.com/supernovaeo)

Inconfidência Ribeirão – Acredita que essa seria a união da ciência e da arte?

Rogener Pavinski – Sim. São dois meios de comunicação: internet e esperanto. Gravamos separadamente, mixamos, sem estar juntos, eu, Roger e o Alexandre. Foi gravado por uma gravadora francesa que tem um selo que lança grupos de música em esperanto.

Inconfidência Ribeirão – Onde encontrar esses CDs de bandas esperantistas no Brasil?

Rogener Pavinski – Pela internet, na Liga Brasileira de Esperanto, tem na biblioteca virtual deles. Também tem no myspace pelo www.myspace.com/supernovaeo. Só não tem loja física, mas pode comprar pela internet.

Inconfidência Ribeirão – Você fala mais alguma outra língua?

Rogener Pavinski – Não. Só inglês que eu aprendi na escola e traduzindo músicas e espanhol de ouvido mesmo. Depois que eu aprendi Esperanto, não me interessei por aprender outra língua. É muito mais fácil, se comparado com qualquer outra língua.+

Palavras Soltas

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