dez 022010
 

Monge, o que você vai pedir neste Natal? (dos milhares de leitores do Monge)

Pergunta básica, feita geralmente por aqueles que querem te dar um presente, mas não tem a mínima idéia por onde começar. Ou então por invejosos de carteirinha, sempre com os olhos voltados para as conquistas e presentes alheios. Mas creio que, na verdade, estão querendo sugestões de coisas para se pedir, não para presentear. Nem sempre sabemos com certeza o que desejamos, e nunca é demais buscar sugestões. Assim como nunca é demais oferecê-las. Continue reading »

Perfeição

 Posted by at 1:28 pm  Pergunte ao Monge
set 152010
 

Por que sempre procuramos defeitos nas coisas? (Natália “Poli” Amaral Antunes)

Simples, minha querida Poli: não sabemos lidar com a perfeição, de jeito nenhum. Ela é apenas um conceito abstrato, uma bela ideia evocada por diversas vezes ao longo da vida. Nada mais que isso. Mesmo assim, nós a buscamos, por vezes ferrenhamente. E quando finalmente achamos que alcançamos o patamar mais elevado possível na escala da perfeição, não demora até que tudo desabe perante um simples sopro, uma simples observação. Porque quando a encontramos, não sabemos o que fazer com ela.

Assim, achar defeito em tudo é algo perfeitamente natural. Para alguns, um hobbie. Para outros, é mais um defeito a ser encontrado nas pessoas. Nada mais chato do que aquele cara que critica tudo, como se nada nunca estivesse bom o suficiente para ele. Mas ele sabe muito bem que o mundo não é perfeito, e regozija-se em apontar isso para os outros. Sim, ele é um chato, mas também pode ser muito útil para o grupo. Porque mesmo que estrague a diversão, ele fatalmente irá reparar nos detalhes que ninguém mais nota, o que pode salvar alguns de situações inconsequentes, que tem tudo para dar muito errado. Mesmo que ele só tenha falado para estragar a diversão do pessoal.

De qualquer forma, reconhecer que alguma coisa não é perfeita não é necessariamente só reclamar e viver de mal com o mundo. A questão aí é qual o efeito daquele defeito na sua vida. Parabéns, você constatou que o seu curso na faculdade está longe de ser perfeito. Ou que aquela menina fantástica com quem você está saindo tem chulé e gases noturnos. Ou mesmo percebeu, depois de reparar muito, que o quadro pendurado no saguão de entrada do seu prédio pende levemente para a esquerda. E daí? Acabou o mundo só porque você notou estes defeitos em algo que você valoriza?

Era perfeito até aquele momento, e agora não é mais. Ufa, não é? Não é confortante saber que os defeitos existem? Porque a perfeição ou é uma ilusão, mascarando os defeitos que aquela pessoa ou situação fatalmente possuem, ou é o prenúncio da decadência. Assim como o caminho histórico das civilizações. A ascensão, o ápice perfeito e a o declínio. O que também é pura física. E é o ciclo natural também. A natureza é um sistema extremamente funcional, mas está longe de ser perfeita. Prova disso somos nós, humanos, que viemos dela. E talvez sejamos os responsáveis por sua queda.

ago 242010
 

Na sua opinião, o que uma pessoa deve fazer quando dá aquela pisada na bola? (“um leitor assíduo…”, anjinhaucb@gmail.com)

Bom, meu querido leitor (ou querida leitora, já que o endereço do email enviado é do gênero feminino), quando uma pessoa dá uma pisada na bola forte mesmo, daquelas que fazem qualquer casa cair, a única coisa que se pode fazer é levantar e seguir em frente. Ninguém está imune a cometer erros históricos, mesmo em situações em que tudo pode ir por água abaixo.

É comum acharmos que o mundo é injusto é cruel quando erramos feio em alguma coisa. Que a sociedade espera que todos sejam perfeitos e infalíveis, e isso se torna uma pressão insuportável sobre o pobre ser humano. Ledo engano. A civilização não parte do princípio de que ninguém pode errar jamais, pelo contrário. Ela tem seus dispositivos legais, penais e morais justamente para dar conta dos erros cometidos por seus integrantes. E vale lembrar, nem todo vacilo é necessariamente um crime.

A questão volta-se para a esfera individual: temos sérios problemas pessoais em admitirmos nossos erros. Todos nós. Porque sempre temos nossos motivos para cada ação que realizamos, sejam elas certas ou não. E por diversas vezes cometemos erros, mas a intenção era boa. E nos sentimos injustiçados quando o outro – seja um único indivíduo ou um grupo social – não compreende nossas razões, ou nossas falhas. Que muitas vezes a gente mesmo também não compreende muito bem, mas pelo menos entende mais de si mesmo do que qualquer outra pessoa, não?

Então é hora de encarar os próprios erros. Não falo só de assumir para si, embora seja uma etapa importante para não cair na autoflagelação mais tarde. Mas assumir o erro perante o outro, para o meio em que se vive. Compreender que toda ação tem suas consequências, e são exatamente com estas que se tem de lidar depois que a burrada já foi feita. Paciência e bola pra frente.

jul 132010
 

Por que as pessoas precisam da rotina em suas vidas? (Jorge Flávio)

A rotina é uma bela forma de controlar a própria vida, não é? Acordar de manhã, tomar o mesmo café de todos os dias, correr para o trabalho ou estudo, almoçar praticamente nos mesmos lugares (seja em casa ou no boteco da esquina do escritório), trabalhar mais, voltar para casa, tomar banho, jantar, assistir a novela e cair na cama. No dia seguinte, a mesma coisa, com mínimas variações. E mesmo quando se odeia com todas as forças a própria rotina, sabemos que enquanto aquilo perdurar, diariamente, a vida estará sob controle. É melhor um comodismo confortável do que a liberdade sem perspectivas, e isso nos é ensinado desde a infância pelas sagradas instituições doutrinadoras: família, religião, escola e televisão.

Animais também possuem rotina, pode reparar. Muitos precisam dela, mais ainda do que o bicho homem. A natureza é cíclica, e faz-se necessário acompanhar o ciclo diário – ou semanal, mensal etc. – para sobreviver. Exemplo besta: imagine um animal que se alimente exclusivamente de corujas, sei lá, uma espécie de gato do mato de paladar excêntrico. Creio que algo assim não existe, mas é só para ilustrar o raciocínio. Pois bem, esse gato do mato não irá obter seu alimento na hora que bem entender, não poderá caçar uma coruja ao meio dia, simplesmente porque não há corujas disponíveis neste horário. Ele precisará esperar até o anoitecer, quando suas presas alegremente sairão de seus covis para suas atividades noturnas. É preciso adaptar-se ao ritmo natural das coisas, e os animais entendem isso bem melhor do que a gente.

Pois embora não pareça à primeira vista, é isso que a rotina significa: adaptação. Encaixar-se num ritmo pré-estabelecido (mesmo que por nós mesmos) para obtermos o máximo possível de sustento em um determinado meio. A diferença é que, enquanto os animais adaptam-se ao ambiente natural, nós humanos substituímos a natureza por outro contexto ainda mais predatório, chamado civilização. Nela, o individuo que não se encaixa em algum dos padrões estabelecidos – e a civilização oferece vários padrões, numa ilusão de que existe liberdade de escolha – não poderá considerar-se parte ativa da sociedade. Aceite a rotina do cotidiano, execute-a com precisão, como todos fazem, na melhor tradição positivista.

No entanto, outra coisa que distingue o bicho homem dos demais bichos é a nossa capacidade de vislumbrar, mesmo que de relance, o que existe além do dia a dia. Um animal não irá abandonar seus hábitos e seu território, a não ser quando forçado pelo meio. Já o ser humano é marcado por essa ânsia de algo mais, de jogar tudo para o alto para correr atrás de alguma coisa que nem ele sabe direito o que é. Ao final, parece que toda rotina humana é construída para ser quebrada em algum momento. O problema é que facilmente nos esquecemos disso. Assim penduramo-nos no cotidiano, como se nele encontrássemos algum alívio para nossas angústias. E muitas vezes o conforto que buscamos está exatamente além.