Auto-ajuda

 Posted by at 5:45 pm  Pergunte ao Monge
jul 292010
 

Por que tratamos os livros de auto-ajuda como “clássicos da atualidade”? Até por que não é uma ajuda a qual eu cheguei sozinha, tem um alguém que está me instruindo para chegar até ela… (Flávia Rossi)

Pois é, como dizia George Carlin, se foi outra pessoa que escreveu um livro que vai te ajudar, isso não é “auto ajuda”, é “ajuda” pura e simples. O conceito de “auto ajuda” soa então como uma grande contradição. Mas na verdade, esse é o menor dos problemas.

Em nossa querida sociedade contemporânea, soluções instantâneas para problemas de ordem prática são vendidos a torto e a direito. Assista meia hora de um canal de compras, por exemplo. Você vai encontrar soluções para problemas persistentes em sua vida, que você nem sabia que existiam! Como pudemos viver tanto tempo sem um processador multiuso? Ou sem uma escada que se transforma em bancada? Ora, o que faríamos sem uma caneta que escreve de ponta cabeça, ou sem uma engenhoca para fazer abdominais sem o mínimo esforço? Essa é a máxima do capitalismo de consumo: convença o público de que ele precisa do produto que você está vendendo.

O universo da auto ajuda, por sua vez, lida com problemáticas presentes na vida de quase todas as pessoas. Como educar bem os filhos, ou ter uma relação melhor com seus colegas de empresa. Como conciliar espiritualidade e materialismo, ou mesmo compreender nossa inevitável finitude. Se existe alguma coisa incomodando a sua vida, cuja solução não venha de algum produto milagroso vendido pela TV ou internet, pode ter certeza de que existe algum livro, filme ou palestra que virá atender aos seus anseios. Os autores geralmente são profissionais de áreas ilustres, de onde praticamente qualquer coisa que se fale será assimilada pelo público com um sorriso de gratidão. “Obrigado por partilhar conosco essa preciosa informação, senhor médico!” “Senhor psicólogo, o senhor entende mesmo do ser humano!” “Senhor empresário de sucesso, não tenho palavras para descrever minha alegria ao ler o seu livro! Espero seguir à risca todas as suas instruções, para que eu possa ser bem sucedido assim como o senhor!” Deu para pegar a ideia, não?

Outra coisa que incomoda ao Monge – um simples estudante de psicologia, que fique bem claro – é o fato que as teorias mirabolantes da auto ajuda tendem a colocar todo mundo no mesmo balaio, ignorando boa parte das experiências individuais de cada um (hum… este é um mal recorrente também em algumas teorias psicológicas, mas creio que não vem ao caso). Se funcionou para quem escreveu o livro, se é que realmente funcionou, pode dar certo para todos. E se não deu, a culpa não pode ser do autor. Ele só quis ajudar.

fev 282010
 

[singlepic id=799 w=200 h=120 float=center]

Caro Monge, venho acompanhando esse site e gostei muito do desempenho do grupo. Agora à pergunta: Monge, você acredita na força da atração? (Do filme O SEGREDO)? (Anônimo Anomimuz, por e-mail)

Meu caro Anônimo, confesso que ainda não havia visto o filme antes de receber sua pergunta. Aluguei-o e pus-me a assistir, tentando deixar a desconfiança de lado para com uma obra cinematográfica tão dada a requintes de auto-ajuda. Mesmo assim, a reação do Monge à mensagem do filme não foi das mais positivas.

A teoria da atração, mote principal da trama e das entrevistas com filósofos, escritores, doutores e um metafísico (existe esta profissão?), diz respeito ao poder do pensamento positivo. Saiba o que você quer, visualize-se desfrutando de seus objetivos, e deixe que o universo fará o resto por você. O universo? Sim, pois de acordo com a teoria, estamos completamente interligados com as energias cósmicas que nos permeiam. Desta maneira, o pensamento positivo age sobre estas forças, levando-as a modificar o rumo da sua vida e, consequentemente, do resto do mundo. Em outras palavras, faz com que o universo conspire a seu favor. Este seria o famigerado Segredo, tantas vezes escondido ao longo da história da humanidade. Sim, é simples desta maneira.

Há uma série de ressalvas que gostaria de apontar, conclusões lógicas misturadas a um sentimento de engodo (enganação) que faziam o Monge revirar-se na poltrona. Primeiramente, o fato de o filme tratar de uma ideia que, de acordo com seus adeptos, pode mudar completamente o curso da humanidade, nos trazendo o potencial de ser ou obter o que quisermos. E esta ideia revolucionária é vendida como uma fórmula mágica, um “segredo” milenar que caiu nas mãos de quem soube fazer dinheiro propagando-a, na forma de um livro e um filme. Muito promissor. O que leva a uma segunda conclusão: a teoria da atração atende diretamente aos anseios de uma sociedade consumista. Quer um carro novo? Imagine-se dirigindo antecipadamente sua BMW novinha em folha. Mais dinheiro? Não pense nas contas a pagar que você irá encontrar na caixa do correio, mesmo que sejam dívidas que você realmente acumulou. Ao invés disso, pense sempre em encontrar ali um cheque com uma porção de zeros. E milagrosamente, o cheque irá aparecer! Acreditem, pois um dos personagens afirma que já aconteceu com ele.

O filme traz orientações sobre como utilizar a teoria em diversos aspectos da sua vida. Por exemplo, nos relacionamentos pessoais. Quando a relação com seu cônjuge, familiar ou melhor amigo estiver indo por água abaixo, pare e pense nas qualidades que aquela pessoa possui, nos bons momentos que viveu com ela. Não pensa na sua injúria com seja lá o que for que aconteceu, não sinta raiva. É o primeiro passo para as coisas se acertarem. Faz sentido, tanto que diversos psicólogos e autores de livros de auto-ajuda recomendariam a mesma coisa. Mas isso porque pensar em coisas boas sobre o outro muda a forma como você encara o problema.

Este é o ponto principal que me angustia em relação à ideia do filme. A teoria propõe uma inversão das relações de causa e efeito na vida de alguém. Como se o pensamento positivo agisse magicamente no mundo ao seu redor, afetando a postura das outras pessoas e transformando o mundo em prol dos seus objetivos. E não mudando a sua postura com relação ao mundo ingrato em que você vivia anteriormente. E uma mudança de visão do mundo, acreditem, muda muito como as pessoas ao seu redor lidam com você. Mas é porque você que está diferente, e não eles.

Há ainda um problema a ser considerado, que faz a lógica tilintar. E se todas as pessoas do mundo resolverem usar este dom ao mesmo tempo? O filme tem a resposta pronta para isso, dizendo que neste mundo há o bastante para todos. E que nem todas as pessoas do mundo desejam as mesmas coisas. Nem todo mundo está interessado em um carro novo, nem em uma promoção no emprego. E isto é verdade, ainda bem. Mas no contexto do filme serve como uma perfeita desculpa para você não sentir-se mal em ser ganancioso e materialista. Afinal, o 1% da população mundial que detém os 95% das riquezas só chegaram aonde estão porque conhecem há muito tempo este Segredo. Ceeerto, vamos fingir então que não há um sistema socioeconômico injusto moendo a todos nós. Que não há quem não dê a mínima para a população, a não ser quando pudermos gerar mais lucro para eles. Eles são sábios, conhecem o Segredo. E o Segredo é pisar na cabeça do outro para chegar mais alto.