fev 242010
 

Muitas vezes há um genuíno engano sobre a denominação jornalística de um texto contido nos jornais. A confusão ganhou força na internet, onde as seções são pouco intuitivas visualmente. Por uma questão financeira, usa-se o mesmo layout gráfico para o site todo, até mesmo para os blogs (resumidamente, layout gráfico diz respeito ao planejamento e distribuição de objetos, ilustrações e normas gráficas em um determinado material, seja online ou impresso).

No próprio Inconfidência Ribeirão usa-se no site a linguagem wordpress para a diagramação do layout gráfico. Linguagem essa que foi primordialmente usada para blogs, mas que nos dias de hoje até o jornal oficial da Universidade de Harvard (Harvard Gazette) faz uso. Além de ser extremamente maleável, a linguagem é gratuita e em código aberto, algo que já faz com que o corte de custos com o departamento de webdesign caia consideravelmente, uma vez que não é preciso criar algo do zero. Porém, como já dito, perde um pouco da intuitividade visual de arrebate (aquela que você olha rápido e já sabe o que é).

Uma vez prejudicado (nos termos de intuitividade visual), o texto fica como um cavalo solto no curral da feira equina. Imagine-se na cena: você, leigo no assunto, chega para conhecer os cavalos, mas lá estão todos misturados e soltos. Andaluz, mangas-largas e árabes. Só olhos treinados sabem diferenciar um do outro para pegá-los do curral e fazer uma análise correta.

O mesmo acontece com o jornalismo (principalmente online, pelos motivos anteriormente citados). Os textos soltos no mesmo curral (neste caso, o layout gráfico) são para olhos treinados distinguirem o que é uma reportagem, um artigo, uma crônica, editorial ou outro tipo de texto que se encaixe em outra denominação jornalística.

A culpa nem de longe é de quem lê o jornal, é inteira de nós jornalistas. A maioria da nossa classe escreve para os outros jornalistas e não para seu público leitor, como diz Ricardo Noblat em seu livro “A Arte de fazer um jornal diário” (Editora Contexto, 2002): “Os leitores acham que o cardápio de assuntos dos jornais está mais de acordo com o gosto dos jornalistas do que com o gosto deles, é que a visão que os jornalistas têm da vida é muito distante da visão que eles têm.”

Aqui pelas bandas inconfidentes, tentamos fugir ao máximo disso. Bebemos da fonte do jornalismo literário (ou novo jornalismo), à qual teve sua consagração na década de 1960 pelas mãos de Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe, entre outros. Essa modalidade não falta com a verdade, pelo contrário, ela te dá uma visão que um jornal de linguagem mais factual jamais conseguiria dar. Mas ainda sim, os textos estão no mesmo curral jornalístico, distinguível apenas para olhos treinados. O objetivo deste texto é tentar desfazer um pouco dessa confusão, apesar de não ser tarefa fácil para um texto curto como este. Para se ter ideia, o Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo, escrito por Eduardo Martins, beira as 400 páginas e  é direcionado aos estudantes de jornalismo e profissionais que aspiram uma vaga ou já trabalham lá.

Discriminação

Para discriminar (ou seja, “descrever, caracterizar ou listar com minúcia” como definido no dicionário Caldas Aulete) esses “cavalos”, que no caso são as denominações de um texto jornalístico, será feito apenas uma leve descrição em relação aos textos contidos neste site.

Artigo - Esse gênero tem como base a opinião acerca de um assunto. Não é necessário que seja feita uma apuração minuciosa com fontes para expressar a opinião. Isso não significa que o texto faltará com a verdade em algum momento. Os textos do “Pergunte ao Monge” servem como exemplo ilustrativo.

Crônica – Como dito no Manual da Redação da Folha de São Paulo, é um “gênero em que o autor trata de assuntos cotidianos de maneira mais literária que jornalística. Pode ser também um pequeno conto”. Em outras palavras, a crônica não tem obrigação de verdadeira (porém isso não impede que seja). O texto Existencialismo no Deserto (clique para vê-lo) é uma amostra de uma crônica, onde apenas existe um conto fictício.

Matéria – Tecnicamente, todo texto produzido por um jornal é uma matéria. É consenso entre os manuais de redação dos jornais. Na Folha é dito que a matéria é um “Termo genérico usado para qualquer texto que se produz para jornal. Não use em textos para publicação”. No já citado Manual de Redação e Estilo de O Estado de São Paulo, a matéria “É palavra do jargão jornalístico. Use, conforme o caso, notícia, informação, reportagem, texto, artigo, comentário, editorial, crítica, crônica, etc.”

Reportagem – Gênero jornalístico onde não deve haver opinião por parte de quem a escreve. A opinião deve vir das fontes envolvidas na reportagem. O jornalista é apenas um intermediário entre o acontecimento e o leitor. Como já dito, uma reportagem não tem de obrigatoriamente seguir um único modo de contar uma história. Isso varia de veículo para veículo. Portanto, o Inconfidência Ribeirão não contará uma história da mesma forma que um jornal diário, assim como a revista Piauí jamais terá um conflito textual com a revista VEJA (e nenhum dos citados contará a mesma história da mesma forma). Cada veículo escolhe a forma de passar o que deseja ao seu público (a isso é dado o nome de “linha editorial”).

Imparcialidade

Não existir opinião não é sinônimo de imparcialidade. A todos que leem, há de se ficar atento com veículos que usam o termo “imparcialidade” para designar sua respectiva linha editorial. Um veículo de comunicação se afirmar imparcial é tão verdadeiro quanto uma loja de eletrodomésticos dizer que todas as pessoas do mundo sem exceção poderão levar qualquer mercadoria gratuitamente durante os 365 dias do ano. A própria defesa da imparcialidade é uma forma de parcialidade, pois essa requere que se tome um lado.

Apesar da imparcialidade não existir de forma alguma, não significa que um veículo de comunicação vá chegar ao escracho textual durante uma reportagem. Pelo contrário, vários veículos (assim como este que você lê) prezam pela independência editorial e optam por fazer reportagens que prezem pela diminuição máxima dos traços de tendenciosidade.

Há um abismo de distância entre a ausência de tendenciosidade e a imparcialidade. A primeira tenta impedir na medida do possível que seja imposta uma opinião (leia-se inclinação de ideias) sobre um relato. Já a segunda acredita na isenção de qualquer tipo de julgamento, favorecimento ou juízo de valor.

Para quem ainda não entendeu, será dado apenas um exemplo que se encaixa em qualquer veículo de comunicação:

A partir do momento que se escolheu noticiar um fato e não outro, cai por terra a tal da imparcialidade. Quem disse que o marido ter assassinado a mulher é mais importante do que a renúncia de um governante? Exatamente. O editor escolhe.

Nessa mesma linha argumentativa, um caso clássico ocorreu durante a privatização da Telebrás (uma venda que ultrapassou os R$ 22 bilhões). Para essa notícia, o Jornal Nacional dedicou quatro minutos de seu tempo. Nesse mesmo dia, foram dedicados nada menos que 10 minutos para o nascimento de Sasha (a filha da apresentadora Xuxa).

Cada veículo dá seu determinado juízo de valor para o material que divulgará, ou seja, não existe sob qualquer instância o conceito de imparcialidade. É um ideal indefensável. Só serve como artifício de ludibriação a fim de fazer o cidadão acreditar de forma incontestável tudo que lhe for dito.

Só espere imparcialidade de uma balança (de preferência uma bem regulada e devidamente testada).