abr 272010
 

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Monge, por que a corrupção no Brasil anda tão alarmante? (Fábio Alves)

Anda mesmo? Eu nem havia percebido. Tudo parece estar tão bem! Ainda mais em ano eleitoral. Todo político sai às ruas com aquela cara de que soltou pum mas não foi ele. Há sempre muito o que fazer! Inaugurar obra pela metade, viajar muito, dar entrevistas mil. É necessário fazer muito barulho para abafar os gritos daqueles que querem tirar sua dignidade, acusando-o de corrupto, resgatando os processos e as provas existentes contra ele. Oposição, sabe como é. Fazem qualquer coisa.

E neste ano, particularmente, a coisa anda difícil. Enchentes, desabamentos e um monte de gente desabrigada. Manifestantes, grevistas e a população indignada. Bando de desocupados, o que estão pensando? Não tem que trabalhar não? Chegaram ao cúmulo de meter o bedelho no processo eleitoral, exigindo a aprovação da Lei da Ficha Limpa. Tão sonhadores! Se uma lei dessas pega, não sobra quase nada dos candidatos. Tanta gente boa que não vai poder se eleger, só porque dizem que ele desviou alguns milhões dos cofres públicos! Essa gente não entende nada, esses que querem uma política “limpa” e “honesta”. O que eles chamam de “corrupção” nada mais é do que uma remanescência histórica, do tempo das caravelas. Para cuidar de uma terra tão grande e diversificada quanto a nossa, são necessários alguns sacrifícios. Trocas de favores, acordos obscuros, movimentos por baixo do pano. E já que se está nessa levada, o que custa pegar um tanto desse monte de dinheiro que é movimentado pelo poder público? Ninguém nota a diferença, nem mesmo com a nota na mão. É o mínimo de benefício que um bom político – não o político honesto, mas o político que sabe como a coisa funciona – deve poder usufruir.

Ironias à parte, o Monge acredita que este é o pensamento padrão de boa parte da “elite política” deste país. Não falo somente daqueles que adquirem cargos e fazem disso uma carreira, mas de muita gente que acompanha os bastidores políticos, mesmo que à distância.  Porém, o povo não é bobo. Este é um bordão antigo, mas há quem ainda pense que é fajuto. Que é só jogar migalhas de pão e de diversão que ninguém vai se importar com as migalhas de segurança, habitação e educação que são dispensadas à população. E isto só para falar dos aspectos mais básicos da atuação pública. Enquanto isso, o resto do bolo fica para eles e para os seus amigos abastados. O que era para ser obrigação torna-se exceção. Porque nos surpreendemos tanto quando nos deparamos com alguma ação política que deu certo, que atendeu aos interesses daqueles que elegeram seus representantes? Porque a corrupção só aparece em destaque na mídia quando há alguém que se beneficia com a derrubada do outro? Dá a impressão de ser tudo um grande jogo, onde além de não explicarem as regras, as cartas estão marcadas. A banca de apostas, então, nem se fala.

Um ano eleitoral…

 Posted by at 8:58 pm  Crônicas, T.I.
mar 172010
 

Esta é uma história atemporal e de ficção.

João não queria votar. Não gostava de se sentir obrigado a escolher representantes para sua cidade, seu estado, seu país. Pensava em como seria bom se as eleições no Brasil fossem como nos Estados Unidos, onde o voto é facultativo. Sai de casa e dá o seu voto no dia da eleição quem quer. João não acreditava em político nenhum, em promessa nenhuma. Sempre tentava viajar em época de eleição. Ia para a casa da família da namorada, que morava em outra cidade. Visitava a tia em São Paulo. Uma vez passou o fim-de-semana do segundo turno das eleições presidenciais na praia, como se fosse um feriado só para ele. Não votava. E injuriava quando era obrigado a comparecer na sua zona eleitoral, pois não é permitido justificar o voto eternamente. Nestas situações, ficava bravo como o diabo por ter que se deslocar até um colégio no centro da cidade, ver aquela sujeira de “santinhos” dos candidatos, que afirmam sempre que não tem nada a ver com aquela papelada que emporcalha as ruas e entope bueiros, pois quem joga os “santinhos” na rua é a população. Pois sim. Mais um motivo para odiar o período eleitoral. Mas mesmo assim João sempre tinha a solução prática, a inviabilização do seu papel como eleitor e que funcionava para ele como um protesto silencioso: votava nulo.

Maria gostava das eleições. Era contaminada por aquele espírito que a mídia chama de “festa da democracia”. Sentia-se importante, parte ativa da sociedade. Era bem informada sobre os candidatos e suas propostas, sem jamais se ater a ideologias ou partidos. Em uma determinada eleição presidencial havia dado seu voto nos dois turnos a um certo candidato, porém quatro anos depois votou no candidato que se opunha às ideias do primeiro. Não que fosse incoerente nem facilmente manipulada, pois Maria era fiel à sua própria lógica. A cada eleição, dava seu voto àqueles cujas propostas melhor se posicionavam na busca de soluções para os problemas tanto dela quanto da sociedade. Claro que tinha suas preferências, mas nunca se sentiu presa. Gostava dessa liberdade, da possibilidade de escolher quem ela quisesse. E ela sempre escolhia. Jamais votara nulo ou em branco, achava um desperdício da participação ativa no processo democrático. Sempre haveria um candidato que poderia valer a pena.

Mais um ano eleitoral chegou e passou, novos e velhos representantes foram eleitos. Tempos depois, intrigas, baixarias e muita sujeira. O país tornava-se um caos, a política afundava na sua própria lama. Conflitos e passeatas por todos os lados. João, no conforto de sua casa, assistia a tudo aquilo estupefato, com uma expressão que dizia “eu sabia, político nenhum presta”. Estava triste, mas a responsabilidade não era dele, não havia votado em nenhum daqueles canalhas. Maria, por sua vez, remoia sua mágoa. A maioria dos candidatos no qual votara estava envolvida no redemoinho de escândalos. Doía sentir-se responsável, mas alguma coisa dentro dela dizia que não havia motivo para tanta culpa. Considerava a picaretagem e a bandidagem política como um ato de traição por parte daqueles em quem acreditou e depositou suas esperanças de um futuro melhor para a nação. Nas eleições seguintes, quem sabe as coisas podiam melhorar. Acreditava nisso, atinha-se a esse sentimento a cada quatro anos. E ainda havia as eleições municipais…

Moral da história: na política brasileira, nem sempre o problema está no eleitor.