(publicada originalmente na edição 11 – setembro de 2009 – segunda quinzena)

Professor, diretor, reitor, amigo, pai. Durante as últimas quatro décadas esse jovem de cabelos brancos ensina, através de ensinamentos ou exemplo de vida, centenas de jovens (e adultos). Professor Valter é pró-reitor acadêmico do Centro Universitário ‘Barão de Mauá’. Concedeu-nos o prazer deste Colóquio no bar da Cláudia, na Lagoinha. Local onde encontra os amigos e brinda a vida.


IncRibeirão – Qual é a motivação que o senhor tem para, depois de 43 anos, continuar trabalhando com educação?

Prof. Valter – Não são bem 43 anos, acho que é um pouco mais. Há 43 que eu trabalho no Centro Universitário ‘Barão de Mauá’. Mas antes eu trabalhei no ginásio do estado em Altinópolis. Fiz uns cálculos e dos meus 66 anos, praticamente a minha vida toda eu passei dentro de uma escola. Ora como aluno, ora trabalhando.

IncRibeirão – Então o senhor nunca saiu da escola!?

Prof. Valter – Tive muitas oportunidades, até que não faltaram, não. Vejo isso como um avanço muito grande em nossa realidade até quando analiso a minha própria trajetória. Desde a infância, minha juventude, até hoje. Pensei ‘Pô, vou falar isso para os meninos. ’ Tenho um defeito no braço esquerdo, pois tive paralisia aos seis anos de idade. E isso dificultou muito, era um trauma e uma dificuldade muito grande em suplantar. Porque tudo o que você faz com dois braços, eu teria que fazer com um. E não se pode, hoje, se colocar na mesma posição. Existem todas as facilidades. Há quarenta anos, não existia computador, nem se ouvia falar. Era máquina de escrever Olivetti e tinha um curso pra conseguir um emprego como escriturário, auxiliar de escritório, que era o meu objetivo. Meu pai faleceu quando eu tinha 3 anos, e ficamos eu e minha mãe. Ela sem formação nenhuma, mas linda, maravilhosa, inteligente. Uma pessoa a quem dedico o maior respeito até hoje. Nós tínhamos que estudar e aprender datilografia para conseguir um emprego modesto. E na época dava para se manter. A evolução que eu quero colocar é a seguinte: hoje você vai prestar um concurso público, tem dez por cento das vagas reservadas para um deficiente físico. Tudo tem acessibilidade para o deficiente, ‘ene’ situações que, embora não integralmente entrosado na sociedade, no mercado de trabalho, ele tem mais possibilidade. No meu tempo, pra terem uma idéia, jogava futebol, basquete, sempre gostei de esportes. No futebol, o professor falava que não me levaria pra treinar no Botafogo ou Comercial (morava em Altinópolis, nasci em São Paulo e fui criado em Altinópolis), ‘porque você vai chegar lá e eles não vão te colocar pra treinar de forma alguma por conta do seu defeito físico.’ Prestava concurso, chegava na hora do exame médico, era aprovado para escriturário. Me recordo que passei no concurso público do Banespa, que era o que todo mundo queria, o Banespa e o do Banco do Brasil. Na hora do exame médico, fui obrigado a fazer um exame de datilografia, na frente do médico chefe do Banespa, na rua Quinze de Novembro em São Paulo, porque ele não acreditava que, com uma mão só, eu pudesse datilografar. Depois ele me liberou assim (ou sofreria um processo indenizatório tremendo) ‘Vamos fazer o seguinte, eu vou assinar o laudo (naquela época se trabalhava com camisa branca, manga comprida, abotoada e de gravata). Você vai trabalhar de manga comprida e ninguém vai ver mesmo, então eu vou te liberar.’ Outras vezes passava em concurso público pro Estado, chegava na rua Maria Paula em São Paulo e, depois de uma série de exames, o último era o clínico geral. Ele me perguntou ‘Teve alguma doença grave?’ Falei não. Quando ele começou a me examinar, e colocou a mão no meu braço, perguntou ‘Que que você tem no braço?’, ‘Tenho paralisia infantil.’ O médico falou o diabos pra mim! Que eu estava escondendo, que estava sendo desonesto. Na minha opinião não era uma doença grave, tinha me superado, passado em concurso que constava provas escritas, todos os exames médicos, datilografia, tudo isso. Graças a Deus, com o passar do tempo, eles foram ver que o deficiente físico poderia colaborar e prestar um serviço para a sociedade. E hoje eu vejo com muita alegria tudo isso que se faz hoje. Ontem li uma notícia que o primeiro juiz cego do Brasil está assumindo como desembargador no Paraná,  para o Tribunal Regional do Trabalho. Poxa vida! Isso é fantástico. É uma conquista muito grande. Então tudo isso é questão de educação. Tudo envolve educação. Participei disso como ator, sofrendo as conseqüências disso tudo. Uma vez prestando concurso interno em um banco lá em Altinópolis, passei em primeiro lugar, o gerente me chamou na sala e falou ‘Olha Valter, você passou em primeiro lugar, porém eu não posso te contratar porque eu tenho um indicado aqui que é o melhor cliente do banco e tenho que atendê-lo.’ Respondi ‘Concordo plenamente.’ Saindo da sala do gerente, o contador disse ‘Você viu, Valter, por que você não pode ser contratado, né?’, ‘Sim, ele me falou.’, ‘Então, você não poderia pegar a máquina de escrever com uma mão só do balcão e colocá-la em cima de uma mesa!’

IncRibeirão – Só por isso?

Prof. Valter – Só por isso. Então são situações que hoje evoluíram.  E obrigatoriamente o Estado exige que seja dada acessibilidade, oportunidade, não é ainda de uma forma ideal, mas é um avanço muito grande.

IncRibeirão – Ao menos existem as leis para que possam ser cobradas.

Prof. Valter – Sim, sim!

IncRibeirão – Não que elas sejam aplicadas.

Prof. Valter – Mas elas começam a ser. Hoje, todos os prédios públicos têm que ter acessibilidade. Uma faculdade que não tem acessibilidade, não tem curso autorizado. Com essas modificações, nós tivemos a oportunidade de oferecer, lá na Barão de Mauá, a formação a uma deficiente visual total, a Ana Maria Coutinho, e a um pedagogo. Há pouco tempo, uma aluna concluiu o curso de História. E isso tudo pela obrigatoriedade da lei, se não houvesse essa conscientização, essas pessoas estariam à parte, não teriam oportunidade. São poucos? São poucos, mas sempre é um início. Comparo a educação com moda, estilo. A moda vai e volta. E a educação é um pouco isso. Muda um governo, muda um processo, daí um pouco volta aquilo. Hoje com a semestralidade, o bacharelado, curso três em um (que é o bacharelado mais a licenciatura), estão dando ênfase pra tudo isso. Se você pegar lá em 1939 já tinha isso. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases para a Educação) de 1998 foi uma lei que todos os analistas educacionais falaram que era muito aberta, porque dava liberdade às instituições para que se criasse. A criatividade prevalece. Logo em seguida, veio a regulamentação e acabou voltando ao que era antes. Depois, vieram as diretrizes curriculares. Ótimo! Possui as obrigações e o curso programado dentro das suas características. Porém seguindo algumas regras, que determinam carga horária mínima, duração mínima, determinam inclusive as disciplinas. Do contrário, as comissões que avaliam o curso te direcionam ou te obrigam a isso. Volta ao que sempre foi muito contestado, anterior a 68. Tinha uma lei, a 5.540, que definia os currículos mínimos e o tempo de duração dos cursos. Tinha ali um elenco de disciplinas que obrigatoriamente tinha que constar do currículo da sua escola.Diziam que isso engessava muito a criatividade dos estudantes. Foi revogado, vieram as diretrizes e agora está voltando tudo! Os cursos tecnológicos, superiores. Que equivalem aos de graduação.

IncRibeirão – Os de dois anos?

Prof. Valter – Dois ou três. Não é você quem determina. Ele já vem predeterminado. O nome não é você quem dá, existe um catálogo de denominação.

IncRibeirão – É como um pacote mesmo?

Prof. Valter – Um pacote. Só que antes era o currículo mínimo das profissões regulamentadas. Agora não, agora o tecnológico é dessa forma. Se pegar a graduação, também é dessa forma.  É um vai-e-volta muito grande. A excelência do ensino, a formação de bons profissionais, está concentrada basicamente numa escola séria, onde professores te dêem uma formação correta, exigente e onde haja um alunado comprometido. O resto é o resto. O jeito que se vai fazer isso é supérfluo, a própria estrutura da escola vai administrar isso. Ficar impondo muita regra você desvia recursos que teria que aplicar na qualidade de ensino para cumprir determinações legais. Por exemplo, o nosso centro universitário. Tem que ter no mínimo 30% dos professores com titulação de mestres e doutores. Não estou menosprezando o título de mestre, mas a experiência que tenho é que, às vezes, a pessoa com titulação de mestre não propicia a formação que um graduado propicia. O graduado tem muitas vezes o conhecimento, oratória, tem o dom de ser professor. Hoje se termina a graduação com 21 anos, 22 terminou mestrado, 24 terminou o doutorado. Sem experiência de docência, experiência de vida ou profissional. Mas tem um título. E muitas vezes ele não dá o recado. Já vi muitos e muitos doutores excelentes e respeitados pesquisadores, que na hora de dar uma aula não conseguem. Aquele que ou o aluno dorme ou sai da sala. Ele não consegue transmitir…

IncRibeirão – Tem professor que tem o dom de derrotar a insônia.

Prof. Valter – E tem professor que, ao contrário, consegue fazer com que todo mundo assimile o que ele está dando. Então essa é a grande preocupação do ensino. Se atender as determinações legais para funcionar, às vezes o recurso que é usado deixa de ser aplicado lá onde precisariam. Não só a formação profissional não, a humanística, do cidadão mesmo. Penso que para qualquer curso, é obrigatório o conhecimento da língua portuguesa, da sociologia e de todas essas disciplinas voltadas para a humanidade. Isso daria uma visão para o formando, muito mais consciente do mundo em que ele está envolvido, e aí sim ele poderia ser um agente de transformação.

IncRibeirão – Vivemos muito presos na lógica?

Prof. Valter – Na lógica e no sucesso imediato. O aluno quer concluir o curso hoje e amanhã ele quer estar no mercado de trabalho defendendo o dele, correndo atrás do salário, comprando sua casa, seu carro, etc. Tudo bem que ele faça isso, a escola tem que propiciar oportunidade para que ele cresça também nesse aspecto. Mas se você desse uma formação mais cidadã para ele, mudaria muitos aspectos do mundo. Daí você fala que isso é sonho, é para daqui duzentos anos. Não é.

IncRibeirão – Qual o maior empecilho para que isso seja aplicado hoje nas faculdades, principalmente nas particulares?

Prof. Valter – Não é só faculdades, isso tem que começar no seu início, no ensino de base. Existem muitos colégios que tentam fazer isso. Agora, na faculdade é primordial. Mas não é obrigatório porque não é obrigado a incluir no currículo. Nas diretrizes, todas elas têm uma formação humanística, de cidadão, etc.

IncRibeirão – Por exemplo, em um curso de ciências da computação, como chegar a isso?

Prof. Valter – Você pode. Um curso de medicina por exemplo. De biomedicina, de enfermagem. Tem que formar não só o enfermeiro, o biomédico, não só o farmacêutico. Mas alguém que esteja comprometido com a sociedade, com a comunidade.

IncRibeirão – As pessoas não têm isso em casa, essa noção, e então passam para a escola essa responsabilidade?

Prof. Valter – Não tenha dúvida. Estou com 66 anos. Tenho até hoje os conceitos e os princípios de comportamento envolvendo ética, honestidade. Se bem que honestidade está envolvida na própria ética. Um conceito bem amplo daquilo que eu trouxe de casa. Falo isso por experiência própria, de quarenta e tantos anos conversando com aluno. Por mais que a família queira dar, muitas vezes ela não passa esses valores. Às vezes porque é o próprio exemplo. No meu tempo, a mãe ficava cuidando da educação do filho, acompanhando. Atualmente ela tem que sair para trabalhar. Não condeno isso, primeiro porque ela tem que ter a oportunidade dela. Segundo porque muitas vezes é necessário. O sucesso profissional dela tem que ser considerado. A criança vai sendo criada dentro daquilo que ela vive, e ela vive nessa competitividade e vai entrar passando por cima de todo mundo se ela puder.

IncRibeirão – Bem bárbaro isso.

Prof. Valter – Outro dia atendi a mãe de um aluno que foi reclamar de nota, e que o professor estava perseguindo ele. Fui conversando com ela e questionei, quantos anos tem seu filho? Ela falou 35 anos! A mãe foi reclamar da nota de um filho de 35 anos! Quando fazia o grupo, chegava em casa, falava alguma coisa da escola e minha mãe respondia ‘Você não tem razão!’, ‘Mas mãe, ele me perseguiu!’, ‘Perseguiu coisa nenhuma! Você que não fez a tarefa, que não estudou, você que aprontou dentro da aula e o professor tem razão. Se você tivesse estudado, ficado quieto, feito os exercícios e as provas, ninguém ia te pegar no pé. Foi porque você não fez nada!’ Jamais ela foi lá. Eu pagava o pato perante ela. Nunca me relou a mão ou me deu castigo. Mas o sermão que ela fazia… eu pedia ‘Faça que nem os outros pais, as outras mães, pega a varinha e pode bater, mas não faz sermão, não.’ O sermão era pior do que apanhar. Mas isso é educação de berço.

IncRibeirão – Hoje em dia o sermão não é ouvido, e se bater o pai vai preso…

Prof. Valter – Vai preso e se você fizer qualquer coisa na escola, responde na justiça. É muito difícil.

IncRibeirão – E se o professor der algum sermão, o aluno já fica injuriado.

Prof. Valter – Não está acostumado.

IncRibeirão – Nessas mais de quatro décadas de ensino, principalmente dentro de uma faculdade, onde se gerencia a futura vida profissional e se lida com a dita “melhor fase da vida” da pessoa, quais as histórias que te fazem acordar e ir trabalhar todo dia?

Prof. Valter – Tenho o privilégio de ter feito a colação de grau da mãe, posteriormente da filha e hoje, há pouco tempo, uma senhora me procurou depois de uma colação de grau: eu estava colando grau do neto dela! Isso é um privilégio que nos deixa muito satisfeitos. E vejo o seguinte: na entrada das aulas ou do intervalo, sempre fico ali no pátio e observo os jovens entrando e saindo das salas, principalmente à noite. Percebo a responsabilidade, não só do diretor, do professor, mas do servente e de todo mundo envolvido dentro de uma escola. É uma responsabilidade que envolve pessoas que estão em busca de uma vida melhor. Pessoas que muitas vezes você vê e pensa, ‘Eu tenho que oferecer algo para que essa pessoa cresça.’ E a responsabilidade aí até nos dá medo. Porque se a gente falhar, se a estrutura toda falhar, essas pessoas ficarão decepcionadas e não conseguirão alcançar os objetivos delas. Isso nos traz um senso de responsabilidade e preocupação muito grande. Mas também nos traz muita alegria quando você sai e vai numa escola de 2º grau e vem os professores, o diretor, a diretora, te abraçar e dizer ‘Puxa vida, Valter, que bom! Lembra de mim? Sou ex-aluna de lá. Estou aqui porque tive um problema lá e você me ajudou, incentivou. E estou aqui graças a você.’ Isso traz uma satisfação muito grande. Situações nesse tempo todo, inúmeras nesse aspecto, é difícil situar uma ou outra. Muitas vezes, por exemplo, a família chega aqui, deixa o aluno, o filho, e aí, ao invés dele aproveitar aquela liberdade para desenvolver as atividades e estudar, por companhia ou razões outras que não vêm ao caso, ele acaba indo para um outro lado, e o pai chega aí depois de dois anos pensando que o filho está para terminar, e ele nem matriculado está.

IncRibeirão – Já aconteceu do pai chegar e nem matriculado o filho estava?

Prof. Valter – Teve! Muitas vezes. Pai vir para a colação de grau e o filho não ter terminado nem o primeiro ano. Me vem aquele sentimento de frustração, mas ao mesmo tempo até de alegria porque eu pude ajudar um pai a tirar o filho de onde ele estava. Quando o pai vem e diz como o filho está, eu falo e já falei muitas vezes, ‘pega teu filho, leva com você, dá atenção para ele, leva embora.’ Perguntavam, ‘mas e a escola?’. ‘Escola é secundário, cuida do teu filho que ele está precisando mais de você.’ São situações assim que muitas vezes me lavam a alma. Que gostoso trabalhar com pessoas que você pode ajudar. Propiciar condições para que ela cresça, para que amanhã seja um cidadão consciente, cumpridor dos seus deveres, trabalhador. Onde é a biblioteca hoje, tinha na parte de cima, como um anfiteatro, mas era reto. Chamávamos de Jumbão, porque tinha o supermercado Jumbo Eletro e lá também era grande. Um belo dia, chegam para fazer matrícula um senhor, a esposa dele e a filha. Na época existia o crédito educativo e o pai questionou onde poderia ver o crédito. Falamos ‘O senhor vai no Jumbão e pega todas as informações.’ Ele saiu. Três horas da tarde, no sol de Ribeirão Preto, chegam o senhor, a mulher e a filha transpirando, todos molhados, e ele disse ‘Oh moço, o senhor mandou, fui lá no Jumbo mas lá não tem crédito educativo.’, ‘Mas onde o senhor foi?’, ‘Ué, lá no Jumbo Eletro da Independência!’ Ele foi à pé da Barão Central até lá!

IncRibeirão – E sua vida como aluno, como foi?

Prof. Valter – Na época tinha o grupo, o ginásio, o colegial que era feito se a opção de seguir carreira fosse na área de saúde, ou clássico para a área de humanidades. Em Altinópolis não tinha nem ginásio na época. Tínhamos que ir para Batatais. Logo em seguida inauguraram em Altinópolis e eu terminei lá. Mas para continuar, tínhamos que ir para Batatais ou Ribeirão.  Era só eu e minha mãe e não tínhamos condições, tinha que trabalhar. Minha mãe foi muito legal comigo porque na segunda série do ginásio eu reprovei. Reprovei em matemática e minha nota está lançada no livro lá, 4,999 e a média era 5. E para se ter uma idéia, eu trabalhei na secretaria do ginásio e fui lá ver. Mas tinha reprovado e minha mãe não foi reclamar, não! Deu uma dura em mim, que deveria ter estudado mais para alcançar o cinco. Ela disse que eu ficaria velhinho, mas que o ginásio eu iria terminar, porque iria precisar. Terminei, comecei a trabalhar lá, mas vi que não seria possível, era uma cidade muito pequena. Na época, fazia a conta-corrente de uma cooperativa. O presidente era o mesmo da CAFECAN em Ribeirão. Era de cafeicultores, na época uma potência, uma das maiores empresas de Ribeirão em volume de dinheiro. Ficava na Avenida dos Bandeirantes, um daqueles 3 armazéns que tem lá, o do meio. E ele me trouxe para Ribeirão e fiz o técnico de contabilidade no Senac.

IncRibeirão – Isso contava como o segundo grau?

Prof. Valter – Sim, como segundo grau. Logo em seguida comecei a trabalhar na Barão de Mauá como técnico em contabilidade. O tempo passou, trabalhei na secretaria, no expediente, e lá fui conquistando a simpatia dos professores, dos alunos, dos proprietários da escola, e chegou numa ocasião que veio a faculdade. Em agosto de 1968, nós começamos a faculdade. Comecei a atender, conhecendo todo mundo, eles gostando de mim. Trabalhando com o doutor Domingos João Batista Spinelli e o senhor Fávaro, fundadores. Quando o professor Nicolau Filho assumiu juntamente com o dr. Domingos, ele me colocou como Diretor de Ensino da faculdade sem eu ter um curso superior.  Eu falei ‘Mas professor, eu não tenho nem curso superior, como eu vou conversar com esses professores?’ Ele respondeu ‘Se der algum problema, manda vir conversar comigo.’ E eu assumi. Mas vi a necessidade de ter um curso superior. Me casei e minha primeira filha não conseguia sugar o leite de minha esposa. O médico insistindo e ela chorava muito. Então colocava as duas no carro e começava a andar. O carro, com aquele balanço, a acalmava. Um dia, passando em frente à Unaerp, falei para minha mulher ‘Vou entrar aqui, fazer a inscrição pro vestibular e vou terminar Direito.’ Havia feito dois anos na municipal de Franca. Não aproveitei nem os créditos, comecei da estaca zero. Casado, com 36 anos, aquela meninada e foi uma experiência maravilhosa.
O senhor cursou direito?
Cursei direito, no meu histórico creio que não tenha nenhuma falta, nunca peguei uma dependência e trabalhando os três períodos. Fazia o curso à tarde. Saía de casa, deixava minha esposa no Santa Úrsula (antigo colégio), vinha para a Mauá ver se estava tudo em ordem, corria para a Unaerp, depois corria para a Mauá às 16h30, às 18h pegava minha esposa e levava para casa, e às 19h estava de volta na Mauá. Ficava até as onze da noite. E trabalhava aos sábados.

IncRibeirão – Durante quanto tempo isso?

Prof. Valter – Os quatro anos do curso. Muitas vezes ia pra casa e no caminho pensava em largar o curso. E o que me levou a terminar e a depois fazer outras coisas era o medo de me arrepender dali dois, três anos.     E consegui terminar. Fiz alguns cursos, que chamaria de extensão, na área educacional. Já conhecia tudo. Hoje nem tanto, mas antigamente eu sabia bastante da área de legislação educacional. Mas a gente vai ficando velho e esquece tudo. (risos)

IncRibeirão – O senhor fez algum mestrado, doutorado?

Prof. Valter – Não, não. Mas ainda vou fazer. 66 anos, eu ainda vou fazer. Não sei se ano que vem, mas vou. No direito, tem alunos com 60. Tem um amigo meu com 55 anos! Ele diz que tem que pagar a mensalidade em dia porque tem 55% de desconto. Mas eu vou fazer mestrado. Minha filha está terminando e assim que ela acabar o dela, eu começo o meu. Fiz até inscrição no Moura Lacerda, depois fui lá me informar e o valor era considerável. Até dava para pagar, mas não achei justo eu fazer um mestrado e minha filha não. Porque ela havia entrado na Unaerp e não dava para manter os dois. E logo depois que ela começou, conseguiu uma bolsa da CAPES. Ela não pagou e ganhou um salário para estudar. Mas ainda vou fazer um mestrado, numa estadual ou federal.

IncRibeirão – O senhor tem alguma área específica?

Prof. Valter – Sempre nessa área educacional. Mais administrativa, legal, o que dá o suporte para tudo isso. Hoje uma escola está como empresa. Por exemplo, você falou que seu pai é contador. Ele tem que ficar lendo, pois de meia em meia hora sai uma legislação nova.

IncRibeirão – Todo dia ele fala de uma lei nova…

Prof. Valter – A escola está do mesmo jeito. Toda hora, todo dia tem uma nova portaria, resolução, parecer, decreto, lei e você tem que interpretar isso. E ainda vou fazer não por efeito profissional. É uma satisfação pessoal. Minha e, se Deus quiser, um exemplo principalmente para os meus filhos. Que graças a Deus eu não tenho preocupação nessa área dos estudos com eles. São estudiosos e bons alunos, mas acho que é ainda algo que gostaria de deixar para eles. Estou deixando um exemplo que, quando todo mundo tinha televisão em casa, a gente tinha lamparina. Saímos daquela, tivemos condição de oferecer um padrão de vida bom para eles. Sempre me portei dentro de princípios morais e éticos de honestidade, que é um exemplo que deixo para eles. E um exemplo principalmente de respeitar as pessoas. Ao invés de olhar o lado negativo, pode ter certeza que qualquer pessoa tem um lado muito bom que se você olhar, o aspecto negativo vai passar. Acreditar nas pessoas.

IncRibeirão – Qualquer pessoa?

Prof. Valter – Acredito que sim, muitas vezes alguém chega e me diz ‘Poxa Valter, o cara te fez de bobo.’ Tudo bem. Mas um me fez de bobo. Quantos eu atendi bem e precisavam que naquele momento alguém acreditasse neles? Porque hoje teve um retorno muito favorável. Esse um que me fez de bobo, azar o dele. Eu acreditei nele. Uma vez, como advogado, recebi um senhor e os filhos dele estudaram lá, e ele estava devendo. Ele chegou perguntando como fazia para pagar. Respondi perguntando ‘De que jeito você pode pagar?’, ‘Ah, eu posso pagar assim, assim.’ Tirei juros, honorários (eu nunca vi honorários na minha vida) e ele perguntou onde iria assinar. Falei que ele não iria assinar nada. Ele vai cumprir se ele quiser. Sempre fiz isso e a maioria cumpriu mais do que se tivessem assinado. Iria fazer o quê? A pessoa chega lá sem condição e vou pisar ainda mais na cabeça do pobre coitado? Muitas vezes não se paga não por falta de vontade, mas por falta de condição. Agora vai afundar mais o cara? Eu estipulava uma quantia e eles pagavam, às vezes muito pouco, mas pagavam.  Teve um que chegou todo pomposo, falando que não iria pagar. Falei ‘Vamos lá, a gente faz um acordo.’ Devia mil reais, que naquela época representava um ano inteiro de curso. Quis pagar em cinqüenta vezes de vinte reais. Mas fiz ele assinar as promissórias, tive uma mão de obra para fazer! Passado algum tempo e perguntei se estava dando tudo certo, se estava pagando. Ele respondeu ‘Eu não, eu não vou pagar aquilo lá nunca! Se quiserem vão me cobrar na justiça.’ Esse me fez de bobo, mas e todos os outros?  Como falei no início da conversa, as pessoas que no ginásio, nas empresas, supermercados, me encontram e falam ‘Graças a você eu concluí o curso, graças a você eu sou o que sou hoje.’  Naquele determinado momento eu acreditei nele. Isso que eu quero deixar para os meus filhos.

IncRibeirão – A lição é acreditar no ser humano?

Prof. Valter – Ah sim, sempre. Sempre acreditar. Isso é de fundamental importância. Você não tem porque não acreditar. As pessoas têm o lado bom e você tem que acreditar, sim. Porque quando você está bem, todos estão ao seu lado. Quando você tropeça, as pessoas ao invés de te darem a mão, querem pisar na sua cabeça, te afundar ainda mais. Poxa, dá a mão, tenta. Às vezes não dá pra ajudar, mas que seja verbal, uma palavra de incentivo e de apoio.  É isso que ela pode estar precisando naquele momento. Acreditar nas pessoas, trabalhando cada um dentro da sua área, procurando fazer da melhor forma possível, sempre pensando no bem estar não só seu, que é de fundamental importância, mas pensando também que outros dependem daquilo. É isso que eu quero deixar para os meus filhos, que eles façam assim, e acredito que eles farão dessa forma.

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(Matéria publicada originalmente na edição “1″, em abril de 2009, primeira quinzena)

No aguardo...

Eles não veem nada. No máximo vultos e luzes. Precisam de um guia – que nem sempre é confiável – para mostrar um lugar antes de caminhar por ele. Pode ser uma haste de metal, um ser humano ou um cachorro. Tentam caminhar pela avenida da cidadania, mas a cidade apenas mostra a rua dos preconceitos. Essa rua teve seu primeiro piso na Grécia antiga, onde os deficientes visuais ficavam às margens da sociedade, sem poder participar ativamente dela.

“Vamos ser pessoas que por acaso portam uma deficiência, não deficientes que por acaso são pessoas”.

Hoje, algumas dezenas de séculos depois, a sociedade evolui em suas leis, mas não em seus atos. O Brasil possui uma Constituição aclamada como cidadã mas não é plenamente cumprida. O conhecimento não é feito para aprisioná-lo em estantes. Mas, alguém se importa com a falta de acesso à informação? Ou com a escassez da legislação em braile? Nem sempre a deficiência é física, como aprendemos com Jesus, um deles. Ou Aquele?

Jesus

Jesus Lopes Conde perdeu a visão aos dez anos. Devido ao sarampo, dizem. Em sua infância foi engraxate e pensava que cego só pedia esmola. Teve medo da cegueira. Nascido em Luziânia, no estado de Goiás, foi bem cuidado e teve apoio da família. O governo, interessado em conhecer os avanços da medicina, pelas mãos do ministro das relações exteriores da época, viajou a Roma para fazer cirurgias de 1969 até 1977. Na Itália, conheceu um cidadão que era cego e que trabalhava como escriturário. Ali percebeu que os deficientes visuais tinham condições de trabalho como qualquer outro cidadão. Esse amigo então recomendou um dos vários programas de inclusão social ativos na época. “Lá é um país marcado pela guerra e tem mais programas pra cegos”, explica.

O guarda-roupa

Voltou com quinze anos para o Brasil. Trabalhou em diversos lugares, desde fábrica de autopeças até na prefeitura de Campinas em um serviço de rádio. Além de Campinas, já morou em Americana e atualmente reside na Associação dos Cegos de Ribeirão Preto. Escreveu quatro livros (dois editados). Um deles, “O Diamante” é vendido em livrarias da cidade.

“Sabe qual a melhor família para se apoiar nos piores momentos? nossa força de vontade”.

Ele busca conhecimento ouvindo noticiário no rádio e interagindo com as pessoas. “Todas informações nós temos que ter. Não podemos ser dogmáticos. Uma informação só é ruim se não a entendermos.” Questionado como escolhe seus candidatos, disse: “Como cego busca o voto eu não sei, mas como EU busco eu sei. O que me falta é só o farol, o motor está funcionando. Não pense porque você tem a visão que você não vai trombar no poste.(…) Não existe uma maneira diferente de cego procurar o voto, existe uma maneira de como a sociedade o incluirá nesse processo”.


Desilusão política

José dos Santos Rodrigues, também conhecido na Associação dos Cegos por “Zezé”, tem 60 anos e é vendedor ambulante. Já acreditou mais nos políticos. Tal desilusão veio quando foi cabo eleitoral (um dos vários cabos deficientes visuais que angariaram votos) de um candidato a vereador também deficiente visual, que por ventura foi eleito pela primeira vez em 1988. Zezé conta que após as primeiras semanas de mandato, foi ao gabinete do vereador eleito pedir que o mesmo propusesse um Projeto de Lei para beneficiar os deficientes visuais. O representante popular negou qualquer ação do gênero; Alegou categoricamente: “os cegos não votaram em mim, não tem o porquê ajudá-los”. Zezé, enfurecido pelo que considerou “traição”, logo mandou seu petardo verbal: “Ô canalha, é o seguinte canalha. O cego não votou em você porque o voto é por cédulas, ele não sabe escrever. Muitos deficientes visuais já nasceram assim. Viu? Canalha!”.

“A pior deficiência é aquela que não é mostrada. Ela está na alma, é o preconceito”.

Momentos de desabafo à parte, Zezé reflete: “O que nós estamos fazendo como seres humanos para melhorar o mundo e impedir que essas coisas aconteçam? Garanto que estamos fazendo muito pouco”. Diz que “esse comportamento é do homem. Acredito que qualquer eleito a um cargo público acabará por tomar atitudes imorais”.
Encerra a entrevista demonstrando suas habilidades com computadores. É proficiente (competente e eficiente no que faz)  em softwares (programas) de edição de áudio e vídeo, dentre outros; dá aulas grátis de informática aos outros deficientes visuais que pretendem entrar para o mundo virtual. Além  disso, é referência regional na área.

Voto é ferramenta

Euclides Marques, 50 anos, vendedor ambulante e nascido em Araraquara, perdeu a visão desde os oito meses de idade. Tal fato não o impediu de ser um ativista social, pois segundo ele “é um mecanismo integrante do sistema que, se bem usado, sempre mudará as coisas para melhor”.
Um dos meios escolhidos para tais mudanças é o voto, que segundo ele jamais deve ser feito sem uma pesquisa prévia dos programas apresentados pelos candidatos. No caso dele, a busca é feita através da TV, rádio e alguns raros programas de candidatos que disponibilizam suas diretrizes em braile.
Nos tempos de eleição o assédio é igual com todo mundo. Euclides diz que vários candidatos vão à Associação dos Cegos de Ribeirão Preto fazer promessas e pedir votos. Nessas horas os políticos os tratam como iguais, visto que o voto de um milionário tem o mesmo peso do voto de Euclides.

Imagem consciente

D´Souza, como preferiu se identificar, tem 42 anos. Nascido em Ribeirão Preto, perdeu a visão quando tinha 38 anos devido a um acidente de carro em São Paulo onde sofreu um descolamento de retina. Trabalhou durante vários anos na Editora Abril da capital e também na Folha Ribeirão como fotojornalista. Atuante em várias áreas da fotografia, ainda tem a noção espacial que um fotógrafo precisa. “Basta que alguém descreva o lugar para mim que eu formo essa imagem na minha cabeça. O resto é a percepção do calor dos raios solares e a percepção sonora de profundidade de cada lugar” ressalta.

“Uma pessoa só passa a enxergar quando ela passa a depender de si mesma”.

No pensamento um projeto. Casar a arte de fotografar com a recente aprendizagem em ser deficiente visual. Esse infortúnio não o impediu de criar e agir em busca de seus objetivos.
Na tentativa de aceitar a sua nova deficiência, D´Souza percebeu que a vida era “mais rápida” quando tinha visão. Atualmente, sem o estímulo ocular, tudo é encarado como um desafio que demanda maior tempo para ser superado. Segundo ele, ser aceito pela sociedade como um cidadão normal é algo difícil de acontecer. Ele acredita pouco na política e não sente que o voto dele mudará muito do cenário atual.

Associação dos Cegos

Três cidadãos citados na reportagem moram – por opção ou necessidade – na Associação dos Cegos de Ribeirão Preto, localizada à Rua Lafaiete n.º 897. Além deles, há outros moradores. O local se mantém com mil reais mensais doados pela Prefeitura e com doações da sociedade.

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(Matéria publicada originalmente na edição “0″, em 11 de março de 2009)

Sábado, 14 de maio de 1994, 21h. Ribeirão Preto enfrentou uma de suas piores calamidades. Um vendaval, alguns minutos e a cidade inteira danificada. Veículos arrastados, construções derrubadas, casas destelhadas e pessoas voando.  Na manhã do domingo, uma população perplexa. A imagem das árvores da avenida Nove de Julho, sem uma folha sequer, impressionava.

A mobilização popular reconstruiu o município. Durante aquela semana que  se iniciava, a Cava do Bosque e diversos pontos da cidade viraram centros de ajuda e distribuição de todo tipo de doação. Alimentos, colchões, geladeiras, fogões, materiais para construção. E o melhor, o suor de seus moradores. Desde os mais humildes até os mais ricos, juntos.

Em dois meses, uma das poucas lembranças eram os galhos pelados. Havia uma sensação de mutualidade, cumplicidade. Ribeirão Preto é assim, terreno fértil para mentes cidadãs.

Quem procura acha

O juíz

“Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos, número 0.” (Vinícius de Moraes)

Desde o ventre materno, como lembra o poeta, aprendemos quão sagrada é a moradia. O lar estabelece laços para que o ser humano se desenvolva em sua comunidade. Base de formação e transformação de uma sociedade, sua inexistência ou baixa qualidade prejudica a evolução da cidade.

Como esperar ou cobrar atitudes cidadãs quando o Poder Público se exime de suas responsabilidades? Afinal, ele existe para encontrar soluções para tais problemas. Não há universidade que ensine a importância de uma família em ter seu próprio espaço. Talvez seja essa a diferença do juiz da 2ª Vara da Fazenda Pública de Ribeirão Preto dos demais colegas de magistratura.

Nascido na roça e ex-morador de favela na adolescência, suas atitudes ajudam famílias na mesma situação a mudarem de vida.

Constituição Federal do Brasil
Art. 182 – A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, (…), tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.
§ 1º – O plano diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para cidades com mais de vinte mil habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana.
§ 2º – A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.

O projeto “Moradia Legal” foi fruto da deficiência processual em resolver o problema. Foi preciso “sentir o problema”. Sobrevoou as favelas, mapeou e classificou suas terras, atraiu pessoas para ajudar no projeto. Levou o poder judicial até à população, não com polícia, mas com promotor e defensor público para a resolução de problemas.  Hoje, já são mais de 1,1 mil famílias beneficiadas, segundo declarações do próprio juiz.

Afinal, o direito que as pessoas têm sobre seu imóvel ou terreno, esbarra na plena realização da função social da propriedade. Esta função exige que sua utilização seja policiada, fiscalizada.

Se o governo municipal agisse como deve, questionaria na justiça sobre a situação de inúmeros imóveis da cidade. Transformam-se em criadouros de dengue, depósitos de lixo, de drogas e até… moradia!

Atualmente em Ribeirão, segundo funcionários de mais de quatro secretarias (Secretarias da Fazenda, Saúde, Planejamento e Habitação), na Divisão de Controle de Zoonoses e na assessoria de imprensa da Prefeitura, não existe levantamento sobre a quantidade de construções abandonadas. São residências e esqueletos de obras paradas ou deixadas ao sabor de especulações imobiliárias e disputas judiciais.

Todos perdem.

Eclipse público: Um cidadão contra o Estado

O governo, seja municipal, estadual ou federal, assemelha-se a um Orochi (criatura da mitologia japonesa que tem oito cabeças e oito caudas). Suas múltiplas facetas e  seu poderoso alcance, influenciam todos os aspectos de nossas vidas. Muito mais que isso, o Estado é visto como uma força quase incontestável, assim como o Sol. Ambos estão ali, todos os dias, independente do que se faça a respeito (apesar das eleições…).

Lembre-se: “quase” incontestável, pois o Sol também é contestado de tempos em tempos. Um corpo celestial milhares de vezes menor, a Lua (assim como o cidadão), entra em seu caminho e mostra que, naquele momento, em algum lugar do mundo, os onipresentes (onipresente = que está ao mesmo tempo em toda a parte) raios solares foram bloqueados pela presença lunar. A isso damos o nome de “eclipse solar”.

Pedágio e IPVA, duas cobranças para o mesmo fim.

Carmen Patrícia Coelho Nogueira, representante legal de seu filho César Augusto Coelho Nogueira Machado não precisou de poderes celestiais ou mitológicos para agir.

Por meio de uma liminar (documento pelo qual o juiz concede antecipadamente o pedido feito na petição inicial), conseguiu suspender por 10 horas a cobrança de pedágio no Rodoanel Mário Covas, da capital paulista. A base da contestação foi a lei estadual 2.481, de 1953, que proíbe a instalação de pedágio em um raio de 35 km a partir do marco zero da capital.

“Como esperar ou cobrar atitudes cidadãs quando o Poder Público se exime de suas responsabilidades?

Afinal, ele existe para encontrar soluções para tais problemas.”

Apesar da curta duração da liminar,  Carmen a define como um gol logo no início do jogo, aos 3 minutos. O Estado empatou dois minutos depois, caçando a liminar. A ação continua…

A lição é a possibilidade da busca dos direitos pelo cidadão. Um exemplo de que, mesmo quando tudo parece impossível, a Lua pode bloquear o Sol, e um cidadão pode (e deve) exercer seus direitos. Mesmo que bloqueie o Estado. Mecanismos para isso existem, basta vontade cívica e uma boa dose de paciência.

Placas de cidadania

Do Oiapoque ao Chuí, de Machado de Assis a Carlos Gomes. Quase todos os países, cidades importantes e as personalidades memoráveis que moldaram nossa cultura se encontram em um lugar: nas ruas. Nesta era virtual onde o Google Maps leva até Paris (avenida do Jardim Independência) com indicação da melhor rota, o poder público deixa a desejar…

Para esse descaso – nomeação de ruas sem sinalização adequada – aparece Nelson Stefanelli, morador dos Campos Elíseos.Nome certo quando se fala em cidadania. Ele realiza um trabalho ímpar. Resolveu por conta própria sinalizar as ruas e casas de Ribeirão Preto; faz o papel que cabe a Prefeitura.

Palavras Soltas

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