jun 052010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Dizem que o diretor Heitor Dhalia precisou conceber todo o O Cheiro do Ralo (2006), ou ao menos uma grande parte dele, enquanto as câmeras rodavam, sem preparação prévia ou storyboard (esboço do filme em papel usado para economizar tempo e dinheiro) devido ao baixo orçamento. Agora, eu não sei se isso é algo verdadeiro, se houve esse problema de fato, mas, ainda assim, nesta especulação há uma verdade inconcussa: o cinema independente no Brasil é peça rara, um ser que mal existe e vive na iminência da extinção.

É inacreditavelmente – e até estúpido de se dizer – diferente do que acontece na terra do tio Sam. Com bases fortemente consolidadas nos saudosos anos 70 e até alguns anos antes, o cinema com ideias livres das amarras dos estúdios é um filão até muito lucrativo por lá – aliás, “livres das amarras dos estúdios” seria forçar um pouco a barra, pois um diretor nunca usufruiu uma total liberdade quando se vê em tal posição. De qualquer maneira, o cinema independente reflete diretamente a economia e o modus operandi do sistema de distribuição cinematográfica do país. Mas não ouso me adentrar em tal assunto no momento. Então, por que estou dizendo isso? Você deve estar questionando.

Pois bem, trago-lhes duas obras lançadas recentemente em DVD que exemplificam perfeitamente esta dúplice de expoentes. O primeiro é 500 Dias Com Ela (500 Days of Summer, de 2009) do diretor Marc Webb oriundo de clipes musicais. Com um orçamento em torno dos “meros” 10 milhões, o filme conta com uma dupla de protagonistas jovem e vivida por dois atores em ascensão nos EUA. A história pretende ser uma subversão do gênero “comédia romântica” ao impingir no protagonista masculino todos os empecilhos de um típico personagem feminino – sofrer, rir, angustiar, discutir, analisar, planejar, consumir e gozar o amor. Basicamente, o longa até tenta, mas não sai do lugar-comum – é gostoso como degustar um jantar e evacuá-lo momentos depois num recipiente de porcelana.

E o outro filme seria É Proibido Fumar (2009) dirigido por Anna Muylaert, uma diretora que já está no meio há pelo menos uns 20 anos, tendo escrito séries, filmes e debutado na direção com o elogiado Durval Discos (2002). Estrelado por uma consagrada atriz e um consagrado cantor e novato ator, É Proibido Fumar foi um parto que há anos germinava na cabeça de Muylaert e que, agora, vê a luz do dia e vagarosamente encontra seu caminho em circuitos alternativos e através de propaganda virótica. É um belo e corajoso filme, com uma história e personagens maduros, tudo muito bem filmado; é uma comédia romântica com pontuações sobre a moral e o poder de escolha que muitas vezes nos escapa ao poder – é gostoso como degustar um jantar e ter o seu sabor latejando em nosso imaginário com “gostinho de quero mais”.

São dois lados de moedas diferentes e que em muito pouco se assemelham. Por um lado temos o convencionalismo banal pelo viés da estética imponente e fraudulenta enquanto no oposto temos a coerência narrativa por um cinema com suor genuíno e muito bem matutado; por um lado temos algo a menos e, no outro, algo a mais. No final das contas, o dia se transformou em noite e o clima para assistir um filminho assentou – agora cabe a você decidir qual caminho tomará após a sessão.

Página do autor: http://cinemorfose.wordpress.com/