por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Lançado em 1865 pelo professor de matemática Charles Lutwidge Dodgson sob o pseudônimo Lewis Carrol, o livro Alice no País das Maravilhas possui um extenso histórico de transposições cinematográficas. Desde 1903, no berço do cinema enquanto uma linguagem autônoma, em um curta de 8 minutos relegado ao completo esquecimento, uma versão de 1933 coprotagonizada por Cary Grant e Gary Cooper, passando pelo famigerado clássico dos estúdios Walt Disney em 1951 e até mesmo uma versão erótica no furor dos anos 70 e uma série de TV produzida no final dos anos 90, que trazia no elenco nomes da estirpe de Whoopi Goldberg, Ben Kingsley, Christopher Lloyd, Martin Short, Gene Wilder, Miranda Richardson entre tantos outros; não importa o formato ou o conceito de adaptação, a obra de Lewis Carrol sempre foi um fetiche para a indústria do cinema, pelo seu apelo visual em junção com a força de imagens cinemáticas. No entanto, inúmeros filmes e séries de televisão depois, o que será que esta versão do Tim Burton tem a acrescentar? Seria apenas uma forma de Hollywood aproveitar o frescor tridimensional do momento, ou este filme realmente tem algo a dizer?

Escrito por uma expert em dramas com alta dose de sacarose, a intenção da roteirista Linda Woolverton é a de elaborar uma espécie de continuação com aspirações do segundo livro,  Alice Através do Espelho, de 1871, também uma sequência do original – fora alguns elementos do primeiro que também são mantidos, ou seja, é um bizarro híbrido com pontuações originais. Na história, quando Alice é pedida em casamento por um asqueroso lorde, ela foge, seguindo o rastro de um coelho, e acaba despencando em um buraco, onde, mais uma vez, vai parar em um mundo do qual ela já não lembra mais, apesar de já ter visitado em tempos passados, quando ainda era uma garotinha. E se na obra Lewis Carrol havia alusões ao crescimento, da fase infantil para a puberdade, em singelos trâmites para descobertas sexuais que surgiam através de maravilhosas simbologias, tais como a passagem do tempo e a confusa percepção da protagonista ao novo mundo que emerge aos seus olhos, aqui tudo é completamente fulminado para dar espaço a uma trama barata e excessivamente lúdica, entoada por uma lição de moral capenga e pueril, digna do mais estúpido fio condutor de novela televisiva sem-vergonha. Basicamente acompanhamos Alice passar por diversas situações cujo real sentido para a trama nem mesmo ela parece perceber. E se isso já não fosse suficientemente enfadonho, o que dizer da obviedade empregada na resolução da história, cujos acontecimentos são possíveis de prever logo nos primeiros minutos?

Com uma história mambembe em mãos, ao menos poderíamos esperar certo apuro por parte da tão peculiar direção de Tim Burton, certo? Pois fato é que na década passada o diretor entregou alguns de seus piores filmes, e agora, no começo desses próximos dez anos que estão por vir, tudo promete desmoronar por completo. O mesmo criador de obras tão icônicas como Os Fantasmas se Divertem (1988), Edward Mãos de Tesoura (1990) e a obra-prima Ed Wood (1994) entrega-se sem o menor constrangimento a uma caricatura de seu próprio estilo. Estão ali a estética gótica-chic que tanto lhe apetece, a direção de arte rebuscada, evocando um expressionismo também na maquiagem e fotografia, os personagens bizarros, um papel interpretado por sua esposa Helena Bonham Carter (no caso, a Rainha Vermelha) e a tão habitual colaboração com o ator Johnny Depp e o compositor Danny Elfman. Tudo formando um amálgama (mistura confusa) indigesto de ingredientes outrora já consumidos – e tome cuidado para não regurgitar tal massa nauseabunda ao testemunhar uma dança esquizofrênica do Chapeleiro Maluco que Tim Burton coloca no final do terceiro ato, algo como um hip-hop movido a forças demoníacas – aliás, tome um maior cuidado quando a cena for reproduzida minutos depois, demonstrando uma total falta de bom senso por parte do diretor em não remover as sequências. Não obstante, basta percebemos o início do filme e todo o primeiro ato para termos uma ideia da condição mental em que se encontra Tim Burton: broxante em diversos aspectos e burocrático em sua concepção, ele apenas prepara o terreno para confirmar nossas convicções, infelizmente.

Denotando ainda certa carência de lógica em algumas sequências concebidas pelo roteiro, como quando Alice adentra a casinha onde repousa um monstro a fim de pegar certo objeto e, vendo seu fracasso, simplesmente resolve dormir ali mesmo, ao lado de um predador que quase dilacerou seu braço momentos antes, o filme é decepcionante em diversos sentidos. Contudo, talvez o filme seja de maior valia caso o espectador aprecie unicamente os efeitos visuais, já que estes são espetaculares, muitas vezes sendo impossível diagnosticarmos suas verdadeiras naturezas. Mas o mais importante disso tudo, é que Tim Burton aprenda algo com Alice e comece a refletir sobre suas faculdades mentais, na expectativa – nossa – de que, ao contrário de sua protagonista, ele realmente esteja em estado de repouso. Agora é torcer para que ele desperte em seu próximo projeto.

Página do autor: http://cinemorfose.wordpress.com/

Alguém quer exemplo melhor de jornalista que o Forrest? O cara simplesmente corre o mundo atrás de histórias e volta para o seu povo para contá-las.

Mais impressionante é a neutralidade quase robótica com que ele conta as histórias. Ele não precisou ser um ávido agente de mudança social. Eu mesmo já acreditei demais da conta nesse triste conceito de que jornalista tem de ser o cidadão que vai esclarecer as mentes, que vai descobrir o que está lá no fundo e trazer à tona. Isso NUNCA acaba bem. O jornalista se auto proclama rei da realidade em que vive. O resultado disso é a indústria manipulativa que se tornou o que eles ainda insistem em chamar de “jornalismo”. São mega corporações agindo como motores de mudança social, não diferente de qualquer jornal de bairro que pretenda o mesmo. Dos dois, a diferença é só o poder de alcance do que é dito.

A realidade propriamente dita já é o motor propulsor das mudanças. Se eu, e 99,99% dos jornalistas, colocássemos mais os pés na rua atrás das histórias (e não com uma pauta pasteurizada em mãos), talvez com o simples fato de mostrarmos as histórias (com o menor nível de subjetividade possível), elas sozinhas já se tornariam o motor propulsor de mudança propriamente dito.

Para quem talvez ainda não tenha percebido, o instigante do Forrest não era a forma como ele contava a história, mas sim a história propriamente dita. Eram histórias que não precisavam ser um cretinismo de autoajuda ou um discurso apaixonado. Era simplesmente a história sustentada por si só, uma vez que ele estava lá para vê-la acontecer. A riqueza de detalhes da testemunha ocular é quase invencível contra qualquer nariz de cera* bem formulado.

O  intuito deste artigo não é querer falar em “imparcialidade”. Não acredito nesse tipo de absoluto. A intenção mesmo é que ao menos um cidadão que leia isso reflita, nem que por alguns segundos. Não devo dizer “ninguém mudará lendo este artigo”, pois a sua pessoa é o conjunto de experiências vividas desde a sua fase de feto até o momento em que lê estas linhas. Apenas reflita mais e pense por si próprio. Não deixe que façam isso por você. Ninguém, principalmente os jornalistas.

* “nariz de cera” é uma expressão usada no jornalismo para designar o que, no popular, chamam de “enchimento de linguiça”; preenchimento desnecessário para dar volume.

por Maíra Pádua

Jovens desempregados, sem perspectivas, sem dinheiro, na úmida e nublada Inglaterra em meados dos anos 70. Estavam cansados do virtuosismo musical dos solos de teclado intermináveis e tediosos do rock progressivo, e tampouco se identificavam com o colorido mundo do glam rock, comercial e superficial. Do outro lado do Atlântico, na cidade de Nova Iorque, um pequeno clube underground chamado CBGB fervilhava da autenticidade e rebeldia que faltava aos outros movimentos musicais: era o punk rock nascendo e tomando seus contornos de movimento de transformação e contestação social. O clube onde antes ouvia-se blues e outros sons agora incendiava-se ao som de bandas como os Ramones, a mais expressiva banda do punk rock americano.

Naquele contexto nova-iorquino já circulava o inglês Malcolm McLaren, empresário da protopunk e purpurinada New York Dolls desde 73, e proprietário da Let It Rock, uma loja de roupas em Londres voltada para um público, digamos, alternativo. Ao entrar em contato com todo aquele fervor musical da Big Apple1, Malcolm não deixou por menos seu faro para os negócios e para o showbiz2: adaptou o principal mote do movimento punk que estava se formando, o “faça você mesmo”, numa fórmula aplicável comercialmente, das roupas de sua loja à conduta dos integrantes. A atitude e a ideologia tornaram-se tão ou mais importantes que a própria musicalidade da banda. Tendo isso em mãos, Malcolm pretendia politizar os Dolls e fazê-los estourar na Inglaterra, tudo sob suas graças de mentor… Porém a banda recusa-se a assumir essa postura e rompe com o empresário, que volta à sua terra natal com uma nova ideia.

De volta a Londres, Malcolm decide chamar músicos que reunissem os requisitos para montar uma banda punk nos mesmos moldes americanos. Montar? Sim, um empresário que monta uma banda para ele próprio empresariar! E é naquela entediada juventude londrina que Malcolm encontra esse substrato, nos frequentadores de sua própria loja, agora chamada SEX. O visual, a banda, a música, a loja, o público, o marketing… surgem os Sex Pistols! Banda, vitrine e ícone, os três num só. McLaren e sua namorada, a estilista Vivienne Westwood, eram apaixonados pela iconoclastia de símbolos que iam do nazismo a alfinetes de segurança, e pelos fetichismos das roupas de couro. Introduziram nos Pistols e no próprio movimento punk o visual que já lhes era conhecido da SEX, espalhando-se para todo o mundo após o boom do movimento em 1977 – o ano do punk.

Mais do que montar uma vitrine para sua loja, Malcolm e Vivienne tiveram grande importância na difusão do punk enquanto movimento cultural e comportamental, pois criaram uma identificação visual que claramente ajudou a difundir a cena da época. Parece ilógico e contraditório que o marketing de um manager3 e sua loja de roupas tenha beneficiado um movimento cujas raízes ideológicas foram fincadas no anarquismo, niilismo, pessimismo e na crítica social. Mas todo movimento cultural tem suas polêmicas e paradoxos, afinal. O punk apelava ao bizarro e ao chocante para se fazer ouvido, e este espírito contestador deixou marcas até hoje na cultura e na música mundial. O fato de ao seu redor se criar uma “moda punk”, conceito um tanto quanto oposto ao seu pano de fundo ideológico, não é sinônimo de descrédito ou superficialidade. Ao contrário, comprova a força de sua expressão.

Mecenas4 ou carrasco do punk? Admirado e odiado, Malcolm McLaren, esta figura ambígua da história do Rock’n'Roll, faleceu no dia 8 de abril deste ano, numa clínica na Suíça, de um tipo raro de câncer. O que permanecerá: as histórias, as contradições e os  Sex Pistols.

1 A “Grande Maçã”, apelido da cidade de Nova Iorque

2 Indústria do entretenimento

3 Empresário

4 Incentivador financeiro de atividades culturais

Palavras Soltas

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