mar 212010
 

Calma leitor, esse não é um texto da editoria ‘Pergunte ao Monge’, e também não tem a pretensão de ser. Por isso, pequeno sábio, não é preciso ficar injuriado. É que foi inevitável não pensar no assunto nos últimos dias. Além do mais, nem sei se existe resposta para ele.

Comecei a pensar no assunto depois de ver duas histórias. Cada uma com seu protagonista, mas que estranhamente tocam o mesmo ponto.

A primeira aconteceu perto de casa. Todos os dias ele perambulava cabisbaixo pelas ruas. Seus olhos tristes expressavam a solidão que sentia. Sempre à procura por comida se achegava às pessoas, mas na maioria das vezes, o máximo que ganhava era um “chega pra lá”. Dormia sozinho, se protegia como podia. No lugar do tecido, jornais velhos. No lugar da casa, as calçadas.

Na redondeza, os poucos moradores que se solidarizavam com ele o apelidaram de ‘intruso’, tamanha era sua intromissão na vida alheia. Se avistasse uma porta aberta, não se continha e logo entrava. Se ouvisse uma conversa, levantava os ouvidos e ficava atento.

Estopim curto, se envolveu numa briga um dia desses, e como normalmente acontece, o sexo oposto foi o pivô da história. Não há dúvidas de que a bravura esteja no seu sangue, mas seu corpo, pequeno e franzino, não ajudou muito. Longe de um golpe de sorte, perdeu a disputa e fugiu.

Quando voltou, não era mais o mesmo. Mais triste do que antes, nem as portas abertas ou as conversas pelas ruas o atraiam. Talvez fosse a vergonha de ter perdido a briga ou os ferimentos que custavam a cicatrizar. Não importava mais, agora, a rua atacava também seu corpo e os ferimentos abriam espaço para a morte. Sem forças, ele não queria mais lutar.

Em outro canto da cidade a encontrei. Era quase meio dia quando a avistei pela primeira vez. Seus olhos castanhos, docemente procuravam alguém, só não sei quem. No pescoço, o metal em forma de corrente reluzia sob a luz do sol.

Mais tarde a vi novamente, ela estava sob a sombra de uma árvore, numa tranquila travessinha. O olhar cansado brilhou quando viu alguém se aproximar sem medo. Deve ser difícil ver que todos passam por você, e ter a certeza que ninguém nota sua presença. Olhando mais de perto, notava-se os ferimentos. Alguém a tinha machucado, mas mesmo ferida não perdia sua imponência feminina. Faminta, devorou o prato de comida que ganhara. Mas, além do alimento, ela pedia atenção. Estava perdida.

Quando passei novamente pela travessinha, ela estava dormindo sob a mesma árvore, mas o local se revelou não tão tranquilo como aparentava. Alguém a havia roubado. Seu pesado colar de metal não estava no pescoço. Os vizinhos contaram que um homem o levara. Meu espanto foi saber da inércia de todos. Assistiram à cena de um homem batendo violentamente para roubar, e nada fizeram.

Do outro lado da cidade veio uma boa notícia. Um homem que passava pela rua perto de casa se compadeceu quando viu os ferimentos que tiravam a vida do ‘intruso’. Sem pensar, colocou-o no carro e o levou para ser cuidado pelo irmão médico. Operado, ele passa bem.

Eles são assim. Sempre à espera de alguém que lhes possa cuidar.

Observação – O ‘intruso’ é um convicto vira lata, daqueles que rasgam o lixo para encontrar comida. Voltará para as ruas depois que sair da clínica veterinária que o acolheu. Ela, uma boxer perdida, que teve sua coleira de metal roubada e não se defendeu. Já está em casa, seu dono a encontrou naquela noite.

 

mar 192010
 

Recentemente, eu e uma colega de sala entrevistamos o cidadão Gilberto Caldeira, especialista em TI, criador do blogalizeja.com.br e por ventura webmaster daqui das bandas inconfidentes (ele criou este site).

Como você pode perceber, não há “jornalismo” na formação dele. Isso faz dele menos jornalista que eu, cursista do 4º ano de jornalismo ou algum jornalista diplomado? A resposta é não, absolutamente não. Sem medo de errar, falo por conta própria, que 90% dos estudantes que conheço não tem e dificilmente terá a capacidade de fazer algo no nível que Gilberto fez recentemente: a série internet lobo mau (clique para vê-la).

Afinal, a série internet lobo mau é o que deveria ser o jornalismo em geral: um meio alternativo de melhora e condução da sociedade, não uma fábrica de “você só vai saber sobre o que ‘eu’[veículo] quiser”.

É o que se tornou o jornalismo hoje em 99% dos casos: tudo o que é visto nas páginas (ou edições audiovisuais) de um jornal de médio ou grande porte existe pois algum interesse não-jornalístico maior provocou a ida de determinada matéria ao ar. Você realmente acredita que alguns casos de má gestão administrativa (e política), como o de Arruda por exemplo, chegaram a mim e a você por pura vontade jornalística? Essa é a última das possibilidades (dentre milhares).

A partir da segunda metade do século XX, o departamento comercial tornou-se regente do jornalismo. Notícia alguma vai ao ar em um médio ou grande veículo sem que haja a possibilidade de lucro financeiro. O lucro social e a credibilidade que se virem para pegar um pedacinho da fatia do reconhecimento*.

Mas a bronca do mortal que vos escreve não é com publicitários e marketeiros. Eles exercem a profissão deles. O que realmente irrita é o servilismo dos jornalistas. É fora de série como a maioria dos jornalistas são conformados com a prostituição em que a profissão se tornou. Pior ainda, há aqueles que defendem esse comportamento servil ao mundo comercial!

Ainda tenho que ouvir no mundo acadêmico, das mesmas bocas que condenam a queda da obrigatoriedade do diploma jornalístico, frases como “uma hora nós vamos ter de ceder ao comercial na nossa profissão”, “temos que ser flexíveis e políticos [referência à flexibilidade ética e moral]” e “para dar dois passos para frente, temos que dar um para trás”…

Alguém me explique: que diferença um maldito canudo vai fazer na vida desses cidadãos que já arreganham as pernas sem nem mesmo alguém ter pedido? Por que caras como Gilberto e muitos outros blogueiros por aí interessados na melhora da sociedade seriam menos importante que os jornalistas?

Façam-me o favor, senhores defensores do diploma!

*Assista ao filme Rede de Intrigas (1976). Representação melhor que essa do jornalismo ainda não foi feita no cinema. Amém.

Um ano eleitoral…

 Posted by at 8:58 pm  Crônicas, T.I.
mar 172010
 

Esta é uma história atemporal e de ficção.

João não queria votar. Não gostava de se sentir obrigado a escolher representantes para sua cidade, seu estado, seu país. Pensava em como seria bom se as eleições no Brasil fossem como nos Estados Unidos, onde o voto é facultativo. Sai de casa e dá o seu voto no dia da eleição quem quer. João não acreditava em político nenhum, em promessa nenhuma. Sempre tentava viajar em época de eleição. Ia para a casa da família da namorada, que morava em outra cidade. Visitava a tia em São Paulo. Uma vez passou o fim-de-semana do segundo turno das eleições presidenciais na praia, como se fosse um feriado só para ele. Não votava. E injuriava quando era obrigado a comparecer na sua zona eleitoral, pois não é permitido justificar o voto eternamente. Nestas situações, ficava bravo como o diabo por ter que se deslocar até um colégio no centro da cidade, ver aquela sujeira de “santinhos” dos candidatos, que afirmam sempre que não tem nada a ver com aquela papelada que emporcalha as ruas e entope bueiros, pois quem joga os “santinhos” na rua é a população. Pois sim. Mais um motivo para odiar o período eleitoral. Mas mesmo assim João sempre tinha a solução prática, a inviabilização do seu papel como eleitor e que funcionava para ele como um protesto silencioso: votava nulo.

Maria gostava das eleições. Era contaminada por aquele espírito que a mídia chama de “festa da democracia”. Sentia-se importante, parte ativa da sociedade. Era bem informada sobre os candidatos e suas propostas, sem jamais se ater a ideologias ou partidos. Em uma determinada eleição presidencial havia dado seu voto nos dois turnos a um certo candidato, porém quatro anos depois votou no candidato que se opunha às ideias do primeiro. Não que fosse incoerente nem facilmente manipulada, pois Maria era fiel à sua própria lógica. A cada eleição, dava seu voto àqueles cujas propostas melhor se posicionavam na busca de soluções para os problemas tanto dela quanto da sociedade. Claro que tinha suas preferências, mas nunca se sentiu presa. Gostava dessa liberdade, da possibilidade de escolher quem ela quisesse. E ela sempre escolhia. Jamais votara nulo ou em branco, achava um desperdício da participação ativa no processo democrático. Sempre haveria um candidato que poderia valer a pena.

Mais um ano eleitoral chegou e passou, novos e velhos representantes foram eleitos. Tempos depois, intrigas, baixarias e muita sujeira. O país tornava-se um caos, a política afundava na sua própria lama. Conflitos e passeatas por todos os lados. João, no conforto de sua casa, assistia a tudo aquilo estupefato, com uma expressão que dizia “eu sabia, político nenhum presta”. Estava triste, mas a responsabilidade não era dele, não havia votado em nenhum daqueles canalhas. Maria, por sua vez, remoia sua mágoa. A maioria dos candidatos no qual votara estava envolvida no redemoinho de escândalos. Doía sentir-se responsável, mas alguma coisa dentro dela dizia que não havia motivo para tanta culpa. Considerava a picaretagem e a bandidagem política como um ato de traição por parte daqueles em quem acreditou e depositou suas esperanças de um futuro melhor para a nação. Nas eleições seguintes, quem sabe as coisas podiam melhorar. Acreditava nisso, atinha-se a esse sentimento a cada quatro anos. E ainda havia as eleições municipais…

Moral da história: na política brasileira, nem sempre o problema está no eleitor.

mar 142010
 

Seu Odílio levantou cedo. Ferveu a água para o café, apanhou o jornal e chutou o gato velho que insistia em ficar deitado aos pés da mesa da cozinha. Nada de muita novidade no jornal. Política, futebol e violência, assuntos muitas vezes misturados na mesma notícia. Praguejou. Depois do café e da broa de milho com manteiga, vestiu-se e caminhou para abrir o portão.

Não podia esquecer o chapéu, o inconfundível chapéu panamá de fita cinza escura. Presente da esposa, quem trouxe foi a amiga dela que tinha ido ao Equador. Qual era mesmo o nome dela? Da amiga, não o da esposa, Lurdes, este ele se lembrava. Lurdinha, que falta ela fazia nestas horas. Sempre se lembrava do nome de todo mundo, até daqueles que Seu Odílio nem dava conta da existência. O segundo filho da filha mais nova da vizinha, por exemplo. Oito anos desde que Lurdinha se foi, completados em fevereiro. Oito carnavais sem alegria. Ela gostava de escutar as marchinhas no rádio, ele contentava-se em estar ali ao lado. De qualquer forma, o velho rádio da sala estava quebrado há uns quinze anos. Mas ele não se lembrava de nenhum carnaval sem a graça dela cantarolando marchinhas pela casa.

O chapéu, já ia se esquecendo de novo. Ao sair para a rua, não entendia como diabos o chapéu um dia pode deixar de ser peça usada no dia a dia. Estamos em Ribeirão Preto, pelo amor de Deus! O senso prático de Seu Odílio, pelo menos, fazia com que ele nunca abandonasse o hábito de usar chapéu. Mérito do implacável Sol que tanto gosta de exibir-se no céu azul desta cidade.

Bela manhã de domingo, Seu Odílio foi à praça do bairro. Gostava daquela praça, dos bancos antigos de madeira, bem diferente daqueles bancos feios de cimento que eram pintados cada um com uma propaganda diferente. Horroroso, o que uma propaganda de loja de construção tinha a ver com passear na praça? Era o seu programa preferido nas manhãs de domingo. Não que durante o resto da semana tinha muito mais o que fazer, chegava a passear por lá nos outros dias, mas as manhãs de domingo eram sempre mais prazerosas. Ao lado da praça ficava a igreja, que há alguns anos Seu Odílio não frequentava. Não porque tivesse entrado em agruras maiores com Deus, mas porque causa de uma briga com o padre. Discussão boba, mas que vai se acalorando cada vez mais quando o assunto é algo tão passional como é o futebol. O padre era palmeirense, e Seu Odílio era corintiano.

Houve um tempo em que ele ainda dispunha-se a pegar o ônibus e ir ao centro, encontrar velhos amigos para um café na Esquina do Pecado. Mas há alguns anos Seu Odílio diminuía a frequência destes encontros. Na verdade cansara-se dos assuntos. Lia o jornal e assistia TV, era bem informado, mas com o tempo foi perdendo a paciência para determinadas conversas. Política, não gostava de discutir desde a época dos militares. Doía pensar nos amigos e amigos de seus filhos que foram embora, às vezes para sempre. No futebol, já não fazia mais questão de ficar dando pitaco. Aliás nem tinha mais muita opinião, mal assistia a qualquer jogo por mais de 20 minutos. Interessava-se pelos resultados, mas quando o Timão não dava conta de ir pra frente, Seu Odílio nem se abalava muito. Não era um torcedor roxo. Os jogadores que são pagos pra isso mesmo, deixa que eles se preocupem com o time. A discussão com o padre fora uma exceção, por motivos de força maior. Rivalidade entre camisas as vezes são maiores do que pelejas entre Deus e o Diabo. Não, ele não tomava mais o ônibus para o centro no domingo. Somente durante a semana, de preferência uma vez por mês, para receber sua aposentadoria. E é claro que não era tão simples assim. Uma vez por mês, humpf, ninguém tinha esse luxo.

Ali, sentado no banco da praça à sombra da grande sibipiruna numa manhã de domingo, Seu Odílio observava. Mães passeando com suas crianças pequenas, as crianças grandes correndo e fazendo algazarra em volta delas. Casais de mãos dadas, de todas as idades. Algumas pessoas solitárias, velhos e moços, homens e mulheres. Mas Seu Odílio não se sentia sozinho, e esperava que todas aquelas pessoas também não se sentissem. Ele fazia parte de tudo aquilo, das pessoas passeando e vivendo suas vidas, das crianças crescendo e jovens se amando. Mesmo que fosse uma parte que sentia que já tinha cumprido seu papel. Como Lurdinha, a esposa. Ele a amava e sentia falta dela, mas aceitou sua partida, assim como ela aceitou a permanência dele. Seu Odílio respirou fundo para aproveitar bem o ar daquela manhã, enquanto observava o ciclo do mundo acontecendo bem ali na praça do seu bairro.