abr 212011
 

Uma questão que tristemente se repete…

 

(Publicado originalmente em 21 de fevereiro de 2010)

Monge, por que o ser humano briga tanto? (Tauhana Mariana, de Brasília-DF, por e-mail)

Às vezes penso, querida Tauhana, que a pergunta mais precisa seria: quando o ser humano conseguiu, ao longo de sua história, deixar de brigar? Porque parece que a violência para com nosso semelhante está nos genes, na natureza do homem. E não podemos simplesmente culpar o instinto de sobrevivência, fruto de nossa herança animal. Tudo bem que alguns animais tendem a ser mais agressivos do que nós, matando inclusive outros da sua espécie. E sem remorso algum. Mas todo animal é diretamente influenciado por um mecanismo maior até do que o instinto de preservação individual: a perpetuação da espécie. Isso significa que, além de reproduzirem-se e cuidarem de sua prole, animais não saem por aí promovendo “limpezas étnicas” em sua própria espécie. Talvez existam exceções, por exemplo um conflito entre dois bandos de chimpanzés. Mas nunca ouviremos falar que uma população animal diminuiu consideravelmente por culpa deles mesmos.

Quando o ser humano perdeu este instinto de preservar a sua própria espécie? Em que momento o interesse individual sobrepôs-se ao coletivo? Sim, porque a decisão de exterminar o outro é puramente individual, mesmo que envolva mandar um bando de soldados do seu país para matar um bando de soldados de outra nacionalidade. E também mulheres, idosos e crianças, se estiverem no caminho. Não existe guerra “asséptica”. E tudo isso para que? Para atender aos interesses daqueles que incitaram o conflito em primeiro lugar. Alguém sempre lucra com uma guerra.

E assim vivemos, em uma eterna batalha contra um inimigo vindouro. A paz relativa na qual o mundo parece mergulhada soa como uma grande falácia. Veja se no Iraque ou na Palestina a população desfruta deste sentimento de paz. Veja na África os atritos entre diferentes grupos étnicos, colocados à força sob uma mesma bandeira. Historicamente, nem dá mais para apurar a origem de muitos destes conflitos. Mas eles foram e são alimentados por aqueles que dividiram aquelas terras entre si em primeiro lugar. Aliens caucasianos jogando War no berço da humanidade.

E nem precisamos ir tão longe, olhemos com atenção para o nosso próprio quintal. Guerra civil não-declarada entre facções criminosas, execução sumária de devedores e de “traidores do movimento”, homens da lei perpetrando chacinas entre sem-teto, sem-terra e sem-dignidade. Dignidade esta que lhes foi roubada, extirpada muitas vezes desde o nascimento. Um ser humano que nada tem a perder, pois a sua própria vida foi destituída de qualquer valor. E se até os homens de bem – que possuem direitos, casa, carro e cartão de crédito – não estão imunes ao instinto da violência, pois matariam sem piedade qualquer um que ousar invadir a sua paz privada, por que aqueles que nada tem – e jamais terão – iriam valorizar a vida do outro, glorificando uma civilização que nunca lhes ofereceu nada?

Alguma coisa deu muito errado no curso da História.

 




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