mar 202011
 

Nos créditos finais de Sexo Sem Compromisso aparecem os dizeres “um filme de Ivan Reitman”. Assim como em outros letreiros, aqui essas palavras reforçam o quanto um trabalho cinematográfico é em conjunto (o diretor tem uma função específica, assim como o resto da equipe, por isso o resultado final não é unicamente dele). Diretor de clássicos dos anos 80, algumas coisas legais nos anos 90 e absolutamente nada na última década, Reitman hoje continua famoso por ter dirigido os dois Caça-Fantasmas – e isso para quem vai atrás de saber quem dirigiu, caso contrário ele só seria lembrado por ser pai de Jason Reitman (mais uma vez, caso alguém ainda pesquise), diretor infinitamente mais talentoso.

Mas isso não o transforma num diretor ruim. Ele apenas não possui uma identidade em seus filmes. Novamente, isso não denigre seus trabalhos, pois, ainda na acepção pragmática do trabalho de um diretor, ele sabe conduzir uma história de forma competente. E isso se faz notar em Sexo sem Compromisso, um filme que flui perfeitamente em parte pelo trabalho de Reitman, que apenas transpõe um texto para as telas e o deixa degustável para os espectadores, mas principalmente pelo roteiro e as atuações da dupla de protagonistas. Na verdade, mais pela Natalie Portman, que consegue arrancar o máximo de sensibilidade de uma personagem que poderia muito bem cair no extremo convencional (como aconteceu com a insossa Zooey Deschannel em 500 Dias com Ela, num papel idêntico), ao contrário do seu colega de tela, Ashton Kutcher, que nada mais faz do que ser… Ashton Kutcher.

Trabalhando em cima de uma temática já conhecida, a do amor incompatível, o roteiro escrito por Elizabeth Meriwether passa longe de ser original ou coisa do gênero, mas há uma veracidade latente nos acontecimentos que se desenrolam entre os personagens. O sexo casual, entre duas pessoas que nutrem certo carinho, enquanto válvula de escape acaba sendo o estopim para sentimentos que crescem gradativamente. Ela, Emma, descrente no amor e incapaz de demonstrar carinho, e ele, Adam, um rapaz como outro qualquer que apenas deseja encontrar alguém. A idéia de copular sem criar laços a princípio é atraente para ele, assim como seria para qualquer homem. Mas assim como qualquer ser humano, o tempo acomete a relação com as inevitáveis trocas de afetos.

No decorrer da relação, as coisas acontecem naturalmente. A forma como ele cada vez mais se apega a Emma, conforme ela se afasta e mostra-se alguém na contramão de uma idéia generalizada (a do amor), traz veracidade suficiente à trama. Tudo de uma forma que caminha entre o digno (a relação entre ambos) e as convenções de um filme da estirpe (coadjuvantes como alívios cômicos que aparecem e somem quando o roteiro bem entende, fora subtramas que em nada acrescentam – caso do amigo de Adam namorando a amiga de Emma). E não é a toa que o terceiro ato abraça completamente o lugar-comum, mesmo que tenha tido ótimas oportunidades de não enveredar pelo caminho da obviedade.

No final das contas, Sexo sem Compromisso consegue divertir de forma eficiente, sem enganar o público, até o momento de sua resolução previsível, mas, nem por isso, menos coerente ou mesmo com a capacidade de estragar alguma coisa. Com isso, a narrativa do filme nada mais é do que um reflexo da própria relação entre os protagonistas: ainda que tente ser desprovido de obrigações com um gênero, os compromissos tornam-se naturais e aparentemente indispensáveis em seu término.

No Strings Attached – Ivan Reitman – 2011 – 3/5.

Observação: em determinado momento do filme aparece o diretor de uma série de TV, da qual o personagem de Kutcher é assistente, e quem o interpreta é o próprio Reitman.

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