Sebos

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mar 022011
 

Lá onde a cultura faz a curva...

Na definição do dicionário, sebo é o local para compra, venda e troca de livros usados, também conhecido em Portugal como alfarrabista. Os primeiros comerciantes de livros usados exerciam seu ofício na Europa do século XVI. No Brasil, a leitura tornou-se popular – e consequentemente, surgiram os primeiros sebos – quando foram impressos os primeiros livros no país, em meados do Século XIX.

Um rápido olhar por Ribeirão Preto mostra que eles acabam vendendo outros também. Tais como revistas, discos, filmes, pôsteres, vitrolas… “O livro é eterno”, afirma o senhor Dilermando, proprietário do Sebo do Brechó, sobre o principal artigo de sua loja. Até dez anos atrás, o sobrado na esquina das ruas Saldanha Marinho e São Sebastião vendia móveis usados. Mas com a popularização dos móveis de compensado e aglomerado, o negócio minguou. “Não tinha mais condição de trabalhar com eles, porque você comprava e não conseguia montar na casa do cliente depois. Quando eu comecei a trabalhar com móveis usados, os casamentos duravam cinquenta anos. Então a gente comprava móveis de imbuia, mogno, das melhores madeiras, porque eram móveis que duravam a vida inteira”. Segundo ele, o tempo de vida dos móveis passou a ser mensurado pela pequena duração dos casamentos de hoje: “uns 5 anos”.

“O sujeito que compra uma cristaleira ou um guarda roupa quer saber a utilidade daquele móvel, se vai enfeitar a casa dele, assim com uma roupa que ele coloca. O livro não, o livro vai enfeitá-lo por dentro”

A mudança para o negócio literário foi gradual. Pouco a pouco, os livros do acervo pessoal eram levados para a loja, até não sobrar mais espaço para os móveis. Logo vieram as revistas, os discos e filmes. A diferença entre um negócio e outro é pequena, mas é significativa. “O sujeito que compra uma cristaleira ou um guarda roupa quer saber a utilidade daquele móvel, se vai enfeitar a casa dele, assim com uma roupa que ele coloca. O livro não, o livro vai enfeitá-lo por dentro”. O Sr. Dilermando diz que seus artigos atendem a esta “necessidade interior” do público. A maioria, em busca do prazer da leitura. Mas também há quem utilize o material encontrado no sebo para ganhar dinheiro. Livros e revistas de crochê e costura, culinária e trabalhos manuais também tem uma grande procura. O grande prazer no ramo, de qualquer forma, é o contato humano. “É muito saudável trabalhar com gente. Se você consegue fazer com que te aceitem, as pessoas são muito leais, muito francas, muito honestas. Ao contrario do que as dizem por aí, ’ah, todo mundo rouba’, isto é uma mentira!”, afirma.

Cosméticos para a alma.

A maior vantagem é a possibilidade de se encontrar livros que não estão mais presentes nas livrarias. “Tem obras de autores que já morreram, que deixaram de ser editadas e você resgata através de um sebo. Tem obras que são desconhecidas de algumas pessoas, mas são conhecidas de outras, de mais idade e que gostariam de reler um livro que leram na infância, por exemplo. Isso nunca vai desaparecer”. O valor de um livro é dado por sua procura. Não só no caso de um livro raro, mas de um sucesso editorial, por exemplo. “Livro também é moda, a televisão que faz vender, a propaganda. Um casal de personagens fala sobre o livro na novela, e no dia seguinte vem gente aqui procurar. A resposta é imediata”. Funciona muito bem quando se divulga um produto de cada vez. Com tanta diversidade, a internet não obtém o mesmo êxito. “A internet tem a capacidade de jogar muita informação, e cada informação pega uma camada da sociedade. Não é como a televisão que pega, por exemplo, todo o publico de uma novela das oito.”, diz.

Casa de memórias

Enquanto folheia uma revista de receitas, a senhora Estela, cliente, responde que sua procura pelos sebos geralmente é de livros e revistas culinárias. Mas não procurava por nada em especial naquela tarde, apenas passeava pelo Centro. Conta também que gosta muito de ler obras clássicas da literatura, aquelas mesmas que o Sr. Dilermando lamentava por ninguém mais demonstrar interesse. Livros que atravessam e continuam marcando gerações. Pois as próprias filhas da Sra. Estela, até poucos anos atrás, também encontravam os livros obrigatórios para leitura no colégio e para o vestibular bem ali. Ela diz ter certeza de que, no futuro, sua neta também irá buscar o que ler nos sebos de Ribeirão. E espera que a escola continue incentivando a leitura dos clássicos.

Intercâmbio Municipal

Ribeirão Preto atrai a atenção de muita gente que gosta de leitura. “Quando eu cheguei aqui, me apaixonei pela cidade”, conta Claudenice, proprietária do Sebo Mania de Cultura. No ramo há dez anos, começou com uma banca de revistas em Londrina, Paraná. Antes, tinha uma firma de entrega de leite em domicílio. Quando criança, queria ser bibliotecária. Aos poucos começou a vender livros, CDs e filmes usados na banca, e logo montou sua primeira loja. Seis anos atrás, veio conhecer a Feira do Livro de Ribeirão, pois não conhecia nenhum evento do gênero. Imediatamente surgiu a vontade de abrir um sebo na cidade, mas a espera durou por mais de um ano até conseguir um pequeno ponto no Calçadão. “Aqui o pessoal gosta de leitura, é um bom lugar”, diz. Durante alguns anos ela manteve o negócio nas duas cidades, chegando a trazer a sobrinha que morava em Portugal para gerenciar o sebo de Ribeirão Preto. Hoje, permanece a loja daqui, assim como sua proprietária, que mudou definitivamente para Ribeirão.

Na Nove

Conversa ao pé do livro.

O Sr. Gustavo retornou ao interior paulista após trinta anos morando junto ao mar, em Santos, onde tocava uma loja de perfumes importados. Em um ramo já bem conhecido da família – a irmã é dona de “uns três, quatro brechós em Ribeirão”, e o cunhado é o Sr. Dilermando, do Sebo do Brechó – resolveu montar seu negócio. Localizado no patrimônio histórico tombado Avenida Nove de Julho, o Sebo da Nove abriu as portas em 2006. “No negócio do sebo, o difícil é no começo, até você formar um acervo. Depois que está formado, é só ir repondo”, explica. O aluguel é alto, a disputa pelo ponto é grande, mas ele conta que compensa pela comodidade para o cliente e pela visibilidade. “Se estivesse em outro local, dificilmente teria conseguido este acervo em quatro anos. E no sebo, para você vender, tem que ter uma mercadoria boa”.

Saudades de lá.

A loja foi crescendo aos poucos, ocupando mais cômodos do sobrado, somente com os itens que os clientes levam até lá. “Pezinho no chão, porque no início é difícil, você paga para trabalhar”, conta o Sr. Gustavo. “Se você coloca mercadoria que não roda na prateleira, não compensa o espaço que ela ocupa”. Ali não encontramos discos de vinil ou filmes em VHS, itens que saem pouco. Para o sebo, não é viável adquirir todo material que levam até lá. Os sessenta exemplares do livro “Lolita”, de Vladimir Nabokov, encostados no acervo que o digam…

Pedro, 23 anos, cliente, trabalha em uma agência de design e gosta de garimpar filmes antigos “Não chego a ser um colecionador, mas tenho uns 10, 12 títulos”. É também fã de história em quadrinhos, principalmente de super-heróis, porém o último livro que leu foi Anjos e Demônios, há dois anos. “Não tenho muito tempo para ler livros”, justifica. De vez em quando garimpa discos de vinil com um amigo que possui vitrola. Já encontraram alguns itens bem raros, como um vinil do bob Marley de 73, edição norte-americana, mas comenta que discos assim saem por um preço bem mais salgado. “Mas vale a pena, é algo que não se encontra em lugar nenhum, nem na internet”.

Trapos coloridos.

Vinil

Música redonda.

Discos de vinil são um dos artigos mais destacados nos sebos. Paulo trabalha no Sebo do Brechó há oito anos e cuida do andar superior do sobrado. Por ali, estantes e mais estantes repletas de discos de vinil. Trinta, quarenta, cinquenta mil LPs. E também CDs e aparelhos de som com vitrola, que não são mais fabricados no Brasil. “Fazem matéria na televisão de que vão voltar a fabricar disco de vinil, mas não vejo falar que vão fazer aparelho para tocar”, diz Paulo. A procura caiu muito após a popularização do CD, nos anos 90. Na década seguinte, a internet continuou revolucionando os modos de consumo da música como produto cultural. Mas a diferença entre os formatos digitais e o vinil é sentida por muita gente, principalmente por conta da qualidade superior da gravação em LP. E segundo Paulo, “tem toda a mística que envolve o vinil, a pessoa parece que curte mais o ritual de colocar para tocar, de ver a bolacha preta rodando.”

O público é variado, passando por todas as gerações e estilos musicais, da molecada procurando rock clássico aos senhores de cabelos brancos que gostam de sertanejo raiz. “O vinil é um documento histórico, e hoje a qualidade das músicas caiu, então no mínimo o pessoal vem atrás para gravar, passar para cd”. Antes que o vinil acabe?, pergunto. “Acabar não vai não. Muitas pessoas ainda colecionam. Eu tenho a impressão de que se fizessem mais discos de vinil, se fizessem aparelhos, tivesse uma assistência técnica, como era anteriormente, estaria vendendo normalmente.”

Colecionadores

Molduras do tempo.

Sebos atraem bastante o interesse de quem gosta da arte de colecionar. “Eu trabalho com material colecionável em geral: livro, gibi, álbum de figurinha, selos, moedas, cédulas, brinquedos, filmes, vinil, tampinha de garrafa, qualquer coisa que colecionador goste”, conta Ivan, proprietário do Sebo Túnel do Tempo. Nas paredes, cartazes de filmes antigos chamam a atenção pela nostalgia. Mas estes, ele não vende. “Teve um cartaz só que eu nem vendi, eu doei para o rapaz que insistia muito, todo dia. Era do filme Cleópatra, de 1963”, entrega. Ivan trabalhava como motorista particular quando recebeu a proposta para adquirir um pequeno sebo próximo ao Calçadão, há onze anos. O interesse pelo negócio veio de uma paixão carregada desde a infância, nos anos 50: colecionar gibis. “Além de adquirir coisas para mim, eu me sustento”, diz o proprietário que também é colecionador. Diz que ainda há quem goste do hobby, mas lamenta que isso esteja acabando. E dá um exemplo: “Há uns 15, 20 anos atrás era bem comum a troca de gibis, hoje praticamente não existe mais isso”. Nada mais triste para um colecionador do que não ter com quem trocar itens e conversar sobre sua paixão.

Sabe aquela rádio que já fechou? Aqui toca!

Ivan conta que trabalha com material voltado para colecionadores e apreciadores de antiguidades em geral. Filmes antigos, edições raras de gibis, lotes de coleções completas e incompletas dos mais variados itens, álbuns e figurinhas que saíram do mercado entre outros. O ponto na rua Marcondes Salgado é recente. A antiga loja, na rua Amador Bueno, era bem maior, mas os custos não compensavam. Para o proprietário, o movimento caiu bastante, por diversos fatores. A perda de interesse pela leitura, principalmente entre os mais jovens, é um dos motivos mais gritantes. Além disso, há a disponibilidade de um gigantesco material cultural que pode ser baixado de graça na internet – músicas, filmes, livros e quadrinhos.

Sebo Virtual

Amarelo-tarzan.

Ironicamente é a própria internet a responsável pela recuperação do negócio dos sebos. Segundo Ivan, as vendas online são responsáveis pela maior parte do faturamento. “Venda mesmo, na loja, eu acredito que não só eu, mas qualquer sebo aí na cidade tem dificuldade”. Para negociar na internet, os sebos não precisam necessariamente contar com um site próprio. Os “sebos virtuais” são sites de compra e venda de livros usados que funcionam de maneira simples. O proprietário cadastra a loja e seu acervo no site, o cliente faz a busca pelo produto que procura e, efetuada a compra, recebe-o pelo correio. Grande parte dos sebos brasileiros faz negócios pela internet. Um dos grandes benefícios para os proprietários é a possibilidade de vender seu produto para qualquer lugar do Brasil e do mundo. Como o Sr. Gustavo, que já teve clientes virtuais no Peru e no Japão, ou o Sr. Dilermando, na Europa: “Já vendemos para uma senhora em Portugal e uma pessoa na França. Eles tem acesso, pois a internet pega em todo lugar. O Futuro é da internet. Mas enquanto houver pessoas que gostam de sentar e ler um livro, nós vamos continuar vendendo”, declara. Claudenice, por sua vez, mantém o site do sebo Mania de Cultura além do cadastro em um sebo virtual.

Revolucionários, trabalhistas, capitalistas...

“Geralmente quem mora em Ribeirão até acessa o site, mas prefere vir à loja, conhecer. Aqui e a gente conversa, mostra a loja, há todo um trabalho. A gente não chega e só joga o livro na seção”. No Sebo da Nove, as vendas online alcançam apenas uns dez por cento das vendas da loja, segundo o Sr. Gustavo. “Hoje o pessoal está descobrindo o sebo, principalmente para livros didáticos”. Na sua opinião, o público está lendo mais. “Eu vendo bastante literatura aqui”, conta. Já para o Sr. Dilermando, o hábito da leitura é que não desapareceu. Mas para que ele continue, é necessário preservá-lo entre as novas gerações. “Filhos de pais que lêem, lêem. Se ele não vê em casa o costume de ler, ele não vai aprender, a não ser que o ambiente escolar seja muito propício à leitura.”


Onde encontrar:


Sebo do Brechó (http://sebodobrecho.com.br/)

Rua São Sebastião, 281 e 286 – Centro

Tel – (16) 3625-3841 / 3632-1508


Sebo da Nove

Avenida Nove de Julho, 867 – Centro

Tel – (16) 39048474


Sebo Túnel do Tempo

Rua Marcondes Salgado, 324 – Centro

Tel – (16) 3635-2445


Mania de Cultura

Rua Américo Brasiliense, 383 – Centro

Tel -  (16) 3964-5903





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