mar 062011
 

O título deste filme tenta estabelecer um paralelo claro com o status quo dos seres humanos, como se a diferença entre nós e os animais inexistisse. Assim como acontece no reino animal, aqui os fortes perseguem e devoram os mais fracos, todos eles vivendo e coexistindo num sistema que beneficia (no caso dos seres humanos) o egoísmo – reina quem mastiga em maior quantidade e com mais voracidade. É uma idéia interessante, porém o fio narrativo condutor revela-se ineficaz na tarefa de sustentá-la.Dirigido e escrito por David Michôd, Reino Animal nos entrega um ótimo primeiro ato. Os personagens que surgem na tela são indivíduos comuns, ainda que, para nós, eles não deveriam ser: uma família de assaltantes que vivem normalmente, apenas tentando sobreviver na selvageria social do dia a dia – simplesmente aconteceu de eles encontrarem na criminalidade um ofício, como se fosse outro qualquer. Alguns casados e outros solteiros, os irmãos Cody estão montando um esquema para saírem impunes da perseguição policial enquanto cuidam de seus afazeres domésticos. No meio disso encontra-se “J” (James Frecheville), um garoto que o filme constrói como vítima de um ambiente formado por escolhas erradas. Sentado no sofá assistindo televisão, ele espera os paramédicos chegarem para levarem sua mãe que encontra-se do seu lado, vítima de overdose, morta. Como se fosse algo corriqueiro, o rapaz apenas busca auxílio com a sua avó, Janine, para dar continuidade a uma vida aparentemente sem sentido ou rumo.

O filme acerta no tom do início e apresenta um universo instigante, atípico para um drama familiar. Mas Michôd claramente não consegue dar andamento à sua narrativa conforme transforma um promissor drama num suspense “polícia e ladrão” como outro qualquer. Se a trivialidade da situação aos olhos daquela família era um ponto interessante a ser trabalhado, o ímpeto em querer apontar culpados e inocentes num crime que sequer temos o conhecimento faz o filme perder forças ao passo que as relações entre aquelas pessoas tornan-se frágeis, mal construídas e desenvolvidas. A relação entre “J” e sua namorada, por exemplo, ganha total relevância em determinado ponto, no entanto, é o sentimento entre ambos omitido da plateia que culmina numa inconsistência prejudicial à trama.

Além do mais, o roteiro ainda se permite cometer erros amadores, como simplesmente deixar de lado a família de um dos irmãos após a sua morte – assim, do nada, sua esposa e filho deixam de existir. Mas, por outro lado, a direção de Michôd é dinâmica sem apelar para histerias, e a atuação de Jackie Weaver na pele da “mãe” Janine Cody é realmente ótima: materna e afável num momento, servindo de apoio emocional para os seus filhos, ela não hesita em transforma-se numa assassina fria no momento seguinte, agregando deliciosos traços ambíguos à personagem. Uma pena que o mesmo não pode ser dito do protagonista “J” vivido por James Frecheville, que passa o filme todo com uma única expressão e não atende à demanda emocional do seu personagem.

Uma experiência frustrante para quem consegue vislumbrar a ponta de algo a mais no início, e um bom filme de suspense para quem se contenta com mais do mesmo, Reino Animal acaba, no final das contas, sendo um filme vazio. Não precisava ser assim, mas é.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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