mar 132011
 

A premissa é simples: jovem escritora procura refúgio de paz e tranqüilidade para trabalhar no seu livro, mas é perseguida, humilhada e estuprada por um grupo de moradores locais. Largada à beira da morte, ela volta em busca de cada um deles para se vingar. Prole do cinema exploitation dos anos 70, A Vingança de Jennifer (1978) não é nada mais que um longa barato concebido para a nascente do terror voltado ao público jovem. Sua refilmagem, Doce Vingança traz alguns dos aspectos que faziam parte do contexto cinematográfico daquela estirpe, e por isso mesmo não funciona.

O roteiro readaptado por Stuart Morse é construído em parcelas: a primeira, com a protagonista Jennifer chegando ao local, que nada mais serve para enganchar a segunda: quando ela é violentada por um grupo de homens. Aqui é consumida uma enorme quantidade de tempo. Todas as sequências envolvendo os atos contra a personagem (a humilhação, um jovem com problemas mentais que é forçado a violentá-la, e, finalmente, o estupro coletivo na mata) devoram a tela de tal maneira que atingem o ponto certo: fica praticamente insuportável continuar olhando para as cenas a partir de determinado momento. O efeito repugnante deveria servir como contraponto para o alívio que viria a seguir, quando a protagonista vai atrás dos seus predadores – afinal, é um terror, um filme de vingança, e a catarse é parte primordial neste processo.

Mas é na terceira parcela do roteiro que as coisas se complicam. A enorme avalanche de equívocos que emerge dentro da narrativa consegue a proeza de colocar a vingança de Jennifer numa posição completamente inverossímil. Afinal, como ela fugiu do lago? E depois disso, como conseguiu sobreviver por mais de 30 dias na floresta comendo ratos e ainda planejando tão bem as torturas que esquematizou para cada indivíduo que a atacou? Ora, a moça sequer conseguia consertar uma privada sozinha, então o que dizer de todo esse esquema montado por ela? Como se não soubesse dar uma resposta apropriada a essas perguntas, o filme passa a focar os responsáveis pelo evento, perdendo, dessa maneira, um precioso tempo, já que em nada é relevante conhecê-los.

Ainda na posição de um longa-metragem do gênero terror, as escolhas feitas pelo diretor Steven R. Monroe são questionáveis. Conforme já dito, todo o episódio envolvendo a humilhação e o abuso sexual chega a causar aversão. Ele constrói esses momentos de forma tão meticulosa (por um viés convencional, é verdade), com seu devido tempo (mais que o necessário, até), que a rapidez com que se sucedem os eventos por conseguintes causam um contraste que pode incomodar. De um lado, temos o trauma palpável acometido numa jovem inocente, e de outro, a dinâmica lúdica de um gênero. Não que os dois não possam coexistir. Mas acontece que, aqui, o equilíbrio chega a destoar bruscamente – e os erros acima citados agravam ainda mais a situação.

É possível questionar a presença física de Jennifer na terceira parte da trama. Teria ela realmente morrido e voltado para se vingar? Ou será que sua tortura sobre aqueles homens é um simbolismo para o peso da culpa? Apesar de serem leituras possíveis, elas automaticamente se invalidam quando a protagonista não apenas interage com outras pessoas como, claro, monta toda a estrutura que serve à sua tal sedenta desforra.

Doce Vingança é aquilo que foi o seu original: um filme violento e cheio de erros. Porém, diferente do contexto dos anos 70, quando estes filmes eram feitos quase que de forma amadora (onde reside grande parte dos seus charmes), a versão de 2010 não passa de algo ruim e deslocado no tempo.

I Spit On Your Grave – Steven R. Monroe – 2010 – 2/5.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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