fev 202011
 

Filme pode soar banal, mas na verdade é uma história de superação que deve ser olhada com mais afinco para extrair seus reais valores.

O diretor David O. Russell é conhecido na indústria pelos seus ataques nos sets de filmagens tanto quanto pelos seus filmes – estes, principalmente Três Reis (1999) e Huckabees – A Vida é Uma Comédia (2004), os dois últimos, são para um público, digamos assim, mais restrito. Dito isso, é de se pensar o porquê de ele ter feito um filme tão convencional como este O Vencedor. Aliás, será que este filme é tão quadrado assim?

A comparação com outra obra recente vem a calhar: O Discurso do Rei. Assim como no filme de Tom Hooper, O Vencedor conta uma história de superação – troque a gagueira e a família real por crack e uma família disfuncional. Mas por que O Vencedor funciona e o rei George VI fica só na gagueira, ainda mais se levarmos em consideração que ambos são baseados em histórias reais? Primeiro: a história do pugilista Micky Ward (Mark Wahlberg) traz uma maior identificação com o público. Não só por se passar em 1993 (época mais próxima e por isso mais vívida na cabeça das pessoas, ao contrário da década de 30), mas por transcorrer num universo mais próximo ao espectador (uma família comum com problemas, infelizmente, comuns numa oportunidade de significarem alguma coisa para a cidade a qual pertence).

O aspirante a boxeador Micky Ward é um sujeito ordinário em meio a uma situação comum a todos: ele quer ser alguém na vida. Porém, mais do que ascender a algum patamar, ele quer viver a sua vida. Ao lado do irmão mais velho, Dicky Eklund (Christian Bale), e a sombra do passado que persegue este, Micky parece existir para a sua família, principalmente seu irmão, também responsável por seu treino, e a mãe, Alice Ward (Melissa Leo), quem administra sua lutas, unicamente como um objeto no qual podem projetar os sonhos desperdiçados por Dicky quando este sucumbiu ao crack. Assim, quando surge Charlene (Amy Adams), o interesse amoroso, uma balconista que, assim como reflete na família Eklund/Ward, em outros tempos deixou oportunidades escaparem, Micky é por ela incentivado a tomar decisões antes sufocadas por seus próprios familiares e o desejo destes em propagarem um passado interrompido por erros. (Antes de ser visto como um “trampolim” para lutadores em ascensão, Micky é, na verdade, um “trampolim” para a sua família.)

A partir daí, Micky transforma-se no cerne narrativo que envolve pessoas debilitadas social, pessoal e profissionalmente, todas elas procurando nele uma oportunidade, também, de corrigirem seus próprios erros. E esse é um aspecto que leva O Vencedor a uma profundidade e complexidade inexistentes em filme como O Discurso do Rei. Olhar mais a fundo e entrelaçar personagens que não se acomodam com suas situações, mas que, dentro de seus respectivos universos e com as ferramentas que lhe são dispostas, tentam mudar os rumos de suas vidas, ainda que isso culmine em prejuízos dos quais não têm ciência, torna tudo mais tridimensional, palpável, genuinamente humano (independente de serem reais ou não, o que deixa ainda mais inútil a “cartela” que estampa o início do filme).

Uma segunda característica que transforma O Vencedor num filme bem menos convencional do que aparenta é justamente a direção de David O. Russell. Além de injetar uma energia extasiante através da trilha sonora (que conta com clássicos de Led Zeppelin, Aerosmith, Red Hot Chili Peppers, entre outros), ele faz duas opções dignas de nota: a montagem, tarefa incumbida a Pamela Martin, que muitas vezes dialoga com o espectador (por exemplo, a sequência que mistura o Dicky no presente, usando droga, e sua luta com Sugar Ray, quando no ápice da sua carreira, demonstrando de uma só vez dois aspectos importantes do personagem), e as sequências de luta captadas com uma textura televisiva. É saboroso ver no cinema imagens que, não apenas pertencem ao formato da televisão, mas que, através dessa forma e dentro de um contexto (são os anos 90), tornam-se parte integrante da narrativa – é como se ele organicamente juntasse cinema e televisão. Pode não ser algo de uma percepção ímpar, mas ao menos surge fortemente na tela durante todo o tempo em que as lutas acontecem e não apenas como um “artigo de luxo”, pontuando determinados momentos – o que denota coragem por parte do diretor.

E o mesmo pode ser dito dos roteiristas, Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, que dão uma resolução à trama muito antes do término do filme. Sim, há o momento final, a grande luta que determinará a carreira de Micky. No entanto, como o filme é, basicamente, sobre a sua relação com a família e a namorada e a maneira como estes lhe enxergam, a história ganha uma resolução antes da luta. É como se, na verdade, o embate final fosse a coroação de um árduo caminho que, finalmente, levou a algum lugar significativo depois de tantos anos.

E ainda que possa aparentar ser uma obra de pequenas proporções, como o corpo fragilizado pelo crack de Dicky, O Vencedor, no final das contas, assim como Micky, seu protagonista, exala uma confiança e emoção genuínas. Pode até não ser a mais original das obras sobre boxe, ou mesmo sobre esporte, mas precisa ser?

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

  One Response to “O Vencedor”

  1. E aí, Alexandre? Muito bacana a sua review, detalhada também. Não gosto de boxe, mas acho que verei, pelo lance da superação, entre outros que você levantou.
    Abraços

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