fev 142011
 

Filme sobre exorcismo chega ancorado na “credibilidade” de ser baseado em fatos reais, mas é apenas mais um “filme de exorcismo”.

Os dizeres “baseado em fatos reais” estampam o trailer, o cartaz e os créditos iniciais deste O Ritual. O filme conta a história de um exorcismo, no qual alguém, de algum lugar, que fala alguma língua que não seja a do protagonista (para culminar em espanto quando o encapetado dialoga no mesmo idioma), é possuído pelo demônio – aliás, possuída, pois é de praxe que as vítimas dos demônios nesses filmes sejam mulheres (algo a ver com a fragilidade, provavelmente. Enfim…). Para tanto, foi julgado que traria mais urgência e de quebra uma possível “credibilidade” ao longa que tal acontecimento tenha, de fato, acontecido – para isso, os dizeres.

Mas como é possível que 114 minutos de projeção, ou seja, toda uma trama que envolve personagens, crença, descrença e momentos de tensão e desenvolvimento (e isso por pior que seja o roteiro) podem ter sua importância reduzida a uma única sentença (“baseado em fatos reais”)? Com roteiro escrito por Michael Petroni, que por sua vez tem como base o livro homônimo de Matt Baglio, e direção de Mikael Hafstrom, O Ritual traz a já batida trama do cético que tem a sua fé colocada em xeque através dos rituais de exorcismos – “Os céticos estão sempre atrás da verdade. Mas o que fazer quando encontrá-la?”, diz o padre Lucas Trevant interpretado por Anthony Hopkins.

E independente do que procura um cético como o protagonista Michael Kovak (Colin O’Donoghue), um rapaz que passou parte da vida cuidando de cadáveres na funerária do pai (esta, aliás, situa-se dentro da sua própria casa), é certo que os realizadores deste filme não se esforçaram tanto quanto ele para alcançarem algo. Sem fugir muito dos mandamentos estabelecidos no seminal O Exorcista (1973), para o qual, aliás, é feito o devido tributo num determinado diálogo (“O que esperava? Cabeças girando e sopa de ervilha?”), este novo exemplar do subgênero de possessão é mais uma vitrine para garotas terem seus corpos contorcidos, praguejarem num dialeto desconhecido e através de um timbre de voz anormal, protagonizarem momentos sobrenaturais, como vomitar três pregos gigantescos e por aí vai. E detalhe: diante disso tudo, o protagonista ainda mantém-se incrédulo, como não poderia deixar de ser (e sim, conforme dito antes do filme começar é tudo “baseado em fatos reais”).

Mas não só de clichês demoníacos sobrevivem os defeitos de O Ritual: apresentando falhas consideráveis no roteiro (um exorcismo pode demorar meses ou até anos, mas o que se sucede no filme é finalizado no decorrer de uma noite? E a repórter interpretada por Alice Braga? Qual é a dela?), toda a discussão sobre a crença e descrença é automaticamente anulada diante o espetáculo que geralmente acontece em longas da estirpe. E ainda assim, mesmo que a lógica de “possuída” seja invertida no terceiro ato do longa, de nada adianta tal mudança visto que ela ocorre unicamente com o propósito de criar uma espécie de grande clímax com um vilão.

Então, pouco importa a crença do espectador (o bem sempre tem mais chance de prevalecer). Na verdade, pouco importa qualquer coisa que possa realmente importar, pois os dizeres antes dos créditos finais relatam os destinos destes personagens nada interessantes. Um recurso típico de filmes “baseados em fatos reais”. É, baseado em fatos…

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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