fev 152011
 

Por que os homens mentem e as mulheres choram? (Suellen Fernandes)

Minha querida, é preciso tomar muito cuidado com esse tipo de pergunta. Primeiro, porque é nome de livro de auto-ajuda. Segundo, porque incorre em uma falácia*. Se você pergunta o porquê de alguma coisa, parte do princípio de que aquilo é verdadeiro (da mesma maneira que perguntamos “por que o céu é azul?”, e não “por que o céu é verde?”). Porém, será mesmo uma verdade absoluta o fato de que os homens mentem e as mulheres choram?

Vamos ver. Os homens mentem, é verdade. Porém, existe uma explicação racional para isto. Os homens mentem por que… Tcharam! Eles são humanos. E ser humano nenhum é isento da mentira. Mentimos por várias razões, mas é possível reduzir todas elas a dois fatores: conseguir benefícios e/ou evitar malefícios. Simples assim. Da mesma forma, as mulheres choram porque todo ser humanos chora. Nossas razões para chorar, no entanto, não são nem de longe fáceis de resumir.

Ah, Monge, não seja bobo. Está subentendido que a pergunta é “por que os homens mentem MAIS e as mulheres choram MAIS?” E aí entramos na deliciosa discussão da guerra dos sexos. Campo de algumas das maiores inverdades atiradas ao vento, pois qualquer coisa que se diga sobre qualquer um dos gêneros irá encontrar ouvidos. Os homens mentem mais? Mesmo? Acusem-me de suspeito por ser homem, mas isso é uma acusação séria. Investiguemos então os motivos desta difamação. Por exemplo, é um consenso sócio-cultural a ideia de que os homens traem mais do que as mulheres (o Monge não concorda, mas vá lá). Para conseguir trair sem se dar mal toda santa vez, é necessário mentir. Assim, por associação lógica, achamos um cenário no qual os homens mentem mais do que as mulheres.

E em outros contextos? É também consenso geral o fato de que as mulheres são ótimas para contar pequenas mentiras. Histórias de Bicho-Papão para controlar os filhos pequenos, explicações de improviso para o marido sobre a visita de última hora da mãe, as famosas dores de cabeça quando elas não estão lá muito amorosas… Sem contar a “falsa amizade sincera” entre as mulheres, daquelas que dizem “amiga, que vestido mais liiindo!” quando na verdade pensam “nossa, que coisa brega e horrorosa…” (antes de crucificar o Monge, meninas, lembrem-se de que isto também é um consenso sócio-cultural). Então, no quesito mentira, podemos dizer que estamos empatados. Todo mundo mente, o que muda é o contexto.

E quanto ao choro? Bem, é verdade que as mulheres tendem a chorar mais do que os homens. Não tem como ser de outra forma, é biológico. O choro é uma reação física a uma alteração intensa do humor (não o “senso de humor”, mas o estado emocional do indivíduo), e as mulheres sofrem de alterações constantes de humor por conta de seus ciclos hormonais. No entanto, isto quer dizer que elas sejam necessariamente mais sensíveis? Meninas, vocês já cuidaram de um homem doente? Ficamos parecendo bebezões, não é? E não é só pura manha, é que ficamos fragilizados. Atiça nossos temores. Da mesma forma, o homem não é imune à tristeza de perder alguém querido, à frustração de ter seus sonhos abortados, à sensibilização perante as injustiças do mundo… Então sim, quantitativamente, as mulheres choram mais. Mas sofrimento não é exclusividade de indivíduo algum, menos ainda de apenas um gênero.

Por fim (esta foi a resposta mais longa que o Monge já deu), chegamos ao supra-sumo da falácia, à cereja do bolo de tal lógica tendenciosa: a pergunta colocada desta maneira, ainda mais na capa de um livro de auto-ajuda, induz ao pensamento de que as mulheres choram PORQUE os homens mentem. E assim alimentamos a noção coletiva de um mundo feito de homens cafajestes e mulheres frágeis, quando a realidade está repleta de exemplos em contrário, ou mesmo completamente fora destas definições.

Ainda bem que o amor existe para dar cabo destas ideias mesquinhas. Já estamos de saco cheio de consensos sócio-culturais.

*Falácia é uma sentença, pergunta ou argumento inconsistente, que induz a um erro de conclusão. Geralmente é provida de algum amparo emocional, psicológico, individual etc. em detrimento da lógica, ou mesmo pode sustentar-se na distorção da mesma. Igual ao discurso de muitos políticos que se vê por aí…




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