fev 062011
 

Novo de Eastwood tenta levantar questionamentos sobre vida após a morte, mas se afoga em tsunami de equívocos.

Somente um cineasta do naipe de Clint Eastwood para recriar uma tragédia recente como o tsunami sem transformá-la num arco-íris, como já disse Godard sobre a câmara de gás de A Lista de Schindler. Sem intenções políticas ou muito menos sensacionalistas, o acontecimento surge na tela de forma aterradora e sufocantemente verdadeira. Há um propósito narrativo aqui. Não é apenas exibição, um fato elevado a entretenimento cinemático (transformação a qual Godard equivocadamente, mas teoricamente correto, se referia). No entanto, a sobriedade e sensatez com que tal sequência é realizada parecem se esvair junto com os destroços da cidade conforme o desenrolar da(s) trama(s) de Além da Vida.

Escrito por Peter Morgan (Frost/Nixon, de 2008), o roteiro acompanha três narrativas que comportam experiências relacionadas à morte: uma jornalista francesa, Marie LeLay (Cécile De France), que passa a ter visões após quase morrer afogada no tsunami; Marcus (Frankie McLaren), um garoto londrino que perde seu irmão gêmeo num acidente de carro a vai atrás de respostas divinas; e George Lonegan (Matt Damon), um outrora vidente de sucesso que agora trabalha numa fábrica e vive recluso, assombrado pela fama do seu dom – ou conforme ele diz, maldição. Na tentativa de suscitar reflexões sobre a vida após a morte com estes três arcos, Eastwood e o roteirista Morgan erram ao não deixarem lacunas a serem preenchidas pelo espectador neste que é um assunto indefinível por natureza, já que ninguém possui uma resposta inconcussa sobre ele.

Indefinível pois na trama não é inserida a religião (ainda que as religiões possuem conceitos definidos, e não necessariamente uma resposta imutável). Além da Vida centra sua narrativa apenas na vida após a morte, independente da crença em que ela possa se encaixar. E o assunto é tratado com seriedade, de forma respeitosa e tudo o mais, é verdade. No entanto, tudo emerge de uma forma dramatúrgica tão clichê e desnecessariamente melodramática (os acordes de violão ou violino que sobem a cada momento minimamente dramático) que fica difícil levar o longa a sério por mais que ele insista – se todos os diálogos de Marcus não causar constrangimento, difícil será engolir a forma artificial com que as narrativas se cruzam.

Não fosse apenas isso, as duas tramas que cercam a do personagem George Lonegan são bem menos interessantes e parecem existir unicamente com o intuito, não só de, como já dito, levantar questionamentos, mas formarem um cruzamento no clímax. Aliás, cruzamento este que de relevante nada revela à história, servindo apenas para concluir arcos dramáticos medianos e que com certo custo foram acompanhados até ali. E assim, num filme que tenta apresentar questões sobre o além, muitas respostas são dadas em meio a personagens e tramas insossas. Mas uma coisa é certa: não precisa ser vidente para ter a certeza de que Além da Vida passará despercebido. Como um espírito que vaga por entre as pessoas sem o dom mediúnico.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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