jan 022011
 

Cinebiografias são difíceis por duas razões, basicamente: a vida – ou pedaço dela – da figura retratada na tela (seja história, artística ou de qualquer estirpe) tende a ser dramatizada por seus realizadores em prol de um apelo público maior – de forma pragmática: eles colocam elementos para que o filme venda. E, também, as pessoas vêem esses filmes enquanto verdade. “Nossa, mas ele era um beberrão escroto”, muitos dizem sobre o Jim Morrison do filme de 1991 dirigido por Oliver Stone, The Doors. E com Johnn Lennon, personalidade artística importante e controversa da história do rock’n roll, não é diferente. A maioria conhece o rapaz de óculos redondos que fazia caretas para as câmeras, e que mais tarde se transformaria num dos maiores protestantes contra a guerra nos conturbados anos 70. Mas e a sua adolescência? No documentário The Beatles Anthology sabemos o quão problemático ele foi, e por quantos percalços psicológicos devido a problemas familiares envolvendo a sua mãe ele passou. E será que o filme trata isso com fidelidade? Em outras palavras, será que devemos confiar num filme que se propõe a ser biográfico?

A resposta é não. Bem, ao menos não devemos tomá-lo como base concreta, afinal, há muitas outras maneiras de se conhecer mais sobre John Lennon. Mas este O Garoto de Liverpool, por mais convencional e quadrado que seja – uma contraposição inadequada à figura rebelde e posteriormente vociferante em questões políticas deste personagem -, traz algo de relevante, por menos este algo venha a ser. Infelizmente não é nada ligado unicamente ao Lennon em si, mas ao momento histórico em que ele viveu. O rock’n roll enquanto catarse emocional foi muito presente nesta passagem da sua vida, como ele mesmo diz em entrevistas, e assim o foi para tantos outros da época.

Outro ponto interessante mostrado aqui é a maneira como John Lennon, e todos os outros da sua idade naqueles tempos, aprendia a tocar os instrumentos. Não havia aulas e os professores eram os próprios familiares – isso é, caso eles soubessem tocar alguma coisa -, ou outro garoto do lado oposto da cidade que soubesse ensinar algum acorde desconhecido. Enfim, mas tudo isso aqui, obviamente, não é o foco do longa dirigido por Sam Taylor-Wood (em seu debute na função), e a adolescência do tal garoto de Liverpool é costurada de forma exarcebadamente cinematográfica (leia-se: esquematizada). O que realmente poderia interessar acaba passando batido e, no final, a verdade, ou mesmo o retrato de uma figura (no caso, o John Lennon), termina por ser embebida em dúvidas quanto à própria natureza daqueles que o pintaram.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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