jan 172011
 

Na tentativa de dialogar sobre a verve consumista da sociedade, o filme se deixa levar por convenções do gênero.

O american way of life, o sonho americano e todo o misticismo capitalista que envolve a sociedade suburbana dos EUA é um produto. Lacrado e enlatado, ele está à venda em filmes e há filmes que se propõem a vendê-lo, assim como outros tentam divagar sobre o conceito. Amor por Contrato, do diretor estreante Derrick Borte, chega com uma premissa interessante, mas imbuída em noções contraditórias ao seu cerne narrativo.

A tal premissa é de que o casal Steve e Kate Jones (David Duchovny e Demi Moore respectivamente) e seus filhos não são o que aparentam. Eles formam, na verdade, manequins de carne e osso. Os Jones são um grupo de uma grande corporação (provavelmente mafiosa, já que ela sempre trabalha na surdina – afinal, estamos falando de falsidade ideológica) que se infiltra numa comunidade e cujo principal objetivo é despertar o interesse alheio em suas imagens, vendendo, a partir dessa ilusão, produtos licenciados.

Os Jones são perfeitos: andam nos melhores carros, vestem as mais caras roupas, usam os mais cheirosos perfumes e possuem as mais afáveis personalidades. Em suma, eles seriam, aos olhos despercebidos da vizinhança, a personificação do modo de vida americano. Esse conceito é trabalhado de forma inicialmente interessante. O roteirista/diretor não lança as informações com desespero. Dessa maneira, os Jones parecem uma família, digamos, disfuncional – com direito a casal dormindo em camas separadas e até mesmo incesto.

No entanto, conforme o desenrolar da narrativa, o que antes era uma premissa com certo vislumbre de criatividade começa a encostar-se no convencional. É o casal incompatível que sente atração um pelo outro ou os dramas dos coadjuvantes que são tratados de formas demasiadamente súbitas (caso da homossexualidade e a promiscuidade). Mas há ali um fio de ideia que permanece interessante até o final, sobretudo por conta do personagem de Duchovny. Na faixa dos 50 anos de idade, triste, solitário e carente, Steve enxerga no trabalho, na fantasia daquela família, a oportunidade de concretizar ele mesmo um seio familiar.

É uma pena que no decorrer da trama precisemos, como já dito, observar uma maior aproximação com a parte rasa do gênero. No final, o que importa é a família, o amor e a oportunidade de estar ao lado do outro. Assim, um discurso minimamente relevante sobre a família pós-moderna é deixada de lado em prol de uma edificação de valores morais que, ao menos, surge de forma não tão gritante – mas também sem brilho ou paixão por aquele universo e retratado na tela.

Por fim, um filme se propõe a construir personagens que vendem um estilo de vida não consegue ele mesmo vender o seu próprio estilo, que seria o de um cinema mais eloquente e menos vendido.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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