jan 092011
 

Diretor oscarizado tenta um olhar mais aprofundado no indivíduo comum diante uma situação de extremo perigo, mas não sai do raso. Mérito acaba ficando com a leitura inusitada que o roteiro permite.

Um homem desesperado pode ser capaz de muitas coisas. Agora, diferente do protagonista de seu terceiro longa-metragem para o cinema, Paul Haggis vem demonstrando certa incapacidade artista enquanto roteirista e diretor desde que foi agraciado com o Oscar por Crash – No Limite, em 2004. Não que 72 Horas seja um filme ruim. É que, independente de seus acertos e erros (este último com a maior parcela), ele principalmente chega para demonstrar o quão medíocre tem se tornado o trabalho de alguém que surgiu de forma tão promissora.

A cena de abertura é um jantar. Dois casais trocam divagações aparentemente descontraídas sobre a natureza competitiva das mulheres. Após alguns desentendimentos, John e Lara Brennan, respectivamente vividos por Russell Crowe e Elizabeth Banks, vão para o carro e transam. Eles são apaixonados, se amam e amam o filho que têm. No entanto, no dia seguinte, tudo isso vai por água abaixo: Lara é presa e acusada de assassinato. Todas as provas levam ao seu envolvimento – relação conflituosa com a vítima, trabalha no mesmo local, foi vista deixando o local do crime e suas digitais estão na arma, um extintor de gás.

Lara é culpada e não vai sair da cadeia. Três anos se passam e John, durante todo esse tempo, esteve atrás de formas legais para libertá-la. Ele acredita na sua inocência, ainda que em determinado ponto a própria assuma ter cometido o assassinato – mas ele a ama, e esta é a sua motivação, é o que ainda o faz acreditar em sua inocência. Por isso, os meios legais não são mais viáveis. Professor universitário, um sujeito comum que só queria levar uma vida decente, John se vê obrigado a arquitetar um plano de fuga para a esposa. E este é o cerne emocional que transita do início ao fim: o indivíduo ordinário jogado numa situação extrema, na qual vidas são colocadas em jogo e as conseqüências fogem à sua percepção.

72 Horas é um filme de suspense, não de ação. A dramaticidade se encontra na relação entre os personagens, e o estado em que se encontram é o combustível para o andamento do filme. Paul Haggis tenta olhar todo este quadro mais a fundo, porém falha miseravelmente – um exemplo: a personagem Nicole (Olivia Wilde) poderia representar um grande dilema e uma oportunidade dramatúrgica de grande relevância para a trama, mas Haggis opta por transformá-la em mera ferramenta narrativa. Assim, o ser humano é visto como um ser livre de dilemas e indagações dentro de tal situação. É o amor acima de tudo, em prol de um “cinemão” ao invés do cinema.

E as escolhas equivocadas se estendem por todo o longa, mas principalmente em dois momentos-chaves: quando o plano finalmente será posto em prática e, depois, quando já em fuga, eles resolvem buscar o filho. No primeiro momento, a montagem completamente pedestre transforma o mínimo de dignidade construída pelo filme em um belo copo de água com açúcar para amenizar qualquer tensão e definir o resto da trajetória enquanto um mero gênero, raso, sem grandes relevâncias. E no segundo momento, uma música surge dentro de uma sequência que deveria servir como contemplação, já que ambas as personagens estão introspectivas, mas fica difícil engolir a escolha fora de contexto, já que a canção soa completamente deslocada – um mal que acomete também o primeiro momento.

Dessa maneira, o que poderia ser um longa interessante sobre as escolhas de um indivíduo comum diante uma situação fora do seu controle acaba se tornando um simples filme de gênero – e por opção do diretor, é importante ressaltar, já que oportunidades dentro do roteiro, também escrito por Haggis, não lhe faltaram. E de uma forma inusitada, dentro das infindáveis leituras que o cinema possibilita, 72 Horas surge como um Anticristo às avessas e imbuído em toda a pompa e verniz hollywoodiano.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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