dez 262010
 

É muito fácil e conveniente, à primeira vista, taxar Jesus Cristo Superstar de um veículo antirreligioso. O filme dirigido por Norman Jewison com base na peça homônima de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber mistura as lanças romanas com metralhadoras, troca os cavalos por tanques de guerra e é imbuído na contracultura dos anos 70 – o que por si só já traria uma verve subversiva. Mas o apedrejamento é mais embaixo.

Sem ter um diálogo que não seja carregado por músicas, o longa é uma ópera rock que representa as últimas semanas de Jesus Cristo. Todos os personagens bíblicos estão lá, desde Judas e Maria Madalena até Caífas, porém, vividos por um grupo de atores libertários que resvalam na moda hippie da época. Esqueça as vestimentas típicas de Cristo e seus contemporâneos. Aliás, esqueça a concepção visual que o cinema propaga daqueles tempos. Aqui, o rei Herodes vive numa espécie de harém/bordel sobre a água, com direito a pianista e dançarinas extravagantes, tanto na vestimenta em si quanto na estética como um todo – algo que se estende pelo filme inteiro.

E a direção de arte encontra alento e suporte nas canções do filme. São essas letras que demonstram a simples indagação, e não uma bandeira contra a religião (no caso, o cristianismo. Mas numa leitura mais aprofundada é possível aplicar em tantas outras e na religiosidade enquanto conceito). E prova disso é como a narrativa se estabelece: um ônibus com atores (ou o que aparentam ser, pelo menos) chega num determinado local e eles dão início ao espetáculo. São pessoas comuns, sem nomes, da década de 70, e que abraçam os personagens numa encenação que propõe perguntas como: “Quem é você Jesus? E o que você fez de importante?”.

É como se, diante o caos e a transformação conturbada dos anos 60 e 70 (o filme é de 1973, dois anos antes do término da guerra do Vietnãm, então as armas e os tanques não estão ali por acaso), eles fossem, não buscar uma resposta (longe disso), mas extravassar a quebra do conservadorismo e gritar, de forma catártica, um descontentamento. É a incerteza que dita as palavras, e a separação do mito do homem (Jesus) reside na intenção de tentar compreender os benefícios que a religião trouxe ao ser humano. Como dito no início do texto, Jesus Cristo Superstar enquanto antirreligioso, cético, apenas, seria panfletário. Aliás, mais do que uma etiqueta, o Superstar do título dita a proporção que a figura do messias tomou nos dias de hoje – em dado momento, por exemplo, é dito que eles precisam amenizar essa “mania de Jesus”, e não é por coincidência que estamos vendo uma ópera rock.

No final das contas, o filme de Norman Jewison é uma sensação como poucas. O resultado pode soar confuso para alguns ou audacioso para outros, e até mesmo os dois, mas uma coisa é certa: uma obra que celebra o questionamento religioso através da música e do cinema merece ela, também, ser celebrada.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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