dez 212010
 

Com cinco curtas e um longa no currículo, cabe dizer que Rodrigo Cortés é um diretor iniciante. Por isso, a tarefa de comandar este Enterrado Vivo, um filme que se passa inteiramente dentro de um caixão, pode ser vista com certa desconfiança. E não me refiro à questão do roteiro, e nem mesmo à direção em si, mas sim, à familiaridade (leia-se: experiência) do diretor com a linguagem de cinema. Alfred Hitchcock, por exemplo, dirigiu Um Barco e Nove Destinos, cuja ação transcorre toda dentro de um bote salva-vidas, na sua 31º incursão em longas-metragens (importante frisar: não estou comparando os dois diretores, mas apenas ilustrando um argumento).

Dito isso, é um alívio constatar que Cortés se sai admiravelmente bem neste seu primeiro filme com projeção mais abrangente. Não só ele consegue aplicar um dinamismo certeiro dentro do espaço concebido para o desenrolar da trama, como é transparente sua preocupação, também, em posicionar a câmera de forma que esta colabore com a história que está sendo contada e o clima por conseguinte. Em outras palavras, ele não quer apenas segurar a atenção do espectador e fulminar qualquer possibilidade de fadiga, pois tem consciência de que a linguagem deve servir à narrativa. E é igualmente admirável o fato de que ele não soa repetitivo, como se reutilizasse planos por falta de opção.

Também editado por ele, Cortés faz um ótimo trabalho nesse sentido. Com apenas um personagem alocado em um único ambiente – e este, ainda por cima, extremamente limitado -, os cortes são realizados numa precisão invejável, deixando a continuidade das sequências fluírem perfeitamente. E o mesmo pode ser dito da fotografia de Eduard Grau, que muito faz com o pouco que tem em mãos: as fontes de iluminação dentro daquele “universo” (digamos, o universo dramático, já que um caixão não caberia muito bem nesse termo, enfim…) se restringem a um celular, um isqueiro e uma lanterna. E aí, mais uma vez, a linguagem do cinema toma forma, já que em diversos momentos somos jogados na escuridão total, o que corrobora para a crescente atmosfera de tensão e claustrofobia.

Por fim, o roteiro escrito por Chris Sparling (também um novato na função, praticamente) merece aplausos por explorar por completo a situação, conseguindo, até mesmo, inserir uma maior dinâmica e ainda momentos de humor (são mais risos nervosos) que soam coerentes. E se num filme como tal a verve nervosa resvala no realismo pungente, a abertura cria uma pompa requintada a Enterrado Vivo que contrasta apenas com seu final. Súbito e surpreendente, a conclusão pode enervar alguns, mas é indiscutível a sua audácia em não abraçar as convenções de um gênero. E dessa maneira, o que poderia soar como mero exibicionismo ou tentativa furada revela-se um exercício de linguagem aprimorado e executado em prol do bom cinema.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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