dez 052010
 

Num dado momento de A Rede Social, um personagem conversa com o protaganista Mark Zuckerberg logo após uma palestra e cita uma colocação do palestrante de que uma pessoa ali na plateia seria o próximo Bill Gates sem saber que o próprio criador da Microsoft ministrava o discurso por uma hora. Mas quem é Bill Gates? Sim, você definitivamente já ouviu falar dele. Mas se você o visse numa entrevista ou foto de jornal, ou mesmo pessoalmente, conseguiria reconhecê-lo? Fala-se muito sobre ele, mas pouco se vê – tudo bem, ele é “o” cara. Mas a partir desta singela sequência é possível traçar um panorama contundente que define uma das principais ideias do novo filme do diretor David Fincher: a fragmentação do indivíduo moderno por meio da internet, mais especificamente as redes social – de forma ainda mais específica, o Facebook e suas proles. Algo que definiu e vem definindo – infelizmente – a vida social de muitos jovens de hoje: a verborragia virtual se sobrepôs ao tátil. E por isso entende-se como a relação pessoal, vivência física, o contato com o outro, a experiência interpessoal tão imprescindível para o crescimento do ser humano que se diluiu pelos computadores.

Tendo como base o livro The Accidental Billionaires escrito por Ben Mezrich, o filme se propõe a contar o surgimento da rede social Facebook, criada em 2003 e hoje com valor estimado em 25 bilhões de dólares. Muito já foi dito das controvérsias existentes no que de fato aconteceu e o que de fato está no filme. Percebe? São duas coisas distintas: a realidade dos acontecimentos vivenciados pelas pessoas reais desta história, e o que foi colocado dentro de um longa-metragem (ficção) e possivelmente (repito: possivelmente) deturpado em prol da dramaturgia. De verdade? Isso pouco interessa, e não deveria interessar ao espectador mais perspicaz (quer ver uma abordagem incontestável do que realmente aconteceu acerca de um determinado fato, ainda que essa fidelidade seja algo ardiloso de se obter? Há outros meios próprios para isso. Ao menos não tome como base concreta e única um filme que, antes de qualquer coisa, possui intenções anteriores à relatação fidedigna propriamente dita. Enfim…).

A Rede Social é, sim, o filme mais sóbrio de David Fincher, conforme andam dizendo. O diretor que disse jamais se repetir num filme traz uma aproximação até mesmo tímida, digamos assim, do roteiro escrito por Aaron Sorkin – principalmente se levarmos em consideração obras como Seven, Clube da Luta, Quarto do Pânico e Zodíaco. O seu trabalho, aqui, resume-se em dar total e completo espaço para o texto fluir de maneira natural no decorrer da projeção – ainda que aqui ou ali ele não se contenha e faça sua câmera desnecessariamente, ainda que de um jeito quase imperceptível, atravessar paredes e janelas; fora que o ator Armie Hammer interpreta irmãos gêmeos graças a uma reprodução computadorizada excepcional. E por isso mesmo é curioso observar que este longa praticamente suplica por uma condução mais audaciosa (mais “Fincher”, vamos dizer), já que o roteiro é um convencional novelo judicial atirado de um lado para o outro dentro de uma narrativa não-linear. Está tudo muito bem amarrado e a história avança sem pesar nos olhos do espectador (são duas horas que passam sem maiores problemas), mas e daí?

Se Mark foi ou não o criador do Facebook é uma constatação indiferente. E o que realmente deveria emergir enquanto cerne dramático do filme acaba se perdendo num falatório que pouco acrescenta e mais faz é sufocar outro fato, este sim incontestável: o de que a juventude atual está perdida neste mar de relações tão frias quanto um monitor exposto pelo ar-condicionado de um quarto onde o indivíduo, através dessas redes sociais, cada vez mais encontra amparo para suas deficiências sociais. E no final das contas, conforme dito acima, apesar de ser uma das principais ideias trabalhadas pelo filme, esta tem um espaço insignificante perto da insignificância de todo este processo jurídico pelos quais passam os personagens. E assim, A Rede Social não tem a devida gravidade e passa batido, como um “amigo” que temos ou deixamos de ter com um simples clicar do mouse.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose




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