nov 072010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

No que diz respeito aos seus filmes, Todd Phillips transparece uma formação de vanguarda, com odores setentistas – oldschool, se preferir. Não foi à toa que ele comandou a refilmagem de Starsky & Hutch: suas comédias remetem a um anarquismo amoral típico daquela época (quando Steve Martin ainda possuía colhões), sem apelar para piadas de peidos, tetas e bundas – ao menos não gratuitamente. Pode soar estranho dizer tal coisa, mas essas piadas surgem intrínsecas ao caráter de seus personagens. É o caso da masturbação, aqui, em Um Parto de Viagem, que surge como uma forma cômica de mostrar a solidão de Ethan Tremblay (Zach Galifianakis) – a “transgressão”, digamos assim, vem com Sony, seu cachorro, mas isso já é outra coisa.

Dito isso, que fique claro: Um Parto de Viagem é um filme sobre personagens. Escrito pelo diretor ao lado Alan R. Cohen, Alan Freedland e Adam Sztykiel (os dois primeiros, responsáveis por alguns episódios da série O Rei do Pedaço, e o segundo, pelo esquecível O Melhor Amigo da Noiva), o roteiro traça um road movie (filme que se passa quase que inteiramente na estrada) sobre dois caras de personalidades distintas que são obrigados a conviverem juntos por alguns dias. É a típica história de duas forças completamente opostas forçadas a se confrontarem por via das circunstâncias, e que ao longo do caminho aprendem um pouco sobre o outro. O que inicialmente era ódio, asco, torna-se uma relação mais afetiva (você pensava que seria de outra maneira?). Aliás, a situação que engancha o “confinamento” de ambos dentro de um carro soa forçada, como mera desculpa, apesar de coerente diante o medo de terrorismo dos americanos. Mas, novamente, isso é outra coisa.

O personagem vivido por Robert Downey Jr., Peter Highman, é o americano que caminha sobre a linha, possui um bom emprego, uma casa, um carro, um blackberry (espécie de celular-faz-tudo), cartões de crédito e está esperando seu primeiro filho para, assim, constituir uma família com os padrões do american dream. Sempre prestes a explodir quando qualquer situação lhe afronta, Peter não pensa duas vezes antes de acalmar um pirralho com uma direita no estômago – é a comédia em prol da história, dos personagens, como dito no início do texto. Ethan, por outro lado, é um ator a caminho de Hollywood. Sempre ao lado do seu cachorro, ele é dono de uma personalidade ingênua e pueril, como se uma criança estivesse presa em seu corpo. Rindo descontraidamente em momentos inapropriados e falando casualmente sobre os mais estapafúrdios assuntos, Ethan é uma pessoa solitária (a masturbação, e, mais uma vez, o riso a favor da construção de personagens) que vaga aparentemente em busca de algo a mais na vida, com as cinzas de seu pai numa lata de café.

Um roteiro como tal só poderia se sobressair com uma ótima direção. Infelizmente, Todd Phillips, que dirigiu o maravilhoso Se Beber, Não Case, não consegue extrair momentos mágicos do texto. Com exceção de uma única sequência absurdamente hilária envolvendo a canção Hey You, do Pink Floyd, o restante do filme transcorre por uma rodovia plana e sem grandes desvios. Quando pega o atalho para o drama, o desenvolvimento dos personagens e as situações, Phillips não sai da superfície – me lembrou Judd Apatow tentando nos fazer chorar com o vergonhoso Tá Rindo do Quê?. Simplesmente não funciona, da mesma maneira como não funcionam as participações especiais de Danny McBride, Juliette Lewis, Jamie Foxx e do rapper RZA. E no final das contas, apesar de divertido e honesto em sua proposta de nos fazer – ou ao menos tentar – rir, Um Parto de Viagem revela-se um filme como outro qualquer. A diferença, infelizmente, é a de que a todo o momento ficamos numa expectativa frustrada de tais nomes envolvidos mostrarem a que vieram. Não acontece.

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