nov 282010
 

Os Estados Unidos da América são uma nação de faces simétricas e roupagens afetadas. Os rostos não precisam dizer ou fazer alguma coisa, apenas delinear sorrisos e ter um nariz de apoio para os óculos de sol, estampando expressões que ocultam o verdadeiro estado de espírito. Ao menos é assim na imagem geralmente construída em seus filmes de ação – ou no chamado “cinemão pipoca” (ainda que ligeiramente válida em alguns casos, essa expressão é pejorativa, pois o cinema também é feito de “pipocas”. Mas divago…). Os Outros Caras vem para desmascarar essa faceta. E nesse sentido, Os Outros Caras revela-se como uma espécie de Beleza Americana para policiais com uma veia cômica irritantemente sobressaltada.

Parceiros que combatem o crime com suas armas de fogo e espermatozóides, alçados à condição de heróis ainda que ninguém entenda o porquê – heroísmo é uma ferramenta indispensável no controle do medo populacional; a sociedade precisa de modelos exemplares para se espelhar, de modo que se sinta segura e confortável mesmo que não enxergue um palmo do que realmente acontece. Highsmith e Danson vividos por Samuel L. Jackson e Dwayne “The Rock” Johnson, respectivamente, são esses modelos. Invejados por toda a horda de colegas da comunidade policial, eles são “fodas”, pra dizer o português claro. E por isso não hesitam em se suicidarem diante o mais singelo sinal de que seu inimigo é superior, ou seja, diante o desfalecimento da imagem magnânima. Mas não de uma forma angustiante ou deprimente: “There goes my hero” diz a canção enquanto eles saltam do alto de um prédio de 20 andares com a mesma felicidade com que “repreendem” um usuário de drogas ao jogarem para cima dele um carro em chamas.

Infelizmente o roteiro escrito por Chris Henchy e Adam Mckay, este também ocupando o cargo de diretor, não tem seu foco no desenvolvimento pleno de tal ideia e se volta para o “cinemão pipoca” citado acima. E enquanto tal, Os Outros Caras, apesar de apresentar uma boa dinâmica entre a dupla de protagonistas vivida por Will Ferrell e Mark Wahlberg, é carente de inevidência ao montar piadas sobre uma base já fortemente cimentada e batida – os parceiros que se odeiam, a descrença de todos no potencial dos personagens principais, o sujeito desajeitado inserido numa situação de risco, a misteriosa atração de mulheres por alguém nada atrativo, fora tantas outras anedotas envolvendo sexo e verborragia sobre o inusitado em momentos impróprios (a luta entre leão e atum é o exemplo mais claro).

No que diz respeito às cenas de ação, além de nada inventivas, elas sofrem de uma montagem inadequada na busca de um dinamismo desenfreado que acaba por afetar a fluência dos acontecimentos, como se eles dessem pequenos pulos no tempo dentro da sequência – apesar de que é hilário quando as músicas Never Gonna Give You Up e Monday, Monday entram de forma inesperada, mesmo sendo uma piada que se repete ao longo do filme. Dito isso, é triste constatar o uso de um entretenimento escasso, que já pouco convence ou se propaga da maneira devida, em detrimento de uma boa premissa. E mesmo que tal idéia seja retomada no final… Bem, aí já é o final.

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

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