nov 212010
 

por Alexandre Carlomagno

alexyubari@yahoo.com.br / Twitter – @alexyubari / Facebook / Cinemorfose

As palavras que formam o título de um filme contemplam o quê em si? O Segredo dos Seus Olhos. O olhar, um gesto tão crucial para esta narrativa, está presente em toda parte e a cada momento, na mais singela das “vírgulas”, carrega uma cadência pungente de significados. Aliás, a própria narrativa pode ser traçada através dos olhares dispostos aqui. É ele (o olhar) quem evidencia suspeitos, indica caminhos e entrega desejos que gritam sufocados pelo silêncio. Silêncio este que é determinado por vias de uma existência ditada por convenções de uma sociedade que muito diz, balbucia, não demonstra clareza pela fala, mas sempre diz a verdade por meio dos olhos.

É o olhar de Juan José Campanella, diretor e co-escritor ao lado de Eduardo Sacheri (em seu primeiro trabalho como roteirista), que absorve os nossos olhares (dos espectadores) para dentro do filme. Seus planos são minuciosamente elaborados em conjunto com um trabalho técnico invejável que sempre caminha em prol da trama, ou seja, não são invencionices, mas sim, o uso de uma linguagem para fazer com que a história se sobressaia, seja estética ou, principalmente, dramaticamente – e quem me disser que o plano-sequência do estádio de futebol não é um exemplo vívido dessa perspicácia do diretor… bem, simplesmente não está enxergando bem.

Mas a maneira como Campanella deposita seus olhos sobre o roteiro transcende a mera ferramenta de narração. Há, como já dito, o não dito. Aquilo que fica nas entrelinhas e preenche uma lacuna oculta no caráter do personagem – de todos eles. Em outras palavras, é a plena confiança do diretor na platéia: a maneira como o tempo transcorre dentro da trama se dá pela nossa percepção, assim como os laços que unem essas pessoas só torna-se palpável com a profundidade do nosso olhar. E é justamente por confiar a nós o andamento da trama que o terceiro ato revela-se falho por suceder-se através de repetitivas – e desnecessárias – retomadas de diálogos e cenas que em momento algum, devido a beleza ímpar da obra, nos escaparam à memória. Porém, ainda assim, é um deslize ínfimo diante a magnitude de tal longa-metragem.

Num sentido pragmático, o segredo escondido pelo título, conforme apontado no início do texto, reside no fato de que O Segredo dos Seus Olhos, diferentemente do que muitos podem pensar, não é um suspense, policial ou mesmo se encaixa em qualquer estirpe de gênero cinematográfico – apesar de pender, sim, mais para um romance/drama à paisana. Não. O filme de Campanella é sobre um personagem, um ser humano, antes de qualquer coisa. É a história de Benjamín Esposito (Ricardo Darín), um homem cuja existência fomentou-se por caminhos tortuosos e incompletos; é a vida vista por olhos que muito viram, disseram, mas pouco vivenciaram, consumaram. É a sua história com Irene Hastings (Soledad Villamil).

E a partir daí Campanella consegue arrancar lágrimas de momentos que, à primeira vista, podem beirar a pieguice, como a sequência na estação de trem. Porém, se olharmos atentamente (levando em consideração que o longa lida com memórias e estas, como bem sabemos, podem ser falhas), a mesma sequência que se passa na estação não é nada mais do que a perspectiva restrita do protagonista sobre tal acontecimento. Assim sendo, vemos o que ele sentiu, e não apenas o que viu; em outras palavras, presenciamos uma sensação que se desenvolveu da forma como ele gostaria que tivesse sido, mas não necessariamente o que ocorreu de fato. E não é a toa que o acontecido é colocado em cheque momentos depois. (François Truffaut uma vez apontou algo interessante em A Tortura do Silêncio, de 1953, dirigido por Alfred Hitchcock: neste filme, em dado momento, somos levado a um flashback completamente meloso e que em nada lembra a narrativa de Hitchcock, porém, o mesmo se dá pela visão de uma personagem feminina, o que justifica todo o floreio e tom excessivamente romântico de tal sequência. A isso Truffaut chamou de “flashback mentiroso”. É o mesmo que ocorre aqui).

Para degustar O Segredo dos Seus Olhos da maneira como lhe é devida é necessário debruçar os olhares no âmago de emoções reais que existe e coexiste com diálogos muito bem escritos e um roteiro que, apesar do tom episódico no final, traz o mais puro deleite de como um verdadeiro cinema deve ser lapidado. Mais uma vez, nas palavras de François Truffaut: “A verdadeira obra-prima é aquela que anda de mãos dadas com seus defeitos.” E visto a porção mínima que aqui existe, esta em nada irrompe com a perfeição cinemática que salta aos olhos.

 Leave a Reply

(requerido)

(requerido)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>