out 122010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Muitas vezes uma continuação é concebida por meros propósitos lucrativos. No caso de Tropa de Elite 2, sua existência não apenas é coerente em relação ao primeiro filme como ambos se complementam perfeitamente – fora que a arrecadação de bilheteria também ajudou, obviamente. Porém, ao contrário de sequências que visam o retorno financeiro, aqui, é o roteiro que explicita um ímpeto genuíno em contar uma história em níveis qualitativos elevados e ainda com uma relevância social pungente e imprescindível para um país como o nosso.

E o diretor Jose Padilha, que volta ao comando do longa, não se ludibria com a oportunidade de lapidar melhor seu filme – digo isso em termos técnicos. Seus planos são trabalhados juntos à trama com a intenção de melhor enxergá-la, e isso sem deixar de lado sua verve documentarista que, mais uma vez, é muito bem-vinda. Tome como exemplo o momento em que Nascimento (novamente dominado com maestria por Wagner Moura) entra em seu apartamento: utilizando o mesmo plano que no filme anterior, Padilha consegue, de forma simples e direta, denotar a solidão que cerca o protagonista. E as sequências de ação, apesar de aparecerem em menor quantidade, possuem um maior impacto, como a que abre o filme e posteriormente é retomada.

No entanto, como – felizmente – acontece mais uma vez, é o roteiro escrito por José Padilha e Bráulio Mantovani que acrescenta um quê a mais num filme como tal. Extremamente exausto, exercendo funções dentro de uma força centrífuga de ações que parece impedir com que ele se mova diante seus objetivos pessoais, o personagem de Wagner Moura atravessa o longa como uma força instável que pode extrapolar a qualquer momento. É tangível o peso que ele carrega em suas costas, e a nossa angústia cresce gradativamente ao lado do seu desespero, culminando, aliás, numa cena que desde já é antológica: o espancamento de um governador – cena esta que deveria ser aplaudida de pé a cada exibição, já que, independente de qualquer valor moralmente correto ou não, é catártica de inúmeras maneiras.

E como não podia deixar de ser, as mazelas e discrepâncias sociais são corretamente expostas mais uma vez. Porém, o interessante aqui, é que o outrora capitão e, hoje, novo subsecretário de segurança Nascimento (ele “caiu pra cima”, como bem diz em determinado momento) agora está dentro do sistema para o qual ele prestava serviços. Assim, os questionamentos de Padilha e Mantovani ganham um peso e uma relevância ainda maiores – e é o magnífico plano aéreo sobre o Planalto Central que sintetiza de forma contundente tudo isso. Além do mais, a estrutura narrativa está mais bem delineada, e o equilíbrio entre drama, comédia (sim, mas são risos nervosos) e filme-denúncia encontra-se orgânica a ela, nunca surgindo óbvia ou gratuita.

Inteligentemente, o roteiro não busca respostas, mas perguntas. Com isso, Tropa de Elite 2 foge de seus atributos comerciais. Apesar de existirem, eles fazem parte de um sistema usado para cravar questionamentos cáusticos numa ferida aberta que poucos tomam ciência e que muito dificilmente será cicatrizada.

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