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O imigrante e o trem de ferro

Jardim de verão

Francisco Rodrigues dos Santos Bonfim nasceu na cidade do Porto, em Portugal, no dia 8 de maio de 1849. Imigrou para o Brasil ainda jovem, instalando-se na cidade de Rezende, RJ, onde atuava como pequeno comerciante. Posteriormente, em 1974, veio para São Simão, na região de Ribeirão Preto. Em 1886 fixou-se em Cravinhos, onde foi responsável pela construção do Cemitério Municipal, da Igreja Matriz e de diversas casas que deram origem à Rua Bonfim, entre outras benfeitorias. Junto com Luiz Pereira Barreto, fundador de Cravinhos, é uma das figuras mais importantes da história da cidade.

No início da década de 1890, Bonfim era proprietário de diversas fazendas na região dos municípios de São Simão, Cravinhos e Ribeirão Preto. O cultivo do café era o principal motor da economia na região, e o trem era a melhor alternativa para o transporte do produto para o resto do país e para os portos, de onde seguia para exportação. O crescimento da produção, no entanto, exigia cada vez mais a expansão e o aprimoramento das linhas férreas. Em 1872 foi criada a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, com sede na cidade de Campinas, onde foi construída a primeira locomotiva fabricada na América do Sul. A empresa era a principal responsável pela malha ferroviária do interior paulista e parte de Minas Gerais na segunda metade do século XIX, e chegou a contar com mais de 2000 km de linhas até 1971, quando foi incorporada à Fepasa (Ferrovia Paulista SA).

Os nomes do vilarejo

Em 1882 os trilhos da Companhia Mogiana chegaram a Cravinhos. No ano seguinte foi vez de Ribeirão Preto, onde também foram construídas uma estação e uma oficina para conserto de maquinário. Ao sul da cidade, um vilarejo próximo ao entroncamento dos trilhos passou a ser chamado de Chave do Viaduto, ou simplesmente Viaduto. Alguns registros históricos contam que aquele vilarejo havia surgido no começo da década de 1880, com a expansão do café. Outras referências, no entanto, situam sua criação na década de 1850, após a divisão das terras das fazendas Rio Pardo e Retiro (do Ribeirão Preto Acima). Conta-se também que até a chegada das linhas de ferro, o local era chamado de Freguesia. Este é um termo comum para distinguir povoados próximos a centros urbanos (como a Freguesia do Ó, na cidade de São Paulo), mas não há registros de que o local algum dia tenha recebido essa denominação.

Entusiasta da tecnologia das linhas de ferro, Francisco Bonfim doou ½ alqueire de suas propriedades no vilarejo do Viaduto para a Cia. Mogiana. Ali foi construída uma nova estação ferroviária, para “aliviar a afluência das duas estações próximas, Cravinhos e Ribeirão Preto”, segundo um relatório da companhia de 1891. Na mesma época, Bonfim requereu a divisão judicial das terras locais, e por este fato é considerado o fundador oficial do povoado, que recebeu o nome de Villa Bonfim em homenagem ao coronel. Bonfim também doou cerca de 10 mil metros quadrados para a construção da Capela do Senhor Bom Jesus do Bonfim, inaugurada em 1894. O desenvolvimento do pequeno povoado alçou-o à condição de Distrito Municipal três anos depois, com direito a impostos prediais, iluminação pública, criação da Paróquia e do Cemitério Municipal (em um alqueire de terra doado também pelo coronel Bonfim) e a implementação do Distrito de Paz (o Distrito Policial já existia desde 1895) e do Cartório de Registro Civil e Anexos, ambos em 1902.

O distrito viveu uma nova série de mudanças nominais em meados do século XX. A primeira delas em 1938, quando um decreto estadual reduziu o nome de Villa Bonfim para Bonfim. Em 1944, outro decreto Estadual rebatizou o distrito como Gaturamo, em homenagem a uma ave colorida da fauna local. Esta também era uma denominação comum ao povoado desde os tempos da chegada da estrada de ferro, antes da oficialização como Villa Bonfim, em 1893. E foi a memória do ilustre coronel que fez com que o novo nome não “pegasse”, até que em 1953 o distrito recebeu a nomeação oficial de Bonfim Paulista.

Crime em Cravinhos

O cenário da região de Ribeirão Preto naquele final do século XIX era dominado pela figura dos coronéis, os grandes proprietários de terra locais. Quinzinho da Cunha, Francisco Schmidt, Luís Pereira Barreto, o próprio Francisco Bonfim, entre outros. Estes homens ricos, detentores de status social e poder político, tinham grande responsabilidade em manter a ordem civil e garantir o cumprimento das leis, mesmo que fosse ao seu modo. Às vezes mesmo os mais benfeitores coronéis tinham que recorrer a alguém disposto a fazer o “serviço sujo” que fosse necessário. Um destas era um pistoleiro chamado Dioguinho, que fazia favores a diversos coronéis dos arredores da Villa Bonfim. Mas após ter matado um viajante próximo a São Simão, passou a ser procurado e ainda tentou extorquir o coronel Bonfim. Uma escolta policial de São Paulo veio em seu encalço e quase o capturou, em uma perseguição que custou a vida do irmão do pistoleiro. Dioguinho conseguiu fugir e posteriormente foi dado como morto.

Pouco tempo depois, Francisco Bonfim passeava no trole em Cravinhos quando foi atingido por um tiro. O coronel não resistiu ao ferimento e faleceu naquele dia 02 de junho de 1898. O crime foi posteriormente atribuído a Dioguinho, fato que nunca pode ser provado pelo fato do pistoleiro continuar desaparecido. Um dos filhos do coronel, José Félix Bonfim, deu uma entrevista ao Jornal A Cidade durante a década de 1950, na qual conta sobre a fuga dos dois irmãos. Lembra-se também de várias histórias pitorescas daquele tempo, quando os moradores tinham que passar sabão nos trilhos para a Maria Fumaça subir o morro de Cravinhos, e a vida social era agitada pelas festanças promovidas pelos coronéis na pequena Villa Bonfim. E sustenta a hipótese de que o pai foi morto por vingança pela suposta morte do pistoleiro, que era homem de confiança de muita gente importante.

As crianças do coronel

Vista de quem chega.

No inventário de Francisco Bonfim consta que ele deixou apenas quatro filhos: Simeão, Urbano, Domingos e Valeriana. No entanto, era dito que o coronel era homem de vários amores, fato que gerou uma descendência um tanto maior do que a oficial – onze filhos conhecidos, entre eles José Félix Bonfim. Hoje em dia, o busto do coronel é diariamente cercado de crianças. Ele se encontra no jardim Escola Estadual Francisco Bonfim, que ministra aulas do segundo ao quinto ano do ensino fundamental no bairro Ipiranga, em Ribeirão Preto.

A escola foi fundada em 1976, nas instalações de um antigo colégio técnico, construído em terras doadas pela família Bonfim ao município. Uma página de jornal guardada na diretoria traz o registro de sua inauguração, contando com a presença do filho José Antônio Bonfim para tirar o pano que cobria o busto. Este encontrava-se originalmente na primeira diretoria, que posteriormente tornou-se a biblioteca e depois “apenas uma sala de materiais, que ninguém entrava”, segundo a diretora Jane Favaretto. Foi transferido para o jardim na ocasião das comemorações dos 30 anos da escola, em 2006, e recebeu uma pintura por conta das más condições em que se encontrava. A pintura protegeu e melhorou o aspecto do monumento, mas está descascando. Além disso, é considerada inadequada porque impede a verificação da origem do mármore da escultura. Sequer há uma placa de identificação no monumento, vislumbrado todos os dias por centenas de crianças que certamente dedicam ao homenageado uma atenção bem maior do que a de qualquer adulto.

Fontes

Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto- www.arquivopublico.ribeiraopreto.sp.gov.br

Bonfim Paulista (não oficial) – www.bonfimpaulista.com.br

Cravinhos Online – www.cravinhosonline.blogspot.com

Estações Ferroviárias do Brasil – www.estacoesferroviarias.com.br

História e Imagens da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro – www.cmef.com.br

  One Response to “História Parada – Francisco Bonfim”

  1. ja estudei nessa escola a melhor escola q eu ja estudei

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