Os Profiçççionais

 Posted by at 10:16 am  Colóquio
ago 022010
 

Os Profiçççionais

Colóquio com o grupo circense “Os Profiççionais”. Formado por André Luiz Cunha dos Santos , Cinthia Ramos Vendruscolo, João Márcio Marcílio e Rafael Nilton Rodrigues. Artistas por natureza, vocação, profissão e alma. A profundidade desta arte dividida em duas partes. A primeira, um batepapo com os artistas. O trabalho, o grupo, a formação e a história do quarteto. Na segunda, a vez dos personagens.

André, Cinthia, Rafael e João

Parte 1

Leonildo – Quando alguém pergunta a profissão de vocês, o que vocês respondem?

João – Somos artistas de circo.

André – Circenses!

Leonildo – E o que é ser palhaço pra vocês, na visão do cidadão, não do artista?

João – Ser palhaço é o nosso ganha pão, a nossa profissão de cada dia…

Cinthia– Não Pedro, ele perguntou como cidadão!

João - Mas foi o que eu disse!

Leonildo – É, então, na visão de vocês como cidadãos…

Cinthia – Ah, mas no final das contas…

André – Ê Maria, vai ficar atravessando mesmo, hein atravessadora? Daqui a pouco você já fala, viu enxerida? Vai gostar de aparecer assim lá longe… (risos)

João – Então, na minha visão, ser palhaço é isso. É o trabalho de cada dia, o nosso ganha pão. E a gente sabe distinguir o pessoal do profissional. Somos palhaços de verdade, de carteirinha e tudo mais.

André – Na verdade fica até difícil às vezes separar o personagem. A gente gosta tanto de fazer isso que qualquer deixa, qualquer piada que a gente pega, a gente perde o amigo mas não perde a piada.

João – Literalmente!

Leonildo – Já perderam muitos amigos para não perder a piada?

André – Ah, de vez em quando uns caras ficam meio bravos… (risos)

João – O pessoal ali de baixo (no Centro), de vez em quando a gente zoa muito, aí eles ficam bravos…

André – Na verdade eu tenho até um certo receio com essa idéia de “palhaço”, porque normalmente você vai nos lugares, festa de família por exemplo, todo mundo já fica esperando daquele cara assim, “ô, faz uma palhaçada aí!” E eles não conseguem entender esse outro lado, que realmente eu não estou no personagem ali, naquele momento. Estou ali normal, e todo mundo fica pedindo, e fica uma coisa até meio chata. Que todo mundo acha que o cara que tem o palhaço como sua profissão tem que ficar fazendo palhaçada toda hora. E não é por aí, a gente tem que procurar saber e diferenciar, entendeu? Tomo muito cuidado, deixo bem claro. E não faço palhaçadas digamos, que eu uso no meu trabalho, em qualquer situação. Então tento separar a idéia do palhaço, que é a minha profissão, com a idéia de fazer piadas. Acho que as piadas acontecem normais, pelo fato da gente gostar mesmo de tirar sarro de muitas coisas. Mas a profissão de palhaço é algo que eu gosto de deixar bem de lado em situações assim.

Cinthia – É porque tem uma diferença entre o humorista, o comediante, o cômico e o palhaço.

“O palhaço é uma extensão de nós mesmos, é um personagem permanente (…)

É você, com os seus exageros, com as suas limitações, com tudo que há de mais grotesco,

e você vai expor isso, que é o contrário do que a gente faz no dia a dia.”

André – A gente consegue distinguir bem assim. O João, por exemplo…

João – Eu sou um comicozinho…

André – Eu sou comicozão…

Rafa – Eu sou só um cômico.

Cinthia – Eu sou comediante mesmo (risos). Mas é isso, o palhaço é uma extensão de nós mesmos, é um personagem permanente. Não é como na novela, que você vai construir lá o senhor de engenho, ou você vai construir a vilã ou o bandido. Não, ele é você, com os seus exageros, com as suas limitações, com tudo que há de mais grotesco, e você vai expor isso, que é o contrário do que a gente faz no dia a dia.

André – A gente tenta manter aquela aparência assim, séria…

Cinthia – Sim, são aquelas banalidades todas, as regras sociais. A gente tenta se adequar a elas, e o palhaço não, ele vai quebrar essas regras interpessoais cobradas pela sociedade.

Leonildo – Vocês três (Cinthia, João, Rafa) tem essa mesma diferenciação dele (André), ou vocês são mais livres entre a profissão e o pessoal? Porque pelo visto ele é assim, hora de ser o artista é hora de ser o artista, hora de estar relaxado é outra coisa… Ou vocês preferem uma coisa mais livre?

João – Todo mundo é bem assim. O André é uma parte que acaba pegando muito no nosso pé em relação a isso, que às vezes a gente brinca até em horas que não se deve, e ele é o que puxa a orelha e tal. Mas a gente tenta ser assim, de fato separar o pessoal do profissional. Às vezes a gente chega e, como ele mesmo disse, a pessoa fala “ah, faz uma palhaçada aí”, e não é bem por aí, literalmente não é assim que funciona, tem que por a sua máscara. Nós quatro aqui usamos máscara de palhaço, gostamos dessa característica. Quando a gente coloca a nossa máscara, a gente se transforma no Tiba (João), no Ching Ling (Rafael), na Piolinha (Cinthia), no Manteiguinha (André)…

André – E não é tão simples assim como as pessoas pensam, “faça uma palhaçada!” Eu acho que o palhaço é muito exemplo, quer dizer, ele pode ser muitas coisas, e uma delas é ser um exemplo. Não é que simplesmente “passa” (quando se tira a máscara). Porque por mais que o palhaço tenha o jeitão de que as coisas acontecem inesperadamente com ele e ele acha uma maneira de resolver, a mais bizarra possível, ele também tem plena consciência de tudo que está fazendo.

João – É um pouco daquilo que todo mundo gostaria de ser, mas não tem coragem de colocar pra fora. É extremamente público, como a Cinthia falou. Ela mesma tem medo de altura, e quando a gente está fazendo os nossos trabalhos, ela expressa escancaradamente esse medo de altura, e fica muito engraçado, muito legal. Cada um tem a sua característica própria.

Cinthia – Mesmo porque quando você está de palhaço, fazendo as palhaçadas e tudo, a sua energia tem que ser diferente do público. E quando você está normal, sem a máscara, sem o nariz, sem essa preparação para entrar em cena, você está de igual pra igual. Então dar um arroto e fazer a bobeira que a gente estava fazendo, qualquer um pode fazer (André – Atchim! Opa… – risos). Mas tem todo um preparo para entrar em cena, para você se distinguir esteticamente de quem está te vendo. Então eu acho que todos nós fazemos a distinção do personagem e da gente mesmo.

Marcelo – Vocês são artistas de circo, como vocês se definiram, e o palhaço é um dos personagens. Talvez seja o principal, o mais antigo, não sei. Nesse caso, o artista leva quanto tempo para se formar? Ou o artista de circo é um estado de espírito?

João – O artista de circo acho que nunca vai estar pronto, é uma formação constante. Você sempre vai querer buscar o “mais”. Sempre vai querer, sei lá, se você joga três pratos, vai querer jogar quatro, jogar cinco, seis, sete, querer sempre superar, a vida toda.

André - Eu comparo muito com a questão do atleta, sabe, de natação, de corrida. Porque os caras treinam um determinado tempo e vai lá expor aquilo, tentar quebrar o seu recorde. O artista de circo faz isso todo dia, ele tenta quebrar o seu recorde todo dia, igual ao velocista, ao nadador, que está sempre em busca de algo mais. Se ele fez cem metros em sete segundos, daqui a quatro anos ele vai querer fazer em cinco. É igual o João falou, se ele joga três pratos, vai querer jogar quatro, vai querer jogar cinco, se ele faz um mortal, vai querer fazer um duplo, um triplo. Então é essa busca constantemente.

Cinthia – E com relação ao palhaço, voltando naquilo que eu disse que essa personagem é uma extensão de nós, o palhaço primeiro precisa se autoconhecer. E esse processo é durante toda a vida, nenhum ser humano se conhece plenamente, “ai, agora eu me conheço!” (risos) A gente sempre passa por situações que vão ser parecidas, mas sempre vão ser de formas diferentes, então nunca vamos lidar da mesma forma com as mesmas situações, o contexto vai ser outro, enfim. Então o palhaço também segue essa mesma linha, tanto que os melhores palhaços são os palhaços já de sessenta, setenta anos. Não tem nem comparação com os palhaços que estão começando agora, mesmo os que são de famílias tradicionais circenses, que o filho já se inicia na profissão tendo a orientação do pai. Porque ele necessita de experiência de vida mesmo.

Marcelo – O palhaço é como vinho?

André – Como?

Marcelo – O palhaço é o vinho do circo, quanto mais velho melhor?

André – Então… Da mesma forma que existe muita gente que está começando agora e que você olha e fala “caramba, é muito bom esse garoto que está começando” então ele (o palhaço mais velho) acaba sendo na verdade um estímulo, eu não diria assim “o melhor”, mas o estímulo. É a experiência, quanto mais experiência…

Leonildo – Um parâmetro?

André – Na verdade, quanto mais você faz, melhor você vai ficar. Então da mesma forma que tem o “tiozão” que é bom… Mas assim, eu não admito que os melhores palhaços são aqueles que são os mais velhos, mas a carga que eles carregam, a bagagem que eles tem, são muitas experiências… Mas tem muito palhaço novo aí que você fala “nossa, esse palhaço é muito bom!” Então comparar que é o melhor e o pior, né… Mas pegando a idéia que você falou, de quando o artista circense está pronto, é engraçado que ele nunca está pronto, pegando também a idéia que o João falou. Porque cada dia é uma experiência nova, ele entra no picadeiro, tanto o palhaço quanto o artista, quanto os outros…

Leonildo – Vocês aqui exercem várias atividades artísticas?

André – Vários tipos de atividades. E tanto o para o palhaço quanto para os outros personagens do circo, cada dia é uma surpresa, não é o mesmo público, às vezes o cara não está bem, então ele nunca está pronto. Ele está em fase de processo, de aprendizagem sempre, sempre.

“Por mais que o palhaço tenha o jeitão de que as coisas acontecem inesperadamente com ele

e ele acha uma maneira de resolver, a mais bizarra possível,

ele também tem plena consciência de tudo que está fazendo.”

Marcelo – Mas dá para se aprender então, não é só um estado de espírito, só vocacional…

André – Sim, e que é o nosso caso. A gente não vem de nenhuma tradição de circo, por exemplo, a gente não é tradicional. E por estímulo de outras pessoas, por estar em contato com outras pessoas de circo, isso fez a gente querer levar como profissão. Começamos como uma brincadeira. Eu particularmente comecei com uma experiência no Circo Escola, daqui de Ribeirão, e isso me transformou! Fez eu ver o meu lado vocacional pra arte, mas não que eu já nasci com isso. Eu até acredito nessa ideia do dom, mas também acredito na possibilidade da “criação“ de alguém, sabe, de se formar um artista sim.

Marcelo – De onde vocês vieram? Se cada um puder falar, quem vocês eram antes de serem artistas de circo…

João – É bem engraçado que cada um vem de uma profissão completamente diferente, até virou piada. Tem um aqui que era lavador de peça, o outro era mototaxista, foi a última profissão dele, e um dos meninos trabalhava numa “casa de luzes baixas” (risos). É, uma casa onde as moças ganham a vida, esse rapaz trabalhava numa casa assim.

André – E era porteiro.

João – E era porteiro… (risos) mas e você (vira-se par Cinthia), porque você está quieta?

Cinthia – (risos) É que eu sou nova no grupo, né. Acabei de passar pelo período de treino, de três meses. Mas eu era atleta de ginástica, eu treinava com a Regina Cavalcanti na Cava do Bosque aqui de Ribeirão. E aí eu fui fazer faculdade de Educação Física, fui para outra cidade, para Presidente Prudente. E lá, durante a faculdade – não exatamente lá dentro – eu conheci uma trupe de circo e de teatro de rua, e um dos meninos do grupo participava do mesmo grupo de pesquisa que eu na faculdade. Eu comecei a me envolver com eles, trocar ideias , me aproximar do resto da trupe. E comecei a me aproximar mesmo, a fazer os exercícios acrobáticos e tal. Eu já tinha força para subir, comecei a desenvolver isso bem rapidamente, e aí o palhaço foi vindo, foi conseqüência. A gente montou um outro grupo, e na verdade foi na cara a tapa mesmo, na cara de pau, sem nenhuma preparação, nenhuma… Estudo sempre tem, porque você lê um pouco, você vê outra as peças, só da experiência dos seus companheiros já é uma forma de estudo. Mas foi assim, não foi com o Circo Escola como o André, por exemplo. Já comecei na ativa.

Marcelo – Hoje alguém de vocês tem alguma outra profissão além de ser artista de circo?

André – Hum, não. Eu dou aula de circo em um projeto social em Sertãozinho, mas atualmente é só isso mesmo.

João – Ano passado eu e o André, que me dava aula de circo, conversamos para que a gente pudesse viver somente do grupo. Aí eu e ele saímos dos nossos trabalhos. O Rafa continuou, por enquanto ele ainda está dando aula, mas tem a questão de que se ele sai, não consegue viver só do grupo…

Will – Está dando para se manter?

João – A gente está começando agora. Começamos esse trabalho de viver apenas do grupo em janeiro. Então a gente está ainda correndo atrás, as coisas vão engrenando, a gente conseguiu ganhar um prêmio que está ajudando pra caramba na nossa bagagem profissional. Financeira não… (risos)

Cinthia - Não é um prêmio, é um projeto de fomento ao teatro do interior. Então a gente não ganha dinheiro nenhum, mas ganha a orientação de um diretor de São Paulo, que vem de quinze em quinze dias acompanhar o trabalho que a gente está fazendo. Então de certa forma dá prestígio, porque você está lá com seu nome, acho que sessenta por cento se inscreveram no Estado inteiro, e só trinta foram contemplados, e a gente está nesse meio. E é bacana porque é um projeto de sete, oito meses de duração.

André e João – Nove.

Cinthia – Nove meses! Já nasce, já (risos). Então começa em abril e vai até novembro (sic), e no final tem uma mostra em São Paulo. É o projeto Ademar Guerra. Então já dá mais visibilidade, dinheiro mesmo não tem. Mas se for ver é uma forma de investimento, porque se a gente estivesse pagando passagem, alimentação e hospedagem do diretor, do orientador – ele se chama Pedro Pires – a gente estaria gastando do mesmo jeito. E não, está saindo por conta do Estado (de SP).

Marcelo – “Os Profiçççionais” começaram como?

André – Todos nós viemos do Circo Escola, da Cidade do Circo. Menos o Rafa, ele chegou a fazer aula…

Rafa – Foi bem no início…

André – Eu e o João, a gente aprendeu tudo ali na Cidade do Circo. Fica na avenida Caramuru. O João, quando eu entrei, já fazia aula e já dava aula. Eu entrei para fazer aula, e logo em seguida eu conheci o Rafa, que  acabei também levando para lá, pra Cidade do Circo. E nisso, esse contato dos três fez com que a gente experimentasse um dia trabalhar juntos. Foi em Pitangueiras, em 2008. Fomos fazer um trabalho de palhaço, de malabares. Até então a gente só treinava junto, jogava conversa fora, tinha uma amizade bacana, mas não pensava em profissão. Aí um dia a gente se atreveu a pegar uma oportunidade de apresentação que o João conseguiu pra gente, e fomos os três apresentar lá. A gente saiu super entusiasmado com o resultado, achou bacana, e resolveu a partir dali criar um nome para o grupo e viver dele.

Leonildo – De onde veio a ideia para o nome “Os Profiçççionais”?

João – Nós começamos esse trabalho querendo escrever um texto que a gente pudesse trabalhar em cima. E esse texto fala das profissões, porque cada um de nós é de uma profissão diferente. E a gente foi escrevendo… Então a raiz de “Os Profiçççionais” veio disso. Quando a gente fez essa apresentação, não tinha nome ainda. Em janeiro de 2009 a gente foi se inscrever para um festival de circo em Belo Horizonte, “e aí, como vai ser o nosso nome?” E aí conversa, conversa, conversa, e saiu “Os Profissionais” Aí a gente se inscreveu, e na hora H lá pensou “putz, ‘profissionais’ é com dois esses, vamos fazer alguma coisa diferente, vamos colocar então duas cê cedilhas no lugar dos dois esses, mas nós somos três, vamos colocar então uma para cada um!” E aí ficou “Os Profiçççionais” (risos). E casou, foi muito bacana, a galera curtiu pra caramba.

André – E assim, é um nome que leva de certa forma uma grande responsabilidade, a gente tem bem consciência disso. Tudo que gente tenta fazer a gente tenta fazer da melhor maneira possível para dar jus ao nome. Senão fica meio “e aí, vocês não são os profissionais da coisa?”

Marcelo – E a família, como é que é o apoio com relação á escolha da profissão? Teve algum tipo de influência, tanto positiva quanto negativa?

João – Alguém quer começar? Então eu vou começar…

André - Já entregou, né… (risos)

João – É, o artista em si sofre um certo preconceito da comunidade. A galera acha que o artista é vagabundo, e eu senti isso na pele. Quando eu saí do meu último trabalho disse para minha mãe “mãe, estou parando com tudo para trabalhar com o circo”. E minha mãe sempre me apoiou, tudo que eu falasse pra minha mãe ela queria me apoiar. Mas outras pessoas, tanto da família quanto outras que se consideravam amigos, não reagiram desta forma. Eu ouvi da boca de pessoas que eu era vagabundo. E hoje eu consegui provar que não sou vagabundo, a gente rala muito, muito mesmo. A gente está num patamar bem bacana, conseguiu várias coisas, estamos num programa de televisão atualmente, um programa de competição. Então essas coisas, as pessoas gostam de ver isso, infelizmente as pessoas gostam de ver isso. O artista é aquele que fala na Globo, aquele que está no SBT, então é bom e é ruim. É bom porque a gente conseguiu mostrar pra eles que a gente é artista assim como qualquer outro, e ruim… Nem é tão ruim, porque a gente está fazendo uma divulgação do nosso nome, do nome do nosso grupo, enfim. Mas eu consegui tapar a boca dessas pessoas que me chamavam de vagabundo, provei que eu não sou vagabundo.

Leonildo – Chamaram na cara ou em indireta?

João – Na cara, “vagabundo!” fazendo esse trabalho, é vagabundo.

André – Eu sempre tive as minhas dúvidas se minha família me apoiava ou não. Mas no primeiro ano, no aniversário de um ano do grupo, eu vi que eles me apoiavam cem por cento, perdi totalmente as dúvidas. É que eu acho assim, é muito meu isso, eu tinha essas dúvidas por conta de tudo que o João falou, desses preconceitos que a gente sofre. Mas nossa, no aniversário de um ano minha família veio em peso me prestigiar, estas camisetas inclusive foram eles que fizeram. Então foi “nossa, eles estão comigo”, e isso pra mim foi bacana. (vira-se para Cinthia) pode falar, viu…

Cinthia – É que na verdade pra mim é F…, porque…

Rafa – Não pode falar F… (risos)

André – Ê, você é F… hein (risos)

João – Não pode falar F…, C…! E não pode falar C… também, não! (risos)

Cinthia – Não, é que tem muito preconceito. Eu estava fazendo faculdade, e aí “poxa, montei um grupo, estou fazendo serviço com o grupo aqui…” “Não, mas como assim?” “Mãe, é um grupo de circo e teatro de rua, está dando super certo, estou conseguindo me sustentar…” “Bacana…”, e nada mais. Foi a primeira vez que eu deixei totalmente de ligar para minha mãe e falar “mãe, dá para me mandar tanto de dinheiro, estou precisando…” Não, deixei de pedir dinheiro, vida de estudante, aquelas coisas. Pagava meu aluguel, pagava minhas contas, pagava tudo, mas mesmo assim, “até quando você vai continuar com esse negócio de teatro? Vem pra cá, olha, abriu concurso público aqui em Ribeirão!” “Mãe, não quero!” “Mas você não vai vir? Você tem que vir! Como, você não vai prestar?” Aí eu prestava, só para falar que prestei, né… (risos)

Leonildo – Por você ser atleta, não falaram “o que é isso, você deixou de ser atleta?”

Cinthia – Então, quando eu deixei de ser atleta, na verdade foi porque eu tive um problema no joelho. E aí eu fiz uma cirurgia, e aí foi que o médico falou “olha, não dá mais”. Então foi uma coisa concreta. E aí eu fui parar na faculdade, e consequentemente eu seria professora de Educação Física. Consequentemente eu prestaria um concurso, teria uma vida estável. Mas quando eu comecei a me envolver com teatro e com o circo, foi até hoje… porque aí eu voltei pra Ribeirão, depois de concluir a universidade, eu fiquei mais dois anos lá…

André – Chegou a se formar então…

Cinthia – Me formei em 2007, fiquei até o finalzinho de 2009, voltei agora, no início de 2010. E aí minha família ainda cobra concurso, ainda cobra várias coisas, não entende quando você fica no computador lendo edital, escrevendo projeto, é bem isso que o João falou, sabe. “Você não vai fazer nada hoje à tarde?” “Mãe, eu vou trabalhar para o grupo…” Não tem essa percepção ainda, de que o trabalho não é só ensaios, tem coisas da produção, tem que escrever, tem que fazer por onde acontecer.

Leonildo – Para eles então trabalho seria aquela coisa de vocês ficarem numa sala, numa baia… (risos)

Rafa – A minha família foi muito tranquila, porque meu pai sempre me apoiou, minha mãe de uma certa forma também. Eu sou formado em capoeira há uns 10 anos, e sempre me apoiaram. Assim, sempre pegaram muito no pé na questão do estudo, “tem que estudar, tem que estudar…” E eles tem razão de uma certa forma, quer dizer, o mínimo que você pode fazer é estudar. Mas nessa questão de grupo, de palhaço, eles sempre me apoiaram, nunca questionaram “ah, quando você vai parar com isso e vai criar vergonha na cara realmente?” Nunca ouvi isso, então sempre foi bem tranquilo.

Cinthia – Porque é assim, você ser um profissional autônomo, sem um patrão, as pessoas não entendem que tem que ter o dobro de responsabilidade, porque é você quem faz os seus horários. Então você trabalha de sábado e domingo, para também poder ter um lazer no momento em que quiser. Então tem os prós e os contras, mas a maioria das pessoas não compreende que essa responsabilidade é maior do que a da pessoa que chega no serviço sete horas, sai as seis da tarde, e de fim de semana descansa. A gente trabalha muito mais, só que de formas distintas, não tem um escritório, não tem uma empresa, mas a gente está ali.

André – Não tem carteira assinada, e a sociedade olha isso de uma forma… Sei lá, tem que seguir o padrão. Você daí da linha, sai do padrão, já te olham diferente, “e aí, o cara está trabalhando mesmo, como assim?” Com o circo é algo assim, “vocês fazem o que?” “Sou artista de circo.” “Hã?” “Sou artista de circo.” “Não, não entendi…” “Sou artista de circo!” “Ah, mas você trabalha em que circo?” “Não, eu não trabalho em um circo…” (risos)

Cinthia – Ou então “ah, eu faço teatro” “Nossa, que legal! Mas você trabalha em que?” (risos) “Então, eu sou atriz, sou circense.” “Bacana… mas você não trabalha em nada?” (risos)

André – “Vocês fazem aquele negócio de segurar o outro? Ah, que legal…”

Cinthia – “Mas deve ser tão divertido, né, divertido pra caramba!” (risos)

André – É, não tem a mínima noção, enfim. Mas também não é só isso não, tem pessoas que falam “nossa, eu admiro muito o trabalho…” Ontem mesmo eu fui fazer um trabalho, eu estava me trocando e veio um cara “poxa, admiro muito o que vocês fazem!” Veio parabenizar, entendeu? Dentro de muitos que não falam nada, mas quando você ouve pelo menos um te parabenizar pela sua criatividade, reconhece o que você está fazendo, é muito bacana.

Cinthia – A gente mantém esse padrão de vida, se for ver, por essas pessoas. Essas poucas pessoas compensam as muitas que criticam. Porque o sorriso delas quando a gente está no calçadão não tem dinheiro que paga. A satisfação que a gente tem…

André – Os “dois contos” que eles põem no chapéu então nem se fala… (risos)

Cinthia – Não, é sério, às vezes o mendigo está ali te vendo, e a única moeda que ele tem no bolso ele coloca no seu chapéu, sabe…

João – Eu me lembro de um dia que até no calçadão mesmo a gente fez a roda, colocamos o cone, e ali dançando junto com o cone, falando um monte de asneira… Aí passou uma moça, eu zoei com ela ainda, aquela que eu falei “Aleluia, irmão!” (risos) E ela riu e tal, apesar de eu estar só “enchendo o saco”… Então muitas pessoas prestigiam, até o mendigo, tem milhares…

André – Nesse projeto que eu dou aula em Sertãozinho, teve alguém que veio da prefeitura, eu não sei quem é essa pessoa, é uma pessoa “forte” por lá, que uma vez comentou que isso é coisa para vagabundo. O projeto existe lá faz cinco anos, já atendemos mais de novecentas crianças, e a gente escuta essas coisas ainda, “isso é coisa de vagabundo!”

Cinthia – E eles pagam por isso!

André – É, e querer entender o que acontece, como acontece, o porquê, ninguém vem…

Leonildo – É uma hipocrisia o que ela falou, de verdade. Então o cara dá dinheiro pra vagabundo? Então quer dizer que ele “apóia” o vagabundo?

André – Ah, mas por ele, já teria cortado, entendeu, se ele estivesse lá. O bom é que tem pessoas que tem o olhar mais amplo pra coisa…

Marcelo – Dentro de qualquer coisa que a gente faça, sempre tem alguma influência, alguma coisa que a gente se inspira, nem que seja um cachorro que a gente gostou um dia, quando era criança. Qual é a influência de cada um, aquela coisa que deu o norte para construir a personalidade de vocês?

André – Você fala no trabalho?

Marcelo – Também, como pessoa e no trabalho. Qual é a base para se falar “eu busco o que eu sou, o que eu gosto?”

André – Bem, na verdade eu sempre fui um cara que gosta de experimentar tudo. Sempre me infiltrei em atividades de esporte, sempre fui um moleque de brincar muito, de estar sempre em tudo mesmo, eu gosto. Já joguei vôlei, já joguei tênis de mesa, basquete, já andei de skate por seis anos, já fiz natação, sou formado em bartender, já trabalhei com equipamento de academia… Então eu sempre fui pesquisando, desde quando criança até agora, sempre fui de pesquisar. E agora eu parei em uma paixão que é o circo. Então eu digo que as minhas inspirações foram na verdade a minha vontade de querer sempre fazer coisas novas, essa foi a minha inspiração. E hoje, as minhas inspirações mesmo do circo foram os meus professores lá da Escola que eram palhaços. Eles tem um circo, além da Escola do Circo, e a minha inspiração veio dali, de ver eles atuarem e querer ser como eles.

Cinthia – Então, para mim também acho que não houve uma “personificação”. Eu desde criança sempre tive a vontade de sobreviver de uma coisa, não sabia o que, de que eu gostasse. Eu cheguei a falar para minha mãe que eu queria ser desenhista, sabe. E eu já pensei sobre isso…

André – Você, desenhista? Não sabe desenhar nem uma casinha! (risos por 20 segundos)

Cinthia – É, mas bate o lance das exigências, dos adultos e tal. Mas uma cena que eu tenho muito forte na minha cabeça foi quando comecei a me envolver com o pessoal lá de Presidente Prudente, do circo, até que a gente montou um grupo. E foi em uma manhã em que eu estava com um namorado meu, e aí eu virei pra ele e falei “putz, eu acho que eu estou vivendo do que eu gosto!” E eu me emocionei, porque foi o momento em que caiu a ficha, sabe? Eu falei “eu acho que consegui o que pensava quando era criança”. E agora, como o André disse, acho que atualmente a minha inspiração é esse grupo que comecei lá em Presidente Prudente, que é um grupo de teatro de rua, chama Rosa dos Ventos, e eu me inspiro muito neles em história de vida, concepção de arte, concepção política com relação à arte, e acho que é isso. Para mim não teve nenhuma figura, mas foi uma fixação.

André – É, eu falo assim porque eu não tive artistas na família…

João – (interrompendo) Você já falou! (risos)

André – é diferente quando você trabalha com artistas na família, fala “Pô, me inspiro no meu pai que é palhaço!”, mas na minha família não tinha artista…

Cinthia – É, nem na minha…

João – Eu fui conhecer a arte, eu tinha dezessete anos. Era um caipira, caipirão ao extremo mesmo, mas com dezessete anos eu conheci o teatro, conheci música, e a partir daí não parei mais. E quando conheci a arte,  tinha comigo no dia que eu queria viver daquilo. Conheci o teatro, conheci alguns grupos daqui de Ribeirão, comecei a fazer parte desses grupos… Nesse meio tempo descobri o palhaço, e gostei muito. Fui pesquisar, para aprender a fazer alguma coisa de circo, achei, e aprendi na época a andar de perna de pau e a jogar malabares. Logo em seguida fiz um ano de curso de teatro, misturei o teatro que havia feito com o pouco que sabia de circo, juntei e comecei a fazer aclimação de peça, a fazer estágio no circo, e veio fluindo as coisas de uma forma tão rápida que eu nem sei falar em que fonte me inspirei. Mas foi lá atrás, com dezessete anos, que conheci a arte e falei “eu quero viver disso”. E hoje tenho plena convicção disso, sem sombra de dúvida.

Rafa – Eu também sempre gostei muito de esportes, de pedalar, correr, tanto que comecei capoeira muito cedo, tinha nove anos, e sempre gostei muito de ginástica olímpica, uma coisa que sempre me interessou muito. E sempre tive vontade de fazer alguma coisa que me satisfizesse, não trabalhar em escritório ou coisa assim, mas uma coisa que mexesse com público… Comecei a capoeira e me identifiquei, foi legal, só que faltava alguma coisa ainda. Na mesma época que eu treinava capoeira, um amigo meu começou a fazer esse negócio de circo, começou a fazer alguns trabalhos, perna de pau, pirofagia, malabares, e eu comecei a fazer com ele também. Ele falava “vamos fazer comigo, você tem uma expressão corporal boa, tem um alongamento legal, vai desenvolver bem.” Logo em seguida fui para Santa Catarina, morar em Florianópolis. E lá, no final de semana tinha uma galera que ia para uma praça e treinava algumas coisas, e eu comecei a treinar com esse pessoal, que inclusive não era nem de lá, eram do Paraná. Eu falei “putz, é isso cara”, o circo é uma coisa que mexe com público, o palhaço, a questão do “aéreo” e tal… No começo gostei muito de tecido, mas depois já logo passou (risos), porque virou febre, igual a capim, o pessoal fala, todo lugar tem. E foi uma coisa que me firmou, eu realmente me encontrei. Era isso o que queria, que estava faltando para mim. Então a minha fonte de inspiração na verdade foi esse amigo meu, que através dele que fui conhecer o circo. Talvez se ele não tivesse aparecido na minha vida naquele momento, talvez eu nem tivesse conhecido… A minha fonte de inspiração foi ele. Depois eu conheci o Cirque du Solei, que eu nem sabia que existia, ele tinha alguns DVDs, e eu falei “nossa, é isso mesmo que eu quero”. Então estamos tentando né (risos), estamos aí.

“Você ser um profissional autônomo, sem um patrão,

as pessoas não entendem que tem que ter o dobro de responsabilidade,

porque é você quem faz os seus horários (…)

A gente trabalha muito mais, só que de formas distintas, não tem um escritório,

não tem uma empresa, mas a gente está ali.”

Marcelo – A curto, médio e longo prazo, qual são so projetos de “Os Profiçççionais”? Quais os anseios que vocês tem?

André – Bom , a gente tem ainda algumas coisas pendentes que a gente tem para cumprir. Por exemplo, eu faço faculdade de teatro, estou no segundo ano ainda, a Cinthia também, o João…

Rafa – O João dá aula pra trupe!

Cinthia – Imagina, o João é formado, pós graduado em “batatologia”.

Rafa – “Googlelogia” na Universidade de Boston… (risos)

André – O Rafa também está fazendo faculdade de Educação Física, então temos algumas pendências a fazer. Mas a expectativa é de quando a gente cumprir com essas tarefas, que a gente possa se dedicar mais ao grupo e seguir diversos experimentos. Se possível sair do Brasil, experimentar fazer “rua” fora do Brasil…

Cinthia – Na verdade antes de vir pra cá, hoje, a gente estava numa reunião dessas, e um dos itens da pauta era esse: o que cada um quer individualmente, e do que o grupo está necessitando. Porque a gente está num momento de transição. Como todo mundo largou o que estava fazendo, mesmo os projetos sociais, para viver do grupo, a gente está nessa fase de “e agora, como é que a gente vai se organizar? Quem vai fazer o que, ou todo mundo faz um pouco? Quem vai ficar com a parte artística, quem vai ficar com outra parte…”

André – A gente está se reestruturando.

Cinthia – É, então acho que a longo prazo o projeto é fazer com que o nome “Os Profiçççionais” seja algo que as pessoas escutem e falem “ah, são os caras, ele que vão vir?” É dar visibilidade, ter reconhecimento. Não necessariamente em televisão, não necessariamente algo assim.

André – A curto prazo o nosso objetivo é ganhar o’ Qual é o seu talento?’.

João – Não fala isso, rapaz… (risos)

André – A longo prazo, é aquilo que a gente falou no início do projeto Ademar Guerra, que a gente conseguiu, e com a vinda do orientador a gente vai começar a montar um espetáculo em cima do nosso trabalho de palhaço. Esse é um trabalho a ser feito em longo prazo, que é montar um espetáculo mesmo, uma coisa bem bacana, dramaticamente falando uma coisa bem encaixada, do teatro com o circo. Nós somos de circo, nós gostamos de circo, só que para você dar um salto mais alto, para andar junto com a galera que está lá em cima, precisa partir para outros lados também, precisa de outras coisas para juntar ao final.

Cinthia – O momento agora é essa fase de transição, de passar do amadorismo para visibilidade em festival, para o…

Marcelo - Profissional?

Cinthia – É, para um patamar acima!

André – Para conquistar espaço mesmo!

Marcelo – Para encerrar, qual o personagem preferido de cada um?

João – Chaplin, cara. Charles Chaplin é para mim fonte de inspiração, eu gosto muito.

Marcelo – Presumo então que o seu seja o palhaço?

João – O palhaço.

André – Meu personagem é o palhaço, sem dúvida

Cinthia – Para mim é a minha palhaça, ela é bastante atual…

André – Não, mas qual é o tipo de personagem? (risos)

Cinthia – O palhaço!

Rafa – O palhaço…

Marcelo – Então vamos combinar uma outra data, uma entrevista com todo mundo de palhaço?

Todos – Vamos! (risos)

por Marcelo Dias, Leonildo Trombela Júnior e Will Parisi




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