ago 262010
 

Com essa nova mania de filmes 3D, você acha que o mundo do cinema começa a exigir mais da parte estética e tecnológica dos diretores e acaba se esquecendo dos roteiros, elencos e diálogos bem trabalhados? (Luís “Bunda” Bertocco)

Na verdade, meu amigo, essa dinâmica descrita por você já ocorre há muito tempo nos grandes pólos cinematográficos, especialmente em Hollywood. Basta lembrarmos dos famigerados filmes de ação dos anos 80, por exemplo. Tudo bem, os efeitos e a tecnologia eram bem precários até mesmos para a época, mas o lance é que os produtores percebiam que as lutas, explosões, caras de mau e mulheres em trajes sumários tinham um efeito bem mais intenso no público do que uma boa história e boas interpretações. E isso é bem perceptível com o advento do cinema 3D, já que nenhum filme produzido no formato até agora pode ser considerado um primor cinematográfico. Dá a impressão que passam tanto tempo mexendo nos detalhes digitais (e gastando dinheiro com isso), que o roteiro, os diálogos e a própria coerência da história tornam-se secundários.

Hoje, a nova tecnologia tridimensional é apontada como a salvação da indústria cinematográfica. E não é para menos: os filmes 3D possuem um potencial bem maior de levar os espectadores às salas de exibição, numa época onde praticamente qualquer filme pode ser buscado na internet e assistido no conforto do lar, sem a necessidade de se esperar pela obra em DVD. Tal prática seria a responsável pela decadência financeira dos grandes estúdios (e das locadoras de filmes), numa crise semelhante à vivida pela indústria fonográfica.

Ocorre que a revolução 3D no cinema talvez não seja a maravilha que os executivos esperam. Para começar, há quem não tenha gostado do formato, ou mesmo quem não tenha se adaptado a ele. Especialistas dizem que o cinema 3D pode causar tonturas e dores de cabeça, pelo fato de que os olhos precisam ficar reajustando o foco o tempo todo (o Monge sentiu-se bem desconfortável quando foi assistir Avatar). Além disso, os ingressos para filmes 3D são bem mais caros do que os normais. Ora, um dos motivos pelo qual o cinema vem perdendo público é o preço salgado das entradas e dos comes e bebes. Assim, pode até ser que a novidade tenha dado um novo fôlego para as salas de cinema, já que as exibições em 3D seguem atraindo um grande público. Mas acreditem, isso vai passar, por diversos motivos. Um, porque é moda, e toda moda tende a ser passageira. Dois, a tecnologia 3D está chegando aos televisores, videogames e computadores. Logo será possível visualizar batalhas cinematográficas ocorrendo bem no meio da sua sala de estar.

Um terceiro motivo que quero apresentar diz respeito ao que o 3D significa para o cinema em si. Não falo da indústria, mas do cinema como arte. Há quem tenha se empolgado tanto com a novidade que diz ser essa a nova revolução da maneira de se fazer filmes, como foi no passado a transformação do preto e branco para o colorido. Acontece que nem todo gênero de filme é funcional para a visualização tridimensional. Sinceramente, quem vai querer assistir a uma comédia romântica em 3D? Ou a um drama psicológico, ou mesmo um thriller erótico? (Pensando bem, acho que esse alguns gostariam…) A nova tecnologia mostra-se muito específica para estar presente em toda e qualquer produção cinematográfica. A não ser, é claro, que a indústria mande definitivamente tudo que não se encaixar no formato às favas, massificando todos os conteúdos em prol da nova “revolução”. E dá-lhe Hugh Grant enfrentando robôs gigantes enquanto discute o relacionamento com Meg Ryan, de biquíni e siliconada.

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