Álvaro Petersen

 Posted by at 10:00 am  Colóquio
ago 092010
 

Ele está presente no imaginário de milhões de ex e atuais crianças. Criador e intérprete da cobra Celeste e do Godofredo (o amigo do Mau) no Castelo Rá-Tim-Bum,

Álvaro Petersen é um multimídia. Ator, cantor, compositor, diretor artístico, professor.

O I.R o convidou para um bate-papo sobre Tv, música,  teatro, educação, Ribeirão…

Rendeu tanto que dividimos em duas partes. Aproveite!

(1ª parte)

Sobre cobras, bonecos e cultura.

Marcelo Dias – Qual é a maior dificuldade de se fazer cultura hoje no país? Isso de maneira geral, até pelo fato de você ser professor, ser ator, compositor, músico…

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Álvaro Petersen – A maior dificuldade de se fazer cultura que eu vejo hoje é que ela precisa virar produto para depois ser distribuída, entendeu. Essa questão de a cultura “virar produto” é a grande discussão. Você tem um P… conteúdo, escreve um livro, ele tem que virar produto, tem que ser distribuído e tem que ser vendido. Então essa abordagem na venda e na criação desse produto que eu acho que é a grande dificuldade. Por exemplo, talvez em um outro país isso esteja melhor resolvido. Até pela questão do capitalismo mal feito aqui no Brasil ainda. Você falou da França, França é um país “socialista”, social e capitalista, socio-capitalista, socio-democrata, enfim. Saiu de um “socialismo”, ainda mantém essas características, é o último país com isso dentro do oeste Europeu. Você falou do Seu Jorge (N. do E. – Sobe o fato de Seu Jorge ter tido ótima aceitação naquele mercado). Bom, você tem um produto, seja ele musical, de literatura, é o representativo de uma determinada cultura. Porque você veio de Ribeirão Preto, que seja, está acostumado aqui, sua família veio do café, não sei. Você estabelece um produto cultural que aqui em Ribeirão Preto não existe, ou em qualquer outra cidade nesse sentido, em Ribeirão Preto é um pouco mais grave, e a Bahia que é um caso á parte. Você chega num país desses com um produto cultural, como eu disse agora, e ele é respeitado como produto e como representação cultural. E aí ele pode ser vendido.
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Marcelo – Ele (produto) primeiro é uma representação cultural, e é isso que torna ele produto?
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Álvaro – Primeiro ele é representação cultural, e segundo, ele é respeitado por isso. Aí ele vira um produto. O cara fala assim, “ah, você está vendendo um cd, que legal, põe aí” Não, não, tem um conteúdo, entendeu. Ah, você está vendendo uma obra de arte, um artesanato, ou dança, ou uma literatura… Enfim, o cara está vendendo isso.
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Álvaro – Eu acho que é isso, eu vejo essa grande dificuldade. Mesmo porque eu vejo coisas que são uma grande briga. Por exemplo, você vê que nunca o Brasil teve tanto incentivo à cultura enquanto produto. O que você tem de leis, o que você tem de dinheiro, de verba disponível para projetos culturais, nunca teve tanto. Então você entra na internet, tem tudo quanto é empresa abrindo concurso, abrindo edital, abrindo para você entrar. “Eu quero escrever um texto para teatro”, então entra lá e tem incentivo, lei de incentivo, nunca teve tanto eu acho, está ótimo. Mas é aquela coisa, tem que ter uma representação cultural. Então começa a cair sempre numa situação assim, é sempre uma coisa absolutamente regional, o Brasil ainda vive dos seus regionalismos.
Marcelo – Nesse caso, lá na França é o respeitar a cultura que faz da cultura um produto?
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Marcelo – Principalmente do Sudeste…
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Álvaro – Principalmente do Sudeste e Nordeste, né. O cara fala “isso aqui representa o Bumba Meu Boi”. Então é um projeto que entra com um suporte cultural. Mas espera aí, existem produções culturais contemporâneas que precisam ser vistas dessa forma, entendeu. Então cultural não é só aquele antigo que está lá. É engraçado, o cultural no Brasil é a favela, o Rio de Janeiro, é o nordestino que passou fome, é aquele lugar maravilhoso, a praia que bate e que volta… Existem outras coisas culturais aqui! O que seria de Nova York se fosse só isso? O que seria da Alemanha, da França, se fosse só beleza natural a questão cultural para o suporte? Então essa é a grande dificuldade.
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Marcelo – No caso da cultura, parafraseando a música que a Elis interpretava, “o novo nunca vem?”
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Álvaro – Como assim?
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Marcelo – O novo não vem então, é sempre o velho que é ovacionado…
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Álvaro – Eu não sei, eu não entendo muito bem essa coisa. Mesmo porque hoje você tem um negócio chamado “releitura”, que eu odeio. Eu me lembro, vejo assim, falando da questão da música, há muito tempo eu não vejo músicos tão bons no Brasil. Músicos bons! A moçada está estudando, está tocando como nunca tocou, é uma característica agora. Mas que nos anos 80 ela ficou meio desaparecida. Por conta de um fenômeno que veio da Europa, que era o músico que não sabia tocar. Você tinha cinquenta grupos que não sabiam tocar. Então era mérito dos produtores, a fase do produtor cultural, musical. Era aquele cara fera no estúdio, pegava você e “deixa que eu faço”. Aí pegava um animal qualquer que não sabia nem tocar, e transformava em um produto, entendeu. Então todas as bandas que hoje são cultuadas como as “grandes bandas”, como Legião, Paralamas… Eu acho que hoje eles são bons, mas musicalmente para mim eles são muito ruins. Representam uma época, mas desculpa, naquela época era muito ruim. Você não vai comparar aquilo com Hermeto Paschoal, que tocava na mesma época.
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Marcelo – Eu não sei se é só da minha cabeça isso, mas por exemplo, no caso de Legião e Paralamas eu não vejo eles como bandas que foram produtos, eu vejo mais como músicos que o mercado identificou como potencias produtos a serem fomentados, porque o início das duas bandas é de raça, daquela pessoa que foi lá, gravou o demo, tocava nas esquinas…
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Álvaro – Como todos eles. Mas assim, a qualidade musical não é nada virtuosa.  O cara que não sabia tocar… Agora, em contrapartida, dez anos antes era só quem sabia tocar. Os anos 90 foram melhorando um pouco. O cara começava a estudar um pouco de música, saber tocar um instrumento não é só ter uma postura, é uma postura muito fake (falso).  Eu sou contemporâneo, mas eu achava muito fake, muito igual a The Clash, muito igual a The Smiths, muito inglês. Bacana, muito Brasília. Representa uma época, mas só que tocava mal, a característica era essa. Culturalmente era aquilo, o movimento, filho de ministros revoltados com uma serie de coisas, mas um discurso adolescente. Os anos 80 era um discurso adolescente completamente, tanto que o publico era adolescente. Geração Coca-Cola, um papo meio cabeça, mas que eu não achava nada profundo, como foram os anos 70.
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Marcelo – Isso se perdeu quando?
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Álvaro – Não sei se perdeu, é mais uma característica da geração e também da conveniência do mercado fonográfico. Eu me lembro que até essa época você tinha um selo que vinha atrás do disco, uma chancelinha escrito “Disco é Cultura”. Aquilo significava que o Ministério da Cultura estava subsidiando aquele produto. Então, eu me lembro muito bem que para se gravar um disco no Brasil você tinha que gastar uma fortuna para que aquele disco fosse trabalhado. Quanto mais você gastasse, mais ele seria trabalhado. Nos anos 80 pra frente aquela chancela veio como “supérfluo”. Lembra dessa lei? Produtos supérfluos, que não tinham subsídio do estado. então o disco tinha que ser barato. Entrava aquele monte de molecada no estúdio, ficava lá oito horas e tchau, um abraço. Não tinha orquestra, não tinha musico sendo pago, e ainda tinha que ser barato. Essa é uma questão que eu acho muito significativa. Foi muito inteligente da indústria fonográfica entender esse mercado, essa coisa como produto. Eu falo como produto porque antes disso eram as duplas, mas não as sertanejas. Sá e Guarabyra, que deu certo… Na época era muita dupla no mercado pop, Dom & Ravel, Antonio Carlos e Jocafi, era uma época de dupla cantando música brasileira pop romântica. Os anos 80 vieram com banda, se você tinha um grupo, vambora. Um ou outro que estourava pra fora. O Kiko, por exemplo, foi um vencedor para entrar nesse buraco, ele como compositor…
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Marcelo – E longevo!
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Álvaro – Mas ele é bom, é talentoso, e sabe lidar com essa questão do mercado muito bem, ele se impõe, não se retrai. Quando começou essa questão do não incentivo cultural ao disco como produto subsidiado, então tinha que ser barato. Se você escuta a produção dos anos 80, é a pior que eu já ouvi na minha vida, coloca o som e escuta. É uma bateria (som de bateria eletrônica), só isso, não custa nada, o cara aperta um botão. Não tem baterista, é um programador, um produtor, ele que ganhava.
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Marcelo – Isso seria o sistema capitalista do mercado fonográfico, porque buscava maximizar o lucro?
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Álvaro – O sistema capitalista sempre existiu, porque ele tinha que gastar muito para chamar muito dinheiro para distribuir esse disco. Só que o subsídio vinha do governo de alguma forma. Passava pelas grandes gravadoras multinacionais implantadas no Brasil, RCA, CBS, EMI. Então ali agregava muita informação, todo disco tinha orquestra. Paulinho da viola tinha orquestra, Taiguara, orquestra, Jorge Ben Jor, orquestra. Tudo orquestra, e aquilo é dinheiro viu, para pagar um monte de músico. Ai entrou a questão da modernidade, só que modernidade do “não gastar” e socar no mercado para vender. Isso é o determinante no produto.
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Marcelo – No caso da televisão, ela veio numa (trajetória) ascendente, vamos colocar assim. Até por conta da evolução da tecnologia, a profissionalização dos estúdios e a maneira de se fazer televisão no Brasil. E tem a música, como a gente esta comentando agora. E o teatro? Qual é a realidade? Porque o teatro é um garimpo muito maior, você que fomentava fazer uma peça, produzir algo, seja para criança ou para adulto…
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Álvaro – É muito complicado, é muito trabalhoso. O teatro é muito grande, não da representação da arte em si, mas a produção do teatro sempre é grandiosa. De um bom teatro, de um teatro para valer. Porque ele exige uma infraestrutura especifica, primeiro porque é um teatro, tem que ter palco, luzes, cenário, depois o ensaio. Não tem como fazer teatro, um bom teatro, se você não tiver muita gente dedicada. Tem gente que fala “pô, teatro não dá dinheiro”. Até dá dinheiro, mas você tem que buscá-lo. A gente fez o teatro do Cocoricó, ficamos um ano e meio em cartaz. Eu fiz parte do elenco, não fiz parte da produção, mas estava colado ali. E eu vi a grande dificuldade do Cocoricó, que é um produto que tem nome! O Cocoricó todo mudo quer, tem aceitação imediata, público de 0 a 6 anos lota direto e tem mercado. Tanto que tem um monte de Cocoricó cover, que é isso que eu estava falando dos anos 80, depois a gente fala disso. Eles ganham dinheiro na beirada do sistema, mas ganham. Brasil! Até você processar um cara lá no Amazonas que montou o teatro e pôs em cartaz, enfim… Mas os direitos não são meus, são da TV Cultura que também não vai atrás. Mas enfim, na produção da peça forma necessários quatro produtores. Um dono de teatro, um buscando leis de incentivo, um trabalhando com direção e confecção de bonecos, e o outro com divulgação. Quatro sócios que se juntaram para viabilizar o espetáculo, porque no teatro é caríssimo o aluguel. E a implementação do cenário, tudo aquilo custa muito dinheiro.  Li isso no jornal na época do Nanini, esqueci o nome da peça, desculpe. Um monólogo, e ele teve que vender uma, duas casas, dois imóveis para implantar a peça. Depois ele deve ter ganhado isso ao longo da temporada, não sei se ganhou. Pela questão da mídia, divulgação – que é caríssima no teatro – e envolve uma equipe, envolve aquele grupo ensaiando, eu gosto muito desta grande empreitada. Mas vejo que também essa arte seguiu outras opções. O “teatrão”, aqueles que ficavam em cartaz dois, três, sete anos, como lá em São Paulo sempre ficou, o Juca de Oliveira, classicões, comédia de costume. Comédia de costume vende muito, a Sua Excelência, o Candidato ficou anos em cartaz. O que a Denise Fraga fez está lá em cartaz até hoje.
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Marcelo – Trair e Coçar…
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Álvaro – Trair e Coçar É só Começar. E vai trocando os atores, comédia de costume é outra dinâmica. Mas tem muito teatro que eu não suporto hoje em dia, então eu vou pelas companhias, do Latão, de São Jorge, companhias ótimas de teatro, que montam seu repertório e começam a fazer peças ótimas.
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Marcelo – Voltando para a televisão, onde o teatro foi a base, a gente vê que no início da televisão a qualidade era outra. Eu não peguei a Vila Sésamo, da Cultura, mas era muito marcante o Bambalalão. E a gente vê que foi inversamente proporcional, a coisa se profissionalizou e teve dinheiro, mas a  qualidade despencou.Veio Xuxa, Angélica, pasteurizou. Era diferente de quando havia Bambalalão…
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Álvaro – Anos 80. Acho que a foi a mesma coisa na música, aquele grande suporte tecnológico e de mídia é para vender, divulgação. E a nossa grande disputa… Não “disputa”, para mim a Xuxa nunca teve expressão cultural de fato, ela só teve em sua anticultura. Ela trouxe um fenômeno comportamental que foi muito prejudicial, mas necessário, porque ela representava exatamente essa fase. Aí tem muita coisa embutida. Você falou do começo do teatro na televisão, e a sua influência. Assim como a televisão pegou também a questão do rádio, quanto à linguagem de transmissão broadcasting, transmissão de informação, e ela teve que colocar imagem. A televisão foi se adaptando em função disso. Antes era telenovela, radionovela, era cinema. As notícias vinham no cinema, chegavam uma semana depois e você assistia. Com uma linguagem de cinema também, tipo de câmera, tipo de enquadramento. E outra, a questão técnica. Quando começou a televisão, a questão tecnológica era determinante. As câmeras eram enormes, tinha que ficar mudando lente na mão. O que a porque não existia o VT, você não tinha a questão do vídeo gravado. Podia gravar, mas não tinha o VT, e era teatral, a comédia de costume. A Cultura na época já fazia o teleteatro, como eles chamavam, preto e branco, antigo. Que era uma linguagem da televisão tentando mostrar o teatro. Até hoje eles fazem da mesma forma. E até hoje acho uma doideira essa questão da linguagem do teatro na televisão, a melhor situação da teledramaturgia no audiovisual é o cinema, para mim é o cinema, que é uma linguagem mais específica, tem uma construção muito específica. É uma escultura, o cinema. A televisão é diferente, é uma serigrafia, muito rápido. Ela é uma gráfica, solta muita coisa. O cinema é uma obra de arte, a sétima arte. Eu acho que influenciou nesse sentido, tanto que o começo da televisão era Família Trapo, família isso, era tudo ao vivo.  O Bambalalão, que você falou, também era ao vivo. Ele pegou um pouco dessa escola antiga e trouxe para cá. Quem trabalhou nesse sistema aprendeu muito a passear por essas linguagens. Hoje a televisão, acho que é uma questão atual, universal, é protocolar, burocrática, segmentada, como a maioria das linguagens hoje. A gente para estar nessa entrevista, você precisaria ter a rádio, a antena, um horário na rádio, um P… microfone, “panpanparan…”, e a gente falaria. Hoje a gente está aqui sentado num canto completamente separado, segmentado, e isso é trabalhado de outra forma. Agora como colocar isso nessa “pegada” enorme que você tinha antes? É preciso trabalhar muito a tecnologia, esculpi-la para que ela tenha esse grande conteúdo.
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Marcelo – O que a gente consegue aqui dentro é avaliar até onde uma pessoa hoje consegue chegar com uma ideia na cabeça. Porque antigamente para você ter acesso à tecnologia para fazer metade disso…
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Álvaro – Você tinha que ter uma grande ideia, hoje…
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Marcelo – Hoje qualquer ideia, porque a pessoa consegue difundir isso de uma maneira violenta.

Álvaro – Eu acho isso fantástico pelo lado democrático da ideia, mas incorre em um erro. O fato de um cara ter 72 milhões de acessos na internet não significa que ele tem uma grande ideia. Ele teve uma ideia, razoavelzinha. Uma grande ideia é o Tom Jobim.
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Marcelo – Tem um termo, hiperdemocracia, sobre que hoje todo mundo tem voz, hoje qualquer pessoa se sente no direito de dar opinião sobre qualquer coisa.
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Álvaro – Hoje qualquer pessoa é cantora. Eu me lembro de uma novela, eu achei significativo para mim, meus pontos de virada na comunicação, pessoais. Uma novela aonde aquela atriz que eu acho ótima, ela fazia não me lembro que papel, enfim, ela fazia um negócio que tinha um português que tinha muito dinheiro, que queria deixá-la muito famosa, mas ela não sabia fazer nada, ai o cara começou a colocar uns outdoors dela na mídia. Eu achei aquilo bem metalinguagem. Ela começou a ficar famosa, aí o pessoal perguntava “o que você faz?” “Nada, eu sou famosa”. Eu achei aquilo interessante porque hoje você é um cara que joga bola muito bem, agora se eu colocar você como fez o marido rico dela na novela, em um outdoor em Ribeirão… o Beto Carrero fez isso, “quem é esse cara?”, começou a botar na mídia. Você vira uma personalidade e ninguém sabe o que você faz de fato. A Adriane Galisteu, o que ela faz? Hoje ela é uma apresentadora de TV, mas até chegar lá, o que é o produto, o que ela faz? Ela tem uma voz, ela tem um belo corpo, o que ela vende? A Luiza Brunet eu sei o que ela vende, o que ela representa. A Bruna Lombardi, o Caetano Veloso, representam alguma coisa, passam a ser uma celebridade. Hoje só porque se fala “celebridade”, ela é alguma coisa representativa culturalmente. E não é, na minha cabeça.

Um comunicador

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Marcelo – A gente vê muito quando vai fazer jornalismo, as pessoas falam “que legal, você vai aparecer na televisão”. Nos próprios alunos que entram na faculdade identifica-se isso, as pessoas entram para isso.
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Álvaro – Tem muita confusão, é um momento complicado na vida comum, pós adolescente. Muita gente que vai fazer faculdade, eu mesmo quando comecei, ninguém sabe o que vai fazer, você não tem tantas informações. É interessante você atravessar este portal, eu sou muito romântico, este “portal do conhecimento”, pois você só vai saber o que tem lá depois que você entrar. Eu acho fantástico esse mistério. Claro que você tem que ter acesso a informação, ao currículo da faculdade, é importantíssimo, mas adentrar esse mistério é o mais legal. Tem muita gente que desiste. Agora, dentro da faculdade de Rádio e TV que eu dou aula você tem alunos que falam “professor, eu queria fazer televisão, queria fazer teatro, o que eu faço?” isso numa aula que não tem nada a ver com aquilo. O cara que faz Rádio e TV não vai ser ator. Ele pode ser ator, mas para isso ele tem que fazer um curso de teatro, arte dramática ou cênicas, é por aí o caminho.
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Marcelo – Eles vão mais pelo senso comum…
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Álvaro – Assim com tem pai que vai perguntar para a gente se o filho vai montar uma loja para consertar videocassete, televisão etc., ainda existe isso. Você vê que informação existe, todo mundo sabe o que é Rádio e TV. Todo mundo quer ir trabalhar na TV Cultura, como se fosse o grande barato. Eu na verdade nunca quis, e trabalho. Na verdade, as pessoas estão querendo um empreguinho e um cargo, isso é muito medíocre. Todo esse trabalho de comunicação e jornalismo é muito maior do que isso. “Ah, eu quero ser jornalista para trabalhar na Globo, eu quero fazer Rádio e TV e ser contratado pela Record, e ficar lá com meu crachazinho pendurado no pescoço…”
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Marcelo – Eu quis trabalhar na TV Cultura, por aquilo que você comentou na outra entrevista, de usar a garrafinha de água que se está tomando, pinta e utiliza para fazer o cenário de um programa.
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Álvaro – Isso é uma característica, é por esse grande laboratório humano que é fantástico.
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Marcelo – Eu comparo muito a TV Cultura a uma universidade publica da década de 80, 90, onde as pessoas saíram com qualidade. Porque a estrutura era sucateada, tinhas bons professores, só que se os alunos quisessem alguma coisa tinham que correr atrás.
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Álvaro - Mas isso que você está falando é uma imagem que a Cultura vende do que ela tinha, não é mais assim. Hoje por exemplo, quando a pessoa vê a chancela, a logomarca “TV Cultura”, ela está muito mais como uma logomarca do que conteúdo. Mas ela vende isso. A Cultura há algum tempo, desde que a “Cultura Logomarcas” veio para tirá-la desse “buraco negro” de distância entre o mundo real de consumo e o mundo intocável…
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Marcelo – Eu me lembro quando foi autorizado a ter comercial na TV Cultura.
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Álvaro – Eu não sou contra o comercial, eu sou contra esse critério do comercial. É uma TV educativa, você não pode falar alguma coisa que não seja educativa. Ela tem esse critério, ainda tem. Quem conseguiu isso foi o Roberto Mulaerte. Para mim foi o grande revolucionário da TV Cultura. E tudo se deve a ele, essa Cultura que você está falando. Foi um cara de televisão, professor, foi o último cara que entende de televisão que tomou conta da TV Cultura. Hoje você vê um monte de ex-secretários que trabalham na Cultura, mas na Cultura como um objeto político, de negociação e de logomarca. O próprio presidente que entrou agora falou na própria entrevista que não sabe o que tem na TV Cultura. Todo mundo leu isso.
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Marcelo – Ex-secretário da Cultura…
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Álvaro – Ele falou “TV Cultura? Ah, agora eu vou começar a assistir para ver o que tem lá”. Quer dizer, ele vai cuidar da TV Cultura e nem sequer sabe. Ele não tem obrigação, mas nesse caso ele tem que saber o que é televisão ou não. Tinha essa coisa da TV Cultura que era feita por pessoas que entendem de televisão, que não tem mais. Hoje ela virou um grande secretariado, instrumento político. Isso vai em detrimento de acabar com muito conteúdo.
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Marcelo – Fazer programa para a criança, voltado para a mente da criança, é mais fácil ou mais difícil do que fazer para o adulto?
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Álvaro – Completamente difícil. Porque para fazer um programa para criança você precisa estar como pedagogos, pessoas que estudem isso. O adulto está pronto, ele te tira o comprometimento. Eu vou fazer um programa de sacanagem, de P…, ou uma coisa que é completamente fora, mas ele é adulto, ele tem o discernimento de mudar de canal. Você tem essa desculpa. A criança não, ela vai ver aquilo. Então cabe ao pai ir lá mudar? Não vai mudar. Dentro do programa infantil você tem que ver que idade é a criança. Ela tem quantos anos, seis anos? Então ela não aprendeu certas coisas, não desenvolveu certas coisas, a capacidade para certas coisas. Logo você precisa fazer um programa para ela, então eu vou ensinar equação de primeiro grau rapidinho, para uma criança de seis anos? Você não vai. Eu vou falar das relações complicadas entre um pai e uma mãe para uma criança de seis anos? Você não pode, então dá um P… trabalho fazer um programa para criança. Para adulto, que é o que mais tem, não tem o menor problema. As grandes linguagens de televisão hoje são CQC, Pânico. Ah, legal, irreverente, eu acho ótimo a criação dos personagens, mas eu acho muito pouco. Muito fraco, podia ser mais.
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Marcelo – Geralmente eles tem que acabar adequando-se ao mercado. Você vê que o Pânico estourou, caiu e agora ele voltou, porque foi obrigado a se renovar…
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Álvaro – Então o cara não pode ficar assim, “em-si-mesmado” (centrado em si mesmo), tem esse problema da celebridade. Mas isso eu acho que talvez, sim, seja um problema humano, mundial. O cara “ah, fiz isso, arrebentei, faço gracinha”, é legal em um primeiro momento, mas e depois, o que você quer dizer? O Marcelo Tas está na frente, mas por que? Porque ele fez ECA (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), ele estudou, é um comunicador. Ele lê, está propondo uma instigação. É um cara provocativo, um profissional provocativo. Não é um bobão que sabe imitar alguém. Ele pode até ter caído de paraquedas, mas ele caiu e foi para a guerra. Não sei se caiu ou não, eu falo isso porque ele realmente se preparou. Os caras do Pânico também, eram caras do rádio, e muito bons. Mas aí tem que estudar, fazer criação de personagem, ai não tem jeito. O programa bom adulto dá trabalho, mas é mais fácil, porque você vai em um determinado limite onde o ser humano tem o livre arbítrio.
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Marcelo – Seria porque hoje as pessoas querem tudo mais pronto?
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Álvaro – Com certeza, hoje você encontra tudo congelado, é só colocar no microondas e “piii…”
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Marcelo – Hoje a pessoa não quer mais picar o alho, fritar a cebola, esperar cozinhar…
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Álvaro – Isso tudo é um grande avanço da tecnologia, mas um grande retrocesso cerebral. Porque depois você tem que ficar fazendo exercício para o lado direito e lado esquerdo do cérebro. Primeiro porquê não se escreve mais. Outro dia fui escrever oito paginas e quase deu cãibra na mão. Pô, oito paginas? É nada, isso você está exercitando o cérebro. Tudo bem que seja uma evolução, mas é extremamente determinante para o ser humano.
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Marcelo – No colóquio com Luis Rufino, professor de filosofia daqui de Ribeirão Preto, ele falou que não houve evolução a partir de 1500, você teve evolução tecnológica, mas a humanidade parou na idade media mentalmente. Tire a eletricidade do mundo, e no dia seguinte você terá a barbárie.
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Álvaro – Tire a eletricidade do mundo, comigo. Por exemplo, acabou a luz na casa minha irmã. Estava lá ontem, e dissemos “que gostoso!”, acendemos uma velinha. Meu sobrinho e seu amiguinho entraram em pânico, “o que fazer?” É a realidade, acaba a luz, o que fazer? Saques. Primeira coisa que o ser humano faz, entra em parafuso. “Estamos condenados!” Assim como você falou da tecnologia, eu outro dia brinquei, eu não sou um grande expert da tecnologia, tenho certas dificuldades. Mas eu fiz Física, eu sei como esse som entra naquele negocinho e vai para o computador, eu entendo o processo. Mas isso demora muito, a molecada não quer saber do processo, vai direto no ícone. O processo demora, não tem como. Para você entender que o leite que está em uma prateleira de supermercado, numa caixa quadrada… Eu sei como ele parou lá dentro. Então toda vez que eu vou comprar leite dá um flash na minha cabeça e eu sei como ele parou ali. É o meu jeito, meu arquivo, é assim que eu acesso, é minha pasta. Hoje o moleque que pega o leite vai no ícone “caixinha”, não tem raciocínio. “Ah, mas isso não economiza tempo?” Não, isso emburrece, porque aquele tipo de exercício só faz bem para o cérebro. Ai quando você fala, “pô, mas é tudo isso? tem que engravidar, tem que tirar, tem que apertar a teta, P…M…!” Mas é para você tomar o copo de leite! Ah não, não quero, quero o mais fácil. Essa conquista humana eu acho fantástica, mas a historia tem que ser contada para cada ser humano de como foi duro conquistar. Trabalho? Isso é exercício para o cérebro.
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Marcelo – A cultura oriental tem uma coisa interessante que embute você nesse sentimento de que você nunca será nobre. Você somente será nobre se o seu filho se perpetuar. Se eu faço algo grandioso, nobre é meu pai, e assim sucessivamente.
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Álvaro – Então, mas isso é uma educação fantástica. Mas eu acho que eu isso é uma conquista humana, tecnológica, a duras penas…
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Marcelo – Você ovaciona o que veio, nunca você.
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Álvaro – Agora, por exemplo, o comprometimento com a humanidade fica mais difícil, porque a partir do momento em que o cara pega aquela caixinha, ele não tem o menor comprometimento em jogar aquele leite fora, porque ele vai lá no dia seguinte e tem outro. Não quer saber quem botou lá. E nem precisa saber, porque é uma conquista humana, é um direito dele. Mas é um direito conquistado pela humanidade. Então como você quer o engajamento desse moleque, que para ele tanto faz se ele for lá e chutar aquele negócio do leite? O que importa é que sempre vai ter outro, alguém vai fazer. Essa é a visão que eu tenho da molecada hoje. (continua…)


2ª parte…

Marcelo – Falando em moleque, como foi o moleque Álvaro em Ribeirão Preto?

Álvaro – Ah, muito bom cara, eu acho que talvez peguei a melhor fase.

Marcelo – Foi de que ano a que ano?

Álvaro – Peguei o final dos anos 50. Nasci aqui, peguei os anos 60 em Ribeirão, que foram fantásticos, ainda eram os anos dourados. E ainda peguei o milagre econômico dos anos 70, que o mundo estava numa crise fera e aquele governo militar na época fez o milagre econômico, “Brasil ame-o ou deIxe-o”. E aquele monte de história, o Brasil bem, todo mundo crescendo, todo mundo ganhando dinheiro, você montava uma empresa… Todo mundo que tem dinheiro hoje em Ribeirão foi dos anos 60, 70, foram os donos de fazenda, no Brasil inteiro. Peguei uma época muito boa de Ribeirão, que já tinha suas casas enormes. Sou de família classe média alta, agora classe média. Na época meu pai era comerciante, então (tinha) aquelas casas gostosas… Ribeirão era uma cidade pequena, mas uma cidade muito elegante. E é um fenômeno que aconteceu em outras cidades, Campinas também era maravilhosa. Mas as cidades estão ficando mais… baixou o nível geral de tudo. Você vê que o Centro não era isso aqui. Claro que meu pai pegou os anos dourados, 40, 50… onde nos estamos (Edifício Diederichsen), como eu tinha falado a você, meu tio morava no quarto andar.

Marcelo – Aqui foi o primeiro prédio multifuncional do interior do Estado. Nem Campinas tinha um prédio desses.

Álvaro – Chiquérrimo, elegantérrimo. Meu pai trabalhava aqui em frente, conheceu minha mãe na janela deste edifício aqui. Minha mãe é mineira e ficava com meu tio aqui, no quarto andar. Meu pai era gerente da Molas Suelen aqui na frente. E eles se conheceram na Única. Isso nos anos 50. O ensino era muito bom, o ensino público era maravilhoso no Brasil. Ginásio, colégio, eu estudei aqui no Marista porque meu pai queria dar o melhor colégio. Perguntou “Qual é o melhor colégio?” Meu pai estava ganhando dinheiro, seis filhos, botou a gente lá. E eu adorava porque tinha a banda do colégio, eu tocava na banda. E tinha um P… de um campo de futebol legal, era um colégio que tinha um ensino igual aos outros, mas ele dava esse suporte, que na época ninguém tinha. Campo de futebol gramado, a gente adorava isso! Então eu vivi muito bem essa questão (ser criança) aqui, e Ribeirão você pegava a bicicleta e só andava de bicicleta. Eu fui ter carro… eu acho que nunca tive carro quando morava aqui. Depois tive moto. Nadava no lago da Medicina, moleque. A gente brincava de jogar queimada lá em cima, do lado de onde é o Pão de Açúcar (na Avenida Independência). Onde é Pão de Açúcar era Eletro Radio Bras. Mas a vida era assim, molecada, bicicleta, muito cedo comecei a tocar, a gente já tinha grupo. Eu estudei, olha que engraçado, eu tinha sete anos e fiz a escolinha de arte do Palocci. Palocci, o pai do Palocci (ex-ministro da Fazenda). Ele tinha uma escolinha de arte, eu estudava lá. As cores primárias quem me ensinou foi o pai do Palocci (risos)

Marcelo – Quando você chegou na juventude, na parte de ser o contestador, grupo idéias, como foi?

Álvaro – Sempre gostei de tocar, o meu avô era maestro em Minas Gerais. Tinha orquestra, tinha uma banda, e o meu avô era também barbeiro… Eleutério Guilhermino. Então ele tocava e tal, eu era muito pequenininho e ia para Minas, sempre ficava lá. Então vivi muito o interior. A cidade de Cabo do Rio Claro é deste tamanhinho. Não tinha nada, mas tinha tudo. Fui também muito para Goiás, tínhamos parentes, enfim, no meio do mato. Agora, a gente pegou uma época muito interessante, aonde você tinha por exemplo em Belo Horizonte, os movimentos musicais. No Rio de Janeiro, 60 para 70… Pós 64 foi movimento de caça aos comunistas, 66, 70. Em 68 eu estava tocando violãozinho pra lá e pra cá… Então você pegava e ouvia de longe as coisas acontecendo nos outros lugares, e aqui a gente fazia, juntava um bando de moleque e ia para o Teatro Municipal, fazia um som, mas é aquela coisa que os pais da gente, minha mãe dava uma força, mas a família, passavam longe. Faziam de conta que não era você, porque era marginal, cara! Era bandido quem fazia isso, não éramos bem vistos.

Marcelo – Mas os pais sabiam…

Álvaro – Ah, claro!

Marcelo – Mas, quando passavam perto…

Álvaro – Não, na boa, minha mãe era um show, mas não era uma coisa aprovada pela classe média alta de Ribeirão Preto. Sempre foi assim, porque o próprio governo incitava este tipo de coisa. Era uma época ainda romântica, onde você tinha Godart, você tinha cinema francês, aquela coisa vinda da Europa, bacana, não essa coisa de contestação, mais contemplativo, de pensamento, anos 70. Você tinha Woodstock, e eu fui comprar disco dos Beatles, lançamento na loja. Você tinha o paz e amor, o LSD correndo solto nos EUA nessa época, raramente chegava em Ribeirão, mas você tinha essa época lisérgica. Produtiva, contemplativa, e de contestação.

Marcelo – Nisso Ribeirão produziu muita gente…

Álvaro – Produziu muita gente mas não acolheu ninguém…

Marcelo – Como assim?

Álvaro – Foi todo mundo embora! A gente tocava, fazia showzinho aqui na porta, eu, Kiko (Zambianchi), Plauto e Glauco, que era uma molecada que fazia som. E o que achava legal era o seguinte, cada um era de um lugar. Um morava na Vila Virginia, o outro no Campos Elísios, o outro morava em uma chacrinha, o outro era um doidão que morava não sei onde. O Kiko era filho de médicos, eu filho de comerciante, então na hora de se reunir era boteco e música, era o que a gente fazia. E cartum, e movimento, o Glauco já publicava aqui no Diário, se não me engano. O Pelicano também, que é o irmão mais velho dele. O outro irmão dele também cantava, que era o Maguila. O Maguila era uma figura… Depois o Pitu Petean começou a cantar com a gente, da família Petean, compridão. Para mim ele é “o” roqueiro, mas era muito doido.

Marcelo – E como é essa história, vocês tocavam na porta do teatro?

Álvaro – Tocava aqui na porta!

Marcelo – Para tentar arrecadar fundos?

Álvaro – Tentar chamar a atenção! Não para pegar dinheiro, mas como um movimento. Por exemplo, sempre teve o Cineclube, o Caxaça é desde essa época, ele ficou aqui. Então já tinha o movimento do Cineclube para trazer cinema francês, para trazer filmes de arte para Ribeirão. Então era uma turminha pequena, que pegava o Cine São Paulo à meia noite para exibir coisas… E a gente dentro desse momento tentava fazer alguma coisa ali, mas também com muito pouco acesso às informações. Eu era moleque, nem sabia nada.

Marcelo – O que a gente percebe de Ribeirão Preto é que a cidade tem muita cultura incutida…

Álvaro – Tem, é uma cidade rica nesse sentido. Ribeirão sempre foi uma cidade mais assim. Por exemplo, você ia para Altinópolis, Jardinópolis, essas cidades, e nunca teve essa coisa cultural, sempre foi “interiorzão” mesmo. Tinha moda de viola, uns grupos da região, não esse “agroboy”, estou falando o regional mesmo. Mas Ribeirão, com o advento do café, e a gente não pode se esquecer de onde veio. Ribeirão veio dos italianos que enfiaram dinheiro nessa cidade, montaram teatro, montaram tudo, era uma cidade chique, uma cidade regional, assim como Campinas. Dois pólos. Campinas quando eu mudei para lá, eu fazia faculdade lá, perguntavam “de onde você é?”, eu falava “sou do interior, e você?” “ah, eu sou de Campinas”. É, mas Campinas não é interior? (risos) O campineiro sempre teve essa coisa, essa autonomia. E eu acho bacana defender isso, porque era algo “nós não somos do interior, nós somos uma elite cultural”. E sempre foi, na época. Carlos Gomes… Ribeirão teve a sua elite cultural na época do café, produziu muita coisa. Muitos artistas vieram no pós-café. Pintores… Em Brodowski aqui do lado você teve Portinari! Então Ribeirão foi muito forte. Mas foi engolido, eu acho, com o advento da cana, do álcool. Que eu acho que é uma cultura… um latifúndio predatório, da terra e da cidade. Porque o café, eu sempre falo isso, é uma planta que você não destrói, você tem que fazer carinho, senão ela não te dá o fruto. Ela engorda no olho do dono. Então o fazendeiro de café morava aqui, na sua fazenda, ficava lá olhando seu pé de café e freqüentando a cidade. Logo, culturalmente ele precisaria da música, do teatro, então ele investia nisso. O cara que é da cana arrenda e vai pra Miami! Que é o que aconteceu, o cara não mora nem aqui. Ele arrenda e que se dane. É uma cultura horrorosa, a da cana. Você vai lá e derruba tudo, vira um melaço, um cheiro nojento na cidade inteira. Ah, que bom que gera emprego, que gera álcool, isso é a parte boa. Mas a parte ruim é que ela acabou com essa cultura do assentamento no local. É uma cultura onde você tem bóia fria, pega, desova e vem outro. O café não, você tinha que morar, botar o cara lá… As usinas de cana são ótimas, vem do modelo das colônias de café, muitos aproveitaram. Mas eu acho que ela é uma coisa predatória nesse sentido, ela gera uma coisa culturalmente horrorosa, não gera cultura nenhuma, gera dinheiro.

Marcelo – Você é professor, ator, arquiteto, cantor… e o cantor?

Álvaro – Pois é, essa coisa de cantar e compor é desde aqui de Ribeirão. Eu sempre desenhei também, na época o pessoal me chamava de “multimídia”, e mal existia esse termo na época. Pessoal falava “pô, você é multimídia!”, e eu “não, eu odeio esse termo! Não sou publicitário, não fala isso de mim.”

Marcelo – Porque a pessoa relacionava multimídia com publicidade?

Álvaro – Sim, mas eu falava: Não, isso não é multimídia não. Eu acho o seguinte, estou em busca de fazer alguma coisa artística. Você me chama de multimídia, acaba com a minha proposta!

Marcelo – No contato com a música, você percebe que o músico não se faz, ele se descobre. Pode se melhorar, pode se lapidar, mas ele se descobre músico…

Álvaro – Foi o que aconteceu mais ou menos comigo, e com todo esse bando que eu falei aí. A gente se descobriu assim. E aí era inevitável, não tinha como. Então você andava meio na “marginália”, mas marginália que eu falo não é bandido, é uma coisa que você não podia divulgar muito. Então como você vai divulgar o seu trabalho se não pode divulgar muito? É complicado. Se o cara for fazer medicina, todo mundo vai dar o maior suporte. Se o cara for tocar um violãozinho, o que é isso, pelo amor de Deus. “E aí, você vai trabalhar com o que?” Sabe, esse tipo de pergunta. Mas enfim, o cantor foi uma coisa que aconteceu. Com onze anos eu ganhei meu primeiro violão, e eu tenho até hoje, é o meu violão, que eu componho as coisas nele. Um DiGiorgio, ganhei da minha mãe, de presente de aniversário na época, fui lá escolher. Horvildes Simões, que era um músico aqui de Ribeirão. Ele gravou muito LP em Ribeirão, um excelente violonista e professor de violão, eu tive aula com ele no comecinho. Mas depois eu saí fora, queria mais compor do que ficar estudando. A gente começou nesses anos 70 com a questão de compor a sua música. A gente estava falando de releitura… Hoje, nos anos 2000 tudo bem, mas em 90 era aquela coisa de releitura, releitura, vamos fazer uma versão. P… saco, ninguém tinha coragem de fazer o seu som. Então a gente se reunia, mas não se reunia para tocar Beto Guedes, ou para tocar Milton. Não, a gente ouvia Beto Guedes, ouvia Milton, e fazia o nosso som. “Ah, o que você fez hoje, deixa ver tal música”. Então parava todo mundo e ouvia. “Legal, eu fiz essa…” Então você tem aí um compositor de sucesso que fazia isso, e tantos outros. Filó Machado, aqui de Ribeirão… E eu comecei a tocar desde essa época. Tocar, compor, tocar, compor… Mas com essa questão de fazer um pouco de tudo, a música também é uma das dessas coisas, mas teve que esperar um pouco. Eu fiz arquitetura, fiz televisão. E na televisão eu poderia ter feito novela, mas eu gosto de fazer o outro também. Novela é uma coisa muito específica, a vida é dura para o cara conseguir fazer novela. Tem que ficar lá no Rio morando, se sujeitando a não sei o que, festinha, sai com não sei quem, tem uma coisinha ridícula desse meio, igual a Hollywood, o cara tem que ir às festas, tem que abafar, tem que sair com alguém. Não mudou nada. Rio de Janeiro, novela, é isso. De vez em quando pega um miché, pega um assassino, não tem a história no Rio de Janeiro, que os moleques mataram a outra lá? E assim vai, entendeu, porque é gente ambiciosa por isso. E eu também não fui. Faço um pouco de tudo, e a música sempre se manteve, a questão de tocar e de compor. Eu compunha com o Kiko, a gente era parceiro aqui, depois ele tocou a carreira dele, eu fui fazer as minhas coisas, mas a gente sempre se encontra. Gravei um disco na época, ele tinha acabado de gravar eu gravei, mas também não rolou, não fui atrás disso.

Marcelo – Você chegou então a gravar um disco?

Álvaro – Gravei, em 84, 85, uma música minha e do Kiko. Um compacto na época, na RGE, que nem existe mais. Tocou no rádio aqui, saiu tocando, mas não andou, não foi pra frente, aquela complicação. Eu também fiquei meio cabreiro com esse universo musical, tem que ser muito “punk” cara, muito doido para entrar nessa questão.

Marcelo – Mas o músico “volta” agora ou…?

Álvaro – O músico sempre existiu. Mas agora… Eu devia ter feito isso há muito tempo, porque gravar disco hoje é muito fácil. Eu tenho estúdio em casa. Aqui, dá para gravar um disco, com esse equipamento que vocês possuem. Dá para brincar, hoje em dia se faz isso. Só que eu gosto da coisa acústica, meu som é acústico, tem que ter a sala. Então devagarzinho eu vou fazendo, vou terminando, levei uns dois anos para gravar alguma coisa. Agora, eu tenho centenas de canções, uma atrás da outra. Você pega alguma e faz, então eu já fiz alguma coisa. Agora estou gravando, indo para São Paulo semana que vem. Então tem que terminar de mixar, no estúdio lá, correr atrás de uma distribuidora em São Paulo e começar a divulgar isso aí. E o que me incentivou mais, o que se fala “pô, já estou velho, tem que fazer isso”, não, isso é bom, não posso jogar fora, sempre foi bom. Então eu estou resgatando umas coisinhas, tem as novas, mas eu peguei umas que são de 86, 87, que falam “nossa, que legal!” Pô, eu fazia isso em 87, tem 30 anos quase! (risos) E que é o que a gente fazia aqui, se você escutasse a gente tocando naquela época. Porque houve uma lacuna aí nos anos 80 de gente muito ruim. Agora está voltando aí um pessoal maravilhoso, músicos fantásticos. A relação é muito forte. A gente tocava, fazia música e tal, mas éramos banda de rock´n´roll, tinha pegada. Porque o rock´n´roll você tinha que fazer funk! Funk que eu falo é Earth, Wind and Fire, não essa coisa que chamam de funk aqui. Funk James Brown, né. “Tu-tucutá, turu-tucutá”, funk! Então fazia isso, E a gente aprendeu tudo aquilo fazendo na mão, nunca estudou aquilo. Tocava de tudo um pouco. O Kiko é um compositor romântico fantástico, faz uma p… canção, mas ele vai mais pro pop rock né? Ele curte, liga a guitarra, é legal. Eu gosto também, eu tenho uma banda de rock onde sou guitarrista. E é rock´n´roll, a gente faz Bowie, Clash, Ramones, Cramps, só pauleira. E eu tenho essa banda hoje.

Marcelo – Qual é o nome?

Álvaro – A banda é do Johnny Monster. O Johnny Monster é do Daniel Beleza, do Corações em Fúria, que é um Iggy Pop de São Paulo, punk mesmo. Punk não, é rock´n´roll. Um pessoal da pesada.

Marcelo – E o novo disco?

Álvaro – Totalmente acústico. E agora, com um pouco mais de idoneidade, eu diria. Então é violão, percussão, trombone, violino e baixo no palco. Esse é o som, e a base da sonoridade. Mas tem rock´n´roll ali também, só que é feito assim. E gravado ao vivo, sem clique, gravado no “um, dois, três…” Separado, mas assim. Eu gosto mais disso. Eu prefiro porque acho que isso é mais difícil de fazer, e você precisa de muito cuidado, cara. Senão não aparece o que você está fazendo, estraga o que você fez. E eu achei legal, porque eu falei “vou gravar, porque está demorando, devia ter feito isso há muito tempo…” Me arrependo de não ter feito antes, porque até os anos 80 se falava “ah, já ouvi o seu trabalho em algum lugar”. Como eu não coloquei em lugar nenhum, você nunca ouviu. E poderia ter ouvido muito bem. Mas nunca há tempo perdido para essas coisas, mesmo porque a música, a música legal, ela é atemporal. Se você gravar “Águas de Março” hoje, ela vai arrebentar. O autor já está morto, mas se gravar hoje, pela primeira vez… (risos) Não estou querendo comparar a minha música com isso, estou dando um exemplo! Quem me dera! Senão eu era o cara, né. Agora, isso aconteceu porque eu tenho um amigo, um percursionista que mora na Europa. O arranjador desse disco que você estava falando, do Seu Jorge, é esse percursionista que toca comigo. Que é meu companheiro lá de Campinas, a gente era moleque e tocava lá, no barzinho, violão e percussão. Um excelente músico, quero trazê-lo pra cá quando ele vier em agosto, se tiver uma oportunidade.

Marcelo – Qual o nome dele?

Álvaro – Edmundo Carneiro.

Marcelo – Então, por favor!

Álvaro – Quando eu conseguir trazê-lo para fazer alguma coisa aqui em Ribeirão… Eu não sei se vai dar, agosto é muito em cima. Eu e ele, a gente faz o show. Ele era percursionista do Saint-German, que era a banda, gravou com Seu Jorge, Rei Lemar, Tânia Maria, Rosinha de Valença, Baden Powell, são músicos com quem ele tocava.

Marcelo – Tocam os dois juntos, só vocês dois?

Álvaro – Sim. Chamamos às vezes um baixo, trombone, mas a base é violão e percussão. Ele tem que vir, fica na minha casa e gente faz alguma coisa. Enfim, a gente sempre tocou. Por exemplo, uma coisa que eu me lembro, Ribeirão tinha um bar que se chamava Bar do Peru, que era na praça da Catedral. É antigo já. E eu me lembro que o Glauco, quando foi para São Paulo, para morar com o Henfil – já era “o” Glauco – ele fez o lançamento de um livro chamado “Minorias do Glauco”, foi o primeiro livro dele, e ele lançou aqui em Ribeirão. E quem fez o show do lançamento fomos eu e o Carneiro! E eu me lembro de um cartaz que ele fez, desenhou eu e o Carneiro tocando, “Lançamento ‘Minorias do Glauco’”. Eu tenho o cartaz até hoje! É muito bom. Lembro bem da gente tocando no lançamento dele. Percussão e violão, um microfone e pá! E todo mundo dançando, era bacana.

Marcelo – Tem músicos, eu vejo por freqüentar esse meio, tem muita gente boa, e principalmente nem os mais velhos, são pessoas jovens, 20, 25 anos, que tem um talento violento pra música. E que não estão aqui, foram embora!

Álvaro – Esse meu amigo, o Carneiro, ele tocou em Campinas, tocou no Catavento, o percursionista que tocou no antigo Catavento, era ele. Ele ganhava um dinheirinho para pagar o aluguel. Acabou o trabalho e ele foi tocar com a banda Metro, uns franceses, lá na Europa. A banda acabou e o cara continua lá até hoje, bicho. O cara é um gênio! E foi para a Europa, está lá ele, a mulher e o filho. Eu fui visitar ele, e ele tocando lá há muito tempo, falou “vem pra cá Álvaro!” E eu “putz, não vai rolar, alemão desse jeito, com essa cara, vou para a Europa, lá tem que ser preto, cara.” Os caras não vão nem no meu show. É um artifício isso, de você vender você na Europa. E eu sou cara de europeu, pô. Um swing, se eu fosse negão, eu estava rico lá. Que coisa louca que é o mundo, né. P…, que doideira. Aí fui pra lá, várias vezes já, visitei ele, morava, em Liusent na época, e toquei lá em um bar, Citeá de Paris. Casa noturna que a gente tocava, casa bacana, chique. Foi em… deixa eu lembrar… Você lembra quando o Paris Saint-German foi campeão?

Marcelo – Com o Raí? Foi em 94?

Álvaro – Foi em 98… 94, 98, foi por ali. Foi quando o Raí jogava lá. E eu fui lá para a França, visitar esse meu amigo, e minha mulher era alemã. Fiquei hospedado no meu amigo e fiz um show no Citeá. O Raí estava lá e, meu convidado, foi no show. O Raí foi lá e parou o show quando chegou. Ele tinha acabado de ganhar! Ele tinha ido para o São Paulo, jogou no Paris Saint-German e foi para lá, parou o carro em frente e foi. O Raí é muito amigo da nossa família. E foi no meu show, olha que figura. O Raí é um doce. E com aquele sotaque caipira de Ribeirão Preto, “cerrto?”, muito bom. E foi no show! Eu adorei, foi meu primeiro show na França, e foi um p… sucesso, legal pra caramba. Com banda, ensaiei lá, outro esquema. Aí passou um tempão, e em 2008 agora, dez anos depois, eu fui para lá visitar esse meu amigo e uma amiga minha, Maria de Medeiros, uma atriz portuguesa, fez um filme agora, chama-se “O Contador de Histórias”. Conheci ela aqui no festival de cinema em São Paulo, e ele é músico dela. Percursionista dela, que não abre mão dele. E ela representa a Unicef, sei lá, Onu, a mulher é fantástica, um doce de pessoa. E faz um show com cabaré, canta, é fantástica a Maria. Não tem tanta voz, mas é chiquérrimo o show dela, a presença de palco.

Marcelo – É necessária uma “repressão” para que surjam novos Chicos, novos Caetanos?

Álvaro – Não, eu acho que é necessário o questionamento. Se é por repressão ou não, aí eu não sou a favor de repressão…

Marcelo – Não por ser a favor, falo pelo contexto histórico…

Álvaro – Não falo que a repressão gere isso, não. Eu acho que o questionamento gera isso. A meditação, o estudo. Chico Buarque não é um Mané, não é, ele é filho do Sérgio Buarque. E também tinha talento. Ele podia não ligar para aquilo e ir jogar bola.

Marcelo – Não, claro. Mas imagine uma pessoa que quer absorver…

Álvaro – Aí acabou. Eu acho que é preciso o questionamento interno sobre tudo, entendeu, e acima de tudo talento. É como você falou, você descobre que tem talento. Aí você desenvolve, se não tem talento, esquece. A gente sempre fala isso, e é real. Porque eu conheço muito músico que estuda pra caramba, que é maravilhoso, ganha dinheiro, está lá na Europa, e não tem tanto talento, mas é extremamente dedicado. Show de bola. Agora, tem aquele que tem talento, e às vezes é um vagabundo.

Marcelo – E nunca vai ganhar dinheiro…

Álvaro – Porque talento não tem pré-requisito. Está aí o jogador Bruno (goleiro do Flamengo acusado de ter matado a ex amante Eliza Samudio) (risos). Talento não tem pré-requisito, não tem mesmo. Pega Zeca Pagodinho, o cara não tem pré-requisito, e ele “tum!”, ganha ali.

Marcelo – Vai dele querer ou não…

Álvaro – Vai dele querer ou não. Agora, eu acho que a dificuldade também gera. Por exemplo, você vê esse monte de gente que é talentosa assim, eu não gosto, mas eu não gosto enquanto preferência. Mas você pega Zezé di Camargo e tal, os caras são talentosos, vai dizer que não são? O cara tem a voz que é o cão! Eu odeio esse tipo de cão, mas é uma p… voz, canta, compõe dez músicas por dia. Arrebenta! Mas ralou muito, tem até o filme da vida dele.

Marcelo – E vai sair o 2! (risos)

Álvaro – Enfim, é legal que se documente isso, eu acho bacana.

Marcelo – O brasileiro parece que não tem muito essa cultura de ovacionar os próprios heróis. Até porque o brasileiro não tem herói…

Álvaro – Não tem. Você vê Jimi Hendrix, Michael Jackson, gente que ralou muito, cara. Muito. Então eu acho que essa questão é importante. Eu me lembro, como eu estava falando agora, o baixista lá, moleque que gravou comigo, tem vinte anos. Ele está indo para a Europa em outubro! Eu tenho que correr para fazer show com ele porque ele vai embora, é que nem jogador. Porque aqui ele vai fazer o que, cara, vai tocar onde? Ele vai tocar Djavan no barzinho da esquina? Que é o que o povo quer! Ele vai tocar sambinha, pra gente ficar enchendo a lata de cerveja e xingando? O que ele vai fazer?

Marcelo – É nesse ponto que eu falo que Ribeirão Preto ainda tem essa coisa cultural, nem que seja o contestador. Você vê dentro de Ribeirão a cena underground,vamos colocar assim, é extremamente rica.

Álvaro – Eu não sei, porque eu não estou freqüentando mais Ribeirão, eu venho para cá e fico só com a minha família. Não sei com está essa cena underground. Antes, era muito rica.

Marcelo – Ela era muito rica, teve uma decaída…

Álvaro – É, não sei com está agora, mas parece ser legal.

Marcelo – Você chegou a conhecer o Paulistânia? Ouvir falar?

Álvaro – Ouvi falar.

Marcelo – Ele é da cena underground. Tem ali outro, o Porão, são bares que são perenes. São undergrounds, e são bares que tem essa perenidade e são sustentados por essa cena.

Álvaro – E por esse público, né.

Marcelo – É, tem bandas aqui tipo Senhor X, a Necrofobia, do metal, que já tocou em shows com bandas como o Sepultura.

Álvaro – E Ribeirão ficou muito uma cena rock´n´roll, pelo que eu percebo.

Marcelo – Ficou bem punk, bem rock´n´roll, bem essa coisa metal. Só que até dentro disso, são bandas que se destacam. Teve gente daqui que foi excursionar pela Europa, do metal, para tocar em esperanto!

Álvaro – Fantástico isso. Você tem que manter o underground, é o mercado, é um segmento, falando de produto. Agora, culturalmente é muito importante. Todo esse submundo artístico sempre foi submundo no mundo inteiro (risos). Na França, nos Estados unidos, em Belo Horizonte, era um submundo ali.

Marcelo – Eu vejo isso como fermento.

Álvaro – Sim, e é isso que entrou com o regime militar. Acabando, matando. Porque o cara não estava lá falando em matar criancinha, estava falando em questionar. E era proibido questionar, entendeu? Mas tem que quebrar esses paradigmas, entender qual é o processo.

Marcelo – E você acaba não vendo algumas coisas. A primeira vez que eu fui, por amizade porque eu não acompanhava o metal até então… encontrei um guitarrista passando João e Maria, do Chico Buarque!

Álvaro – É igual a você ouvir Rolling Stones, e o batera tem uma banda de jazz. E o trampo dele, o outro, é o Rolling Stones! Eu acho isso fantástico. O Europeu valoriza isso. Como produto. Seu Jorge é um exemplo disso. E vários outros. Você falou da cena underground, eu lembro que, em 2008, conheci Maria e tal, fui tocar e passear na França e falei para ele (Edmundo Carneiro) ir ao show com a gente. Comecei a gravar com ele, falei “pô, você tá fazendo aquele som que a gente fazia há vinte anos atrás, porque que a gente nunca gravou? Vamos gravar! Está aí gravando até com Maria de Medeiros, Jorge Ben Jor… Pô, vamos fazer o que a gente já fazia.” E ele “tá bom, vambora.” E fizemos. Até aí tudo bem. Quando eu fui pra lá ele vendeu um show meu lá pro Favela Chic, o bar que lançou o Seu Jorge. Toquei lá. Pô, é fantástico, cara. Achamos um monte de amigos. Tinha quatro diretores italianos, amigos da Maria. Quer dizer, todos do cinema, senhores. Uma crítica lá, uma senhora, de cabelos brancos, assistindo ao show. E um público jovem, italiano, francês e tal, cara, para. Um americano, que estava “uau, que legal!”. Sabe, é outra coisa, foi uma delícia. Falei “cara, gostei, rolou”. Vou terminar o disco e vou lançar lá! E é uma coisa desse tamanho (fechando a mão). Entendeu, a pequena cena underground lá é onde o pessoal vai garimpar as coisas. É o que você falou. Hoje em dia, com a democratização da informação, ficou mais fácil. É mais fácil aquilo virar produto, isso eu acho uma coisa boa. Desde que haja conteúdo.

Pausa para um papo informal sobre a Copa…

Álvaro – E você sabe do que eu senti falta, abrindo um parênteses aqui? Eu não vi a África!

Marcelo – Sabe quem mostrou a África? Só a MTV.

Álvaro – Eu não vi a África na TV da Copa. Eu vi os estádios e eu vi a vuvuzela. Agora, a África tem ritmo, tem música, tem dança, é riquíssima no canto. O pessoal da África do Sul faz uma coisa de cantar… Quem mostrou a África muito mais do que a Copa do Mundo foi o Paul Simon, quando ele gravou com aquele monte de “Arumbaiê, Arumbaiô, Dumbaiê, Dumbaiô” Em cada esquina tem um grupo desses na África do Sul.

Marcelo – Aliás é essa a explicação do porquê da vuvuzela, né.

Álvaro – Eu achei que essa porcaria da vuvuzela é antimúsica, depois eu fiquei sabendo que tem uma igreja lá que vendia para todo mundo, tinha exclusividade.

Marcelo – Mas eu digo até pela sonoridade…

Álvaro – É um horror aquilo!

Marcelo – (risos) Sim, é horrível, mas…

Álvaro – Não, tira vuvuzela e bota outra coisa, eu fiquei imaginado que vinha aquele canto, “Aiê Aiá” (faz sons de percussão), batida do Congo, batida de não sei o que. E aí? “Fóóón!” A coisa mais horrível do mundo, isso é para japonês tocar.

Marcelo – Agora, voltando para a parte da cobertura, eu achei um absurdo isso. Cadê a África? Eles não fizeram nada! E o mais interessante, voltando agora para a democratização, é ver que tudo que está saindo nos jornais e na televisão não corresponde nem uma vírgula ao que as pessoas estão pensando.

Álvaro – Aí que é aquela questão. Bom, então agora eu vou fazer um programa à parte, porque se você entrar na Globo ou Globosat, serão essas pautas. Tem que criar um outro universo ali paralelo, correspondente à realidade.

Marcelo – Mas a Copa do Mundo de 2010 para mim foi a melhor Copa do Brasil, até hoje.

Álvaro –Mas você fala de futebol ou do que?

Marcelo – De tudo! Porque você mais do que ninguém, por estar nesse meio, entende qual foi o simbolismo disso, o #Calabocagalvao.

Álvaro – Ah, foi fantástica essa campanha!

Marcelo – E pior ainda, o #Calabocatadeuschimidt ter ultrapassado o #Calabocagalvao em 48 horas! Por conta dele ter tentado tumultuar em uma situação com o Dunga. E eu digo que foi a melhor porque foi a primeira vez que uma pessoa chegou para a Rede Globo e falou “aqui você não manda”.

Álvaro – Eu adorei isso. Voto a favor total do Dunga. Eu vi a entrevista, e o Dunga é um cara grosso, sempre foi, mas é o Dunga, p…! Eu falo para todo mundo que se ele fosse inteligente ele era o Mestre, e não o Dunga dos Sete Anões (risos). Mas enfim, o Dunga está certo, errou no jeito que escalou a seleção, mas o jeito dele é esse. Agora vem um jornalista e começa a fazer leitura labial, porque o cara não falou no microfone. Mostrando pro mundo inteiro o enfoque labial, que ele poderia com muita elegância falar o seguinte, “eu não vou mostrar isso, e a gente conversa à parte”. Mas o cara é da Globo, o cara é mais importante que o Dunga. Ali eu já fiquei muito p…, e dou dez para o Dunga. que falou “f…, ah, você é da Globo, estou c… pra você”.

Marcelo – E isso, para o imaginário da população, mostrou uma coisa que o grande público nunca imaginou. E só em uma Copa do Mundo, que é onde um povo que é completamente alienado para pra prestar atenção, foi ali que o pessoal começou a “Ahn, então é assim mesmo que funciona…”

Álvaro – Eu gostei desse negócio do Twitter, acho, o Tadeu Schmidt e os outros lá, os caras param e vão ver a opinião do povo. E o povo está todo a favor do Dunga! Então é aquele jornalista manipulando a informação, para o povo ficar contra, e este fala “você está sendo um manipulador, não está sendo um documentador”. E era pessoal!

Marcelo – Isso ainda vai ser estudado, certeza. O que o Dunga conseguiu fazer vai ser estudado!

Álvaro – Adorei isso aí. O #Calabocagalvao para mim foi a melhor coisa do mundo. Porque até então a gente não conseguia pegar o telefone e falar “cala a boca! Desliga o microfone desse animal!” Ao contrário, ele que desligava o microfone das pessoas, pedia para desligar. Um horror, um monstro esse cara. Mas como é que esse cara está sempre lá? Essa é a grande questão. Aí você vê que são outros caminhos que mantém o cara lá. Não é da competência, mas tem uma certa competência a qual ele cumpre. Agora não estou falando de jornalista (risos), é outra que eu não sei qual é. Porque o cara é um maleta, sempre foi. Mas enfim, e faz tempo que é, desde a Fórmula Um. Ele é um cara que veio da Fórmula Um, passando por cima das pessoas que entendem de Fórmula Um, ele não entende nada disso, quem entende é o Reginaldo Leme. Agora, como é que deixam ele fazer isso? Aí você entende que existem pessoas que sabem manipular muito bem essas coisas. Porque o meio de comunicação é cruel, sabendo manipular você arrebenta.

Marcelo – O Franklin Martins deu uma entrevista muito interessante para a revista Caros Amigos, logo que ele foi demitido da Globo, antes de entrar para o governo, vamos colocar assim. E ele utilizou a expressão “a era da pedra no lago acabou”, que é aquela coisa da opinião de um grupo ressoar nos demais automaticamente.

Álvaro – Aquela coisa que jogou e fez “hummm…” é, o Broadcasting acabou…

Marcelo – E agora se o patrão fala que vai votar em A, o empregado não vota em A, só se ele quiser.

Álvaro – A telecomunicação segue isso, né. E a Rede Globo é a grande culpada disso. O que mais me impressiona, aquela coisa que às vezes você até desiste, mas também dá força para continuar, são essas coisas de cultura e comportamento que a televisão dita. Eu falo da televisão porque ela é um veículo de massa, é o veículo com a maior penetração que existe. A televisão não acabou, pelo contrário, ela continua sendo cada vez mais suporte para essas mídias todas. “Ah, vai acabar”, televisão não acaba. Televisão agora está cada vez mais poderosa, porque eu faço televisão e mando pra você. Antes era a era da pedrinha no lago, mas ela está cada vez mais forte. Nunca vai acabar a televisão, porque ela dá suporte para as mídias. O #Calabocagalvao, é tudo mídia alternativa, mas por causa da televisão. Para comentar a televisão. Mas eu vejo essa questão… Por exemplo, quando você vê Brasil, eu estou gostando agora de filmes, mas também estou começando a cansar porque é só Rio de Janeiro, só favela, que os roteiristas vão atrás dessa questão cultural, que é para vender. Antigamente era pior, eu acho, porque era só nordestino louco, enlouquecido, psicopata no sertão. Era só assim, isso era Brasil. Que é lá do comecinho do século passado. Agora já está mais atual, mas é só favela também. Agora, o que é ruim na televisão é que, por exemplo, Rede Globo é que faz novela, e o resto vai atrás, certo? Então vamos fazer uma novela sobre Brasil, para conhecer o Brasil. O que é o Brasil? O Brasil é o Rio de Janeiro. O que é o regional? O Brasil. Vai fazer uma novela regional, bota uns caras falando meio caipira, e não sei o que. Mas não faz o Brasil, faz um regional.

Marcelo – E na verdade é o contrário…

Álvaro – Entendeu? São duas ou três famílias que fazem esse eixo Rio – São Paulo, e acabou. E ainda assim não é nem Eixo Rio – São Paulo, porque São Paulo é caricatura. Você vê novelinha falando de São Paulo, é tudo caricato, “Orra meu!” E o Brasil normal é o Rio de Janeiro! “Ah, estamos no Brasil”. E eles fizeram isso faz quarenta anos! Fizeram com que o Brasil seja o Rio de Janeiro, para o mundo. E o resto do Brasil é uma região (risos).

Marcelo – Então só para fechar, e a nascente?

Álvaro – A nascente é tudo. Eu penso sempre nisso. Não sei por que esses tempos eu ando pensando, eu sempre penso em nascente de rio, eu acho a coisa mais frágil do mundo, literalmente. Algo gotejando ali, tal e tal. E eu percebo porque eu vi de novo outra represa, vi ontem na televisão. Não é possível, uma represa, aquele rio enorme, aquele p… monte d´água, e vai e gera energia, e eu olhei e pensei “gente do céu, como é que pode um negócio desses?” E vai, e desvia o curso, e não sei o que, tem que estagnar, fazer uma barragem e tal. Como é que tem tanta água, como é que tem tanta força, como é que gera tanta coisa? É uma p… de uma nascente, para mim o negócio está ali, ali é que tem que ser cuidado, preservado. E eu concordo com uma professora de planejamento urbano que eu tive, ela falava assim na época, “com as leis que nós temos aí…” E eu vi em contrapartida a outra lei discutida, de quinze metros da mata ciliar… Esses bandidos desses ruralistas, p… bando de bandido, bandido! Entendeu? É f…! Eu comecei a pensar nisso, e em seguida o negócio da represa, do rio, da nascente, e não é possível, as pessoas não juntam uma coisa com a outra? Porque aquele p… de ruralista só vive por causa daquela p.. de rio, por causa daquela p… de nascente! Uma coisa que tem que ser tratada… Então eu me lembro da minha professora que falava assim, “é o seguinte, a solução é cercar tudo e não deixar entrar na nascente”. Não tem como, até ter uma lei melhor. Porque a lei só está piorando, todas essas leis. Então é aquela coisa, você fica deprimido de ver o cara atirar no próprio pé. De ver o cara falar que o seu Brasil é o Rio de Janeiro. Adoro o Rio, mas não é o Brasil. O país é muito maior do que o Rio de Janeiro. O Rio está incluído no conjunto Brasil. E o cara firma isso, e as pessoas compram isso. E assim vai. Eu fico chateado, daí penso na nascente. Aí você fica doido, e fala “vou lá visitar a nascente”, mas eu não vou visitar a nascente, porque se eu for lá posso estragar alguma coisa, entendeu? Nem vou, tem que cercar, não entra ninguém.

Marcelo – Deixa lá.

Álvaro – Deixa lá. Já visitei, uma vez fui visitar o Rio Tietê, na época que fazia arquitetura, aquelas espumaiada que acabou um pouco, Pirapora de Bom Jesus diminuiu, por conta da represa. Vinha aquela espumaiada, mas até hoje tem espuma de poluentes. Um pouquinho depois, o rio é maravilhoso!

Marcelo – Indo aqui para Marília a gente corta o Tietê…

Álvaro – Coisa mais linda, gente, que coisa legal. Como é que pode um rio sobreviver desse jeito? E vai, e sobrevive. Mas por causa da nascente.

Marcelo – E se não for a nascente…

Álvaro – Meu amigo, e é uma coisa desta tamanhozinho! Mas é aquela coisa da canoinha, vamos ali. Não é uma coisa de pensar pequeno, pelo contrário, é pensar grande (risos), muito grande.




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  One Response to “Álvaro Petersen”

  1. Adoro esta entrevista, sempre a releio! Quando será publicada a segunda parte?

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