jul 312010
 

Um anônimo no Quarteirão Paulista

O empreendedor

Doutor João Alves Meira Júnio

O Dr. João Alves Meira Júnior provavelmente era um homem inquieto. Somente isto poderia explicar o fato de ter exercido tantas ocupações diferentes ao longo de toda sua vida. Nascido em Piraí, no Rio de Janeiro, em 26 de setembro 1875, o Doutor Meira Júnior já era formado em Direito quando chegou a Ribeirão Preto. Foi advogado, delegado de polícia, político eleito para diversos cargos e empresário. Participou ativamente da vida econômica e política da cidade em uma de suas épocas mais prósperas, no começo do século XX, tempos áureos do ciclo do café e início da industrialização no município.

A Cervejaria e o Quarteirão Paulista

A Cervejaria Paulista surgiu em Ribeirão Preto, no ano de 1913, para exercer concorrência direta no ramo de bebidas à Companhia Antarctica Paulista, consolidada na cidade desde o século XIX. Suas instalações localizavam-se na rua Visconde do Rio Branco, esquina com a rua Barão do Amazonas. A nova cervejaria foi um projeto idealizado por um alemão chamado Hans Scherholz em conjunto com diversos empresários da cidade, entre eles o Dr. Meira Júnior, que assumiu o cargo de presidente da empresa. Mais do que uma companhia cervejeira de sucesso, a Cervejaria Paulista foi responsável por uma das mais importantes transformações na área central do município.

Em 1924, o empresário e fazendeiro Adalberto Roxo construiu o Palace Hotel em frente à Praça XV de Novembro, marco zero de Ribeirão Preto. Porém a especulação imobiliária e a crise do café, que começava a surgir e iria consolidar-se com a quebra da bolsa de Nova York em 1929, rapidamente desvalorizaram o hotel, que foi comprado pela Cervejaria Paulista em 1927. A companhia de bebidas comprou também os terrenos ao redor e deu início à construção do Quarteirão Paulista, um conjunto arquitetônico sem precedentes na cidade. O Palace Hotel foi rebatizado de Central Hotel, e sua fachada foi modificada para que pudesse harmonizar com as outras duas novas construções do conjunto, o Theatro Pedro II e o edifício Meira Júnior, prédio comercial que comportava salas de escritórios e uma confeitaria, batizado em homenagem ao ilustre advogado e empresário. O complexo foi inaugurado em 1930.

O Central Hotel encerrou suas atividades em 1992, e em 1979 o edifício Meira Júnior passou a abrigar o Pinguim II, segundo estabelecimento da famosa choperia da cidade. A própria Cervejaria Paulista fundiu-se com a Companhia Antarctica em 1973, dando fim à disputa entre ambas pelo mercado de bebidas e refrigerantes em na região de Ribeirão Preto. Hoje, além da própria arquitetura do Quarteirão Paulista, a memória do empreendimento está presente no Thetro Pedro II, que sobreviveu a um incêndio devastador e a diversas tentativas de demolição para construção de novos edifícios. Atualmente, tanto o teatro como os outros prédios do conjunto arquitetônico são patrimônios tombados, garantindo a sua permanência no coração da cidade.

Curto ciclo do aço

Em 1919, Cia. Força e Luz, Água e Esgotos de Ribeirão Preto, propriedade do engenheiro Flavio de Mendonça Uchoa, construiu uma Usina Hidrelétrica na confluência do Ribeirão Preto com o Córrego do Retiro. Três anos depois nascia a Cia. Eletro Metalúrgica Brasileira, instalada no bairro Tanquinho. Na presidência da Companhia, lá estava novamente o Dr. Meira Júnior.

Cadê a bengala?

A proposta da Eletro Metalúrgica era a exploração do ferro em todas as suas modalidades: obtenção do minério das jazidas da região de São Sebastião do Paraíso (MG); a transformação do minério bruto em ferro gusa e, posteriormente, em aço nos fornos elétricos de alta temperatura; a laminação do aço para uso comercial; a incorporação de estradas de ferro para o transporte do minério etc. A metalúrgica funcionava quase que inteiramente à base da eletricidade da usina, feito inédito para a época. No entanto, após a crise econômica de 1929 a empresa enfrentou diversas dificuldades para manter-se, e acabou fechando definitivamente suas portas em 1931. Apesar da curta duração, o empreendimento foi um exemplo de sucesso na “onda industrial” que Ribeirão Preto vivia na época.

Identidade

Um ilustre anônimo

Por anos e anos, o empresário esteve presente nas mais diversas esferas públicas e privadas do município. Como político, foi vereador por diversos mandatos, exercendo a função de Presidente da Câmara mais de uma vez. Também foi eleito aos cargos de deputado estadual, deputado federal e senador.

Foi também um dos maiores entusiastas e idealizadores da construção do Theatro Pedro II, um Theatro de Ópera como nunca havia sido visto no interior do estado. Logo, o então presidente da Cervejaria Paulista cedia o espaço do subsolo do teatro para os ensaios da recém formada Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, da qual tornaria-se o patrono. Não bastante, ele nunca deixou totalmente de lado seu escritório de advocacia, e por três vezes exerceu o cargo de presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Regional de Ribeirão Preto. Seu último mandato na presidência da OAB-RP foi interrompido por conta de sua morte, em 27 de julho de 1952.

O monumento em sua homenagem encontra-se na Praça XV de Novembro, próxima ao Edifício Diederichsen e ao Edifício Meira Júnior, onde hoje funciona a choperia Pinguim II. É uma estátua de bronze de corpo inteiro, retratando o doutor com a bengala em uma mão e o chapéu na outra. A bengala já foi furtada e substituída por três vezes, não estando mais presente nos dias de hoje. O marcante, porém, é a ausência há vários anos da placa de identificação, que dizia: “MEIRA JUNIOR NO DIREITO FOI UM BALUARTE DA JUSTIÇA NA POLÍTICA DIGNIFICOU A DEMOCRACIA NA INDÚSTRIA FOI UM DOS SEUS PIONEIROS”. Sem a placa, não há qualquer pista do nome nem da história do personagem imortalizado em bronze. O Dr. Meira Júnior permanece como um ilustre anônimo em pleno Quarteirão Paulista, ironicamente o mais significativo de seus legados para a cidade de Ribeirão Preto.

por Gabriel Monge

gabrielmonge@inconfidenciaribeirao.com

Fontes de Pesquisa

Documentos do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto

LAGES, José A. Corrêa. Ribeirão Preto – das Origens à Atualidade (CD-ROM). Ribeirão Preto: Heluany Dias Produções, 2004.

ROSA, L. R. O.; REGISTRO, T. C. Ruas e Caminhos: um passeio pela história de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: Padre Feijó, 2007.

 Leave a Reply

(requerido)

(requerido)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>