jul 072010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Os créditos iniciais imersos numa escuridão soturna, com o letreiro que surge vagaroso não apenas dita a cadência narrativa peculiar do diretor, como também seu modus operandi. Logo de cara parece que fomos jogados num teste psicológico. No decorrer da trama, tempo e espaço coexistem numa profusão de personagens, psiques e moralidades que encontram respaldo na geografia típica de um vilarejo alemão às vésperas de um grande evento mundial.

Narrado pelo ponto de vista do professor da comunidade (Christian Friedel na juventude e Emst Jacobi mais velho, com a narração), o filme coloca em cheque, a partir daí, a veracidade dos fatos que se desenrolam naquele universo fictício/real. O que sabemos é o que o protagonista sabe – ou ao menos tem noção. E é isso o que pretende o diretor e roteirista Michael Haneke (A Professora de Piano, 2001): apetecer a mente do espectador e forçá-lo a acompanhar toda a trama. A ele interessam as perguntas.

Conforme dizeres do próprio Haneke, uma resposta concreta é praticamente impossível de se estabelecer em um filme – diferente das questões. Dessa maneira é possível estabelecer um paralelo entre este seu novo trabalho e Caché (2005), também de sua autoria. Pelo viés da verdade obscura e a inconcussa elucidação improvável dos fatos, o diretor graduado em psicologia, filosofia e ciências dramáticas pela Universidade de Viena estabelece alguns de seus princípios dentro do vilarejo. Perfeita em teoria, essa aldeia longe da cidade e do resto do mundo na prática prova-se falha.

Os incidentes insolúveis, as rixas hierárquicas, a educação retrógrada, o conservadorismo das relações e a faceta moralista e tantalizante emergem entre nichos dentro de nichos de seres-humanos. Por piores que sejam as mazelas, somos nós os mais graves causadores de tais. Mesmo manufaturado numa estonteante fotografia em preto e branco, o quadro pintado por Haneke, que data do início do século passado, por fim nos mostra uma contemporaneidade contundente. É como a pureza simbólica da fita branca cujo nó se desata do nosso caráter.

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