jun 202010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Antes de começar a ler este texto eu lhe peço, por gentileza, que coloque seus óculos 3D. Sim, tudo está em três dimensões! Percebe as letrinhas dançando e sendo jogadas na sua cara? Olhe à sua volta, veja a sua mão, muito mais real, não acha? Bem, se você não compartilha de tal sensação, pouco importa, pois a indústria cinematográfica não está dando a mínima para a sua opinião. Avatar do James Cameron fez 2 bilhões de bilheteria nos cinemas e sua concepção foi matutada inteiramente para o 3D – ao menos é o que dizem -, então, a partir de agora, todos os filmes serão feitos da mesma maneira. Sim, pois se ele conseguiu esse montão de verdinhas, então a fórmula mágica finalmente foi encontrada. E se todo esse fuzuê for apadrinhado por diretores do calibre de Martin Scorsese, por exemplo, que disse este ser o caminho natural do cinema (ele inclusive queria o abominável Preciosa em 3D), então aí é que não há tempo a perder.

Aliás, por que pensar em toda a estrutura de um longa-metragem em três dimensões se é possível filmar tudo na maneira convencional – naquelas duas dimensões mesmo – e depois converter o material para o 3D? Tudo bem que o público vai ser enganado, já que estará pagando para assistir algo que não foi concebido em tal formato. Mas e daí? “Custa menos e é mais rápido”, devem pensar os astutos produtores. A câmera utilizada para realizar filmes no formato, hoje, é muito pesada, e engessa diretores da estirpe de Michael Bay (Transformers e mais outro tanto de desastres cinemáticos naturais) na hora de captar a ação com seu “estilo”, pois os malabarismos nas movimentações da câmera e na montagem ficam restringidos – é necessário um maior tempo entre um corte e outro para que o cérebro do espectador consiga processar a imagem projetada na tela.

Mas eis que surge uma opção, um Frankenstein, prole de uma orgia entre os Na’vis, a tridimensionalidade e nossos queridos e perspicazes produtores com suas massas cefálicas penianas: o filme será realizado com a câmera 3D para as cenas mais calmas, vulgo “dramáticas”, enquanto as sequências de ação serão feitas da maneira habitual e na pós-produção serão expostas aos “raios gamas” da conversão. Sinceramente, não sei o que vai sair disso tudo. A experiência de Avatar me incomodou, aqueles óculos em cima dos meus óculos de grau incomodavam ao ponto de eu ter que tirá-los durante a projeção para aliviar a dor. Alice no País das Maravilhas é insosso, não faz o uso devido da tecnologia, nem mesmo no que diz respeito à profundidade de campo, por isso sobreviveria facilmente na maneira convencional. E Fúria de Titãs, o qual eu ainda não assisti, foi convertido para o 3D às pressas, apenas em dois meses, para pegar carona no modismo e tem suscitado reações raivosas quanto a qualidade do trabalho. Será que a tecnologia cairá nas mãos de verdadeiros artistas e um dia estará a serviço de filmes mais autorais e intimistas? Por enquanto, a meu ver, tudo isso não passou de um estupro coletivo que Hollywood ocasionalmente promove em meio a muito black-tie e champanhe. Com o passar do tempo pode até se justificar – Scorsese já está realizando o seu “Preciosa” -, mas até lá eles continuarão a masturbar o cinema e a gozar na nossa cara, literalmente, em 3D.

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