mai 262010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Então, esses dias colocaram na rede, vulgo internet, quatro cenas de Shrek para Sempre e Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, dois dos filmes mais esperados para próxima temporada de lançamentos. Aliás, também saiu um making-of – espécie de documentário fajuto que, neste caso, serve como peça de publicidade – de Predadores e The Runaways, ambos vindouros no cinema. E caso você tenha perdido, dois novos cartazes de Os Perdedores e Tron: O Legado já foram distribuídos virtualmente – e, sim, eles ainda vão estrear. Pois é, uma extensa gama de materiais publicitários é despejada todos os dias neste aparelhinho eletrônico que você tanto utiliza, comumente conhecido pela alcunha de “micro”, ou computador, como desejar.

Seja uma cena de bastidores, um teaser, um trailer, uma enxurrada de fotos ou mesmo um sneak peak – uma olhadela -, não interessa: você provavelmente verá mais do filme antes do filme em si. É a pontiaguda faca de dois gumes da internet. Por um lado temos toda essa liberdade de expressão que ela provém, entre tantas outras e inúmeras características e benefícios, mas por outro existe informações em demasia que sufoca uma parte majoritária de leitores – e o pior: sem que eles tenham a consciência de que isso ocorre. Estou generalizando? Talvez. Mas o fato é que os sites de notícias de cinema, agregados aos fóruns de “discussão” (eufemismo para falta de educação e opiniões carentes do mínimo de embasamento lógico), ou mesmo um espaço para expor as opiniões deixado por estes veículos, fizeram – e estão fazendo – com que o leitor fomente um conceito precoce sobre um determinado filme. Ao ver uma foto ou qualquer outro elemento que faça parte da divulgação, o leitor já passa a decorrer sobre como o longa será ruim ou bom.

Tudo bem que antigamente (e com antigamente me refiro há uma década, mais ou menos) um pôster exposto no shopping ou um trailer visto no cinema também alimentavam a imaginação do espectador a ponto de ele querer ou não assistir o filme, mas é inegável que isso acontecia em uma proporção menos agravante. Percebam, inclusive, que quando falo sobre os dias de hoje eu utilizo o termo leitor para me referir ao espectador de outrora. Ora, qual o propósito de testemunhar um trailer pela primeira vez dentro de uma sala de cinema, que antes era cercado por um furor exasperante que preenchia nossos olhos e apertava a respiração por dois ou três minutos degustados vorazmente, se hoje eu posso ver o mesmo trailer em casa, com a bunda na cadeira e até mesmo pausar uma cena caso seja do meu agrado? Eu me lembro de ver o teaser (preste atenção: teaser, que é um pré-trailer, ainda) do Homem-Aranha, em 2002, se não me engano, no cinema, na sessão do terrível Alta Velocidade (aquele em que Sylvester Stallone posa de piloto de Fórmula 1, lembra? Não? Tudo bem, não é sua culpa) e voltar no dia seguinte com alguns amigos, na mesma porcaria de filme, só para ver mais uma vez o mesmo teaser e repetir a sensação do dia anterior. Isso acabou.

Eu não me recordo qual foi o último trailer sobre o qual debrucei meus olhos pela primeira vez em um cinema. Hoje, os artefatos publicitários que fazem parte da divulgação de um filme não passam disso: um brinquedinho distribuído individualmente, na porta de pixels da sua casa, onde você tem total controle e pode amputar, sem saber, todos os efeitos perceptivos necessários para a completa experiência de se assistir um filme. Sinto falta de tempos mais simples, quando eu ficava contemplando um pôster emoldurado na porta da sala de cinema, envolto por um vidro reluzente que o guardava em uma espécie de altar, transformando-o em um Deus a ser idolatrado tão embasbacadamente por nós, meros espectadores que alimentavam uma ânsia para conferir as imagens cinemáticas ilustradas por aquele pedaço de papel e cujo toque divino não era nada mais do que puro cinema. Me chame de conservador, purista, nostálgico ou o que for, mas quem disse que cinema é apenas assistir filme?

Página do autor: http://cinemorfose.wordpress.com/

  One Response to “Quem matou a áurea?”

  1. Eu concordo com vc em gênero, número e grau! Que saudades de estar numa sala de cinema e ver as novidades cinematográficas que os trailers nos proporcionavam.E aí ficava aquela espectativa do filme tão aguardando exibido no trailer em poucos minutos e que nos deixavam com mais ansia de vê-lo assim que entrava em cartaz… Bons tempos!!!

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