O Diederichsen rachado

 Posted by at 12:47 pm  Reportagens
mai 302010
 
O IR fechou. Obrigado à todos aqueles que fizeram parte.
Fim.

O Diederichsen rachado

* por  Marcelo Dias

Rachadura em diagonal

O Diederichsen está rachando. Verdadeiro emblema da cidade, ele dá sinais de desagregação de sua estrutura de mais de 70 anos, encontrados durante a tentativa de reforma da redação do Inconfidência Ribeirão. Descobriu-se um emaranhado de rachaduras por dentro e por fora da sala. Em uma breve caminhada pelos corredores, observa-se diversos pontos com o mesmo problema.

2º andar

Com maior visibilidade na parte frontal à Praça XV, um trinco vai do primeiro ao terceiro andar, e continua subindo. Reformas sucessivas em seu interior, com uso de maquinário pesado, podem ter danificado um dos maiores bens arquitetônicos do Estado.

Possíveis causas

Foram relatados diversos casos de obras internas que descaracterizavam e influíam nas atuais condições, como a suposta alteração em uma viga do prédio. Malaguti, locatário da sala 109 e há três anos no prédio, relembra o dia em que, voltando do cafezinho da tarde, encontrou diversos funcionários de uma empresa do ramo de fotografia no saguão principal. Preocupados, abandonaram as salas do primeiro andar porque o prédio estaria chacoalhando. Quanto à trinca que “orna” sua sacada, é taxativo: “Está aumentando.”

Segundo um dos funcionários do edifício, a “tremedeira” aconteceu durante a reforma da antiga choperia, para a locação da loja de calçados. “Fizeram um buraco para abrir porta entre as duas lojas, para um prédio que não tem nada a ver com este aqui. Na hora do estrondo, eu não estava, mas quando cheguei no dia seguinte, vieram me falar.”

Não autorizada

 

O silêncio da noite de 28 de outubro de 2009 foi interrompido quando, por volta das 20h, um forte estrondo chamou a atenção dos moradores e frequentadores locais para uma das obras em execução. O espanto foi maior quando um cidadão avistou ao longe um maquinário pesado nas antigas dependências da esquina das ruas Álvares Cabral e General Osório. Apressou-se em buscar em casa a câmera fotográfica. “Eu já estava indignado que tínhamos perdido um dos marcos da história de Ribeirão e agora estava assistindo a destruição do interior de um edifício”, disse a fonte.A reforma seguiu a portas fechadas, o que não impediu o morador de fotografar o estado da obra e o equipamento utilizado no interior edifício. A minicarregadeira é utilizada para remover pavimentações e nivelar o solo para receber nova camada.“Segui com um amigo para a lateral da loja na Rua Álvares Cabral e esperei até as portas se abrirem. Quando o funcionário levantou a porta de aço, corri e fotografei o interior da futura loja. Porém fui interrompido por um dos funcionários da obra, que arrancou das minhas mãos a câmera e me disse que aquela era uma obra particular, e que eu não poderia fotografar o local. Perguntou-me o que faria com as fotos e, sob tom ameaçador, disse-me que as apagaria. Respondi que não precisaria se preocupar em apagar nada. Chamaríamos a polícia e deixaríamos o delegado fazer isso. Com medo, ele devolveu a câmera. Naquele momento, não sabia o que faria com aquelas imagens, mas tinha certeza que um dia elas seriam úteis para a preservação da nossa história”. (por Will Parisi)

Sem autorização do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), houve várias intervenções no local ocupado pela antiga choperia, hoje tomado por uma loja de sapatos. Com as portas fechadas, ninguém viu as máquinas furando paredes e arrancando o piso – tudo o que não podia ser feito. O prédio é tombado desde 2005, de acordo com a Resolução Secretaria de Cultura – 33, de 8-8-2005. A pessoa apontada como responsável pela obra clandestina deixou a firma e o gerente de marketing insiste em querer perguntas por email, não proporcionando o acesso aos donos da loja de calçados.

O Condephaat

Buscamos informações com o Condephaat. Fomos bem atendidos e mal respondidos. Encaminhamos perguntas referentes ao tombamento, ao pedido de obras no edifício e ao que é passível de reforma sem autorização, além de como interpretar o artigo do tombamento. Não fica claro o que são considerados salões comerciais e se há a necessidade de autorização para reparos.

A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo não respondeu satisfatoriamente a esta questão. As demais foram respondidas de maneira confusa. Ora havia autorizações para obras, ora não havia. Fomos pessoalmente pesquisar na Secretaria. Marcamos a data, comparecemos, mas não obtivemos sucesso. Fora o processo de tombamento, não tivemos acesso a nenhum outro documento. Novamente na Assessoria, agora ao vivo, recebemos a informação de que deveríamos encaminhar, mais uma vez, um email com o pedido e as perguntas, que seriam então respondidas. Resumo: tirando o projeto de restauro, nada de pedidos.

De volta a Ribeirão, retornamos à administração do prédio. O administrador, nomeado pela Santa Casa de Misericórdia, expôs a situação. “O edifício é muito antigo. Os encanamentos estão enferrujados, rede de esgoto e água. Temos vazamentos em apartamentos. Eu não posso deixar do jeito que está. Não vou fazer um projetinho para trocar 40 tacos (do chão). Tem de haver bom senso, trazer o prédio na melhor ordem e na melhor beleza. Há uma coisa que é a lei e a coisa que é o correto. Eu desejo para o Antônio Diederichsen que ele fique para todas as gerações futuras. Como vai acontecer isso, se toda vez que eu quebrar a parede tiver que pedir para o Condephaat? Preciso comunicar para fazer alguma coisa boa? Tombar não é preservar, é deixar cair ao chão.”

Questionado sobre as obras realizadas, uma surpresa. Apresentou a autorização concedida ao Grand Hotel Diederichsen pelo órgão regulador para a reforma. Sobre os demais comerciantes que realizaram obras, declarou que não houve autorização. Quanto à loja de calçados, disse que foram acompanhados pelo arquiteto que elabora o projeto de restauração do edifício. “Essa transação (da choperia com a loja de calçados) foi feita pela advocacia da Santa Casa, não foi feita através de nós. Ali embaixo eu me eximo de declarações porque aquilo ali não foi feito com essa administração. Se você me pedir um contrato, eu tenho um porque pedi por fax”.

Já o arquiteto responsável pelo projeto de restauro de partes do edifício fala o contrário. Não teve qualquer participação. Somente uma recomendação ao engenheiro da obra para que elaborasse um projeto e requeresse a autorização do Condephaat.

A situação é preocupante. Autoridades e responsáveis não explicam nem resolvem o problema. A falta de capacidade e fiscalização do Condephaat, a necessidade diária dos locatários e o uso do jeitinho para tudo estão, pouco a pouco, minando um dos maiores exemplos do empreendedorismo ribeirãopretano.

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Diederichsen – A História

* por Gabriel Monge

Antônio Diederichsen era um empreendedor. Nascido em 1º de agosto de 1875, filho de Bernardo Diederichsen, proprietário da fazenda Morumbi na cidade de São Paulo, o pequeno Antônio foi mandado à Alemanha para terminar os estudos e aprender alemão. O pai não aceitava que o filho não soubesse o idioma da pátria natal dos Diederichsen. O garoto desdobrou-se em seus esforços para conseguir terminar os estudos um ano antes do previsto, com direito a uma festa de despedida, tradição entre os estudantes, mas que seu tio alemão não despendeu um centavo para bancar. Um de seus mestres sugeriu que vendesse sua coleção de selos, fruto das incursões infantis ao sótão do casarão na fazenda, e isto bastou para pagar a comemoração.

De volta à fazenda Morumbi, começou a trabalhar ajudando a cuidar da produção de chá e vinho da família. Mas uma discussão por causa do cigarro (o pai dizia ao filho que só poderia fumar por conta do próprio dinheiro que ganhasse, mas não aceitava que ele gastasse parte do seu salário para isso) fez com que Antônio desistisse da remuneração pela ajuda na fazenda. Quando uma praga assola as videiras da fazenda, prejudicando a qualidade e a venda do vinho, os Diederichsen decidem encerrar a produção da fazenda Morumbi. Bernardo utilizou o dinheiro poupado pelo filho para enviá-lo de volta à Alemanha, desta vez para aprender agronomia. Em dois anos o jovem retorna ao Brasil já formado, e com planos de vir a Ribeirão Preto para trabalhar junto ao seu primo Arthur Diederichsen. Na barca que fazia o trajeto Rio de Janeiro-Santos conheceu um conterrâneo de seu pai e amigo de seu primo: Francisco Schmidt. O Rei do Café impressionou-se com a sagacidade do rapaz e convidou-o para passar um tempo na fazenda Monte Alegre, já que seu primo demoraria algum tempo para retornar a Ribeirão Preto.

Arthur precisava de ajuda para administrar suas fazendas, e Antônio tinha toda a formação e a vontade para fazer o serviço. Foi mandado para Batatais para cuidar da fazenda Retiro do Desencanto, atacada por uma praga do café. Em menos de um ano, o café foi replantado e a fazenda reorganizada. Logo, o Retiro torna-se a única das oito fazendas de Arthur Diederichsen que não precisa de auxílio financeiro da fazenda central. Semanalmente, uma parelha de carros de boi percorria o trajeto São Sebastião do Paraíso-Batatais para escoar a produção de café através da estação ferroviária de Batatais. Antônio acompanhava os carros de boi a cavalo toda semana.

Logo uma nova praga surgiu nos cafezais da região, minando os negócios de Arthur Diederichsen e exigindo cortes de gastos em cada fazenda. Antônio propôs que o primeiro a ser cortado fosse ele mesmo, para minimizar o sufoco do resto dos trabalhadores do Retiro. Há quem diga que ele desentendeu-se com o primo nesta época. O fato é que Antônio retornou a São Paulo, e logo foi contratado pelo Banco Brasileiro-Alemão para fazer o levantamento das fazendas de propriedade da empresa. Nesta época, o Banco Construtor e Auxiliar de Santos declarou falência, e Diederichsen interessou-se pelo espólio dos negócios do banco falido na cidade de Ribeirão Preto, constituído por uma serraria, uma oficina mecânica e uma fundição. Formou então uma sociedade com João Hibblen, outro descendente de alemães estabelecido na região. A nova empresa de ambos, batizada de Antigo Banco Construtor (ABC), iniciou suas atividades em 1903, num barracão de zinco na esquina das ruas São Sebastião e José Bonifácio.

Conta-se que a empresa funcionava pontualmente das 6 da manhã às 21 horas, e que os funcionários, além de estarem obrigatoriamente prontos para o trabalho cinco minutos antes do início do expediente, não iam embora até terem guardado em seus devidos lugares todos os materiais que foram utilizados durante o dia. O patrão era rígido com a organização. Os negócios do ABC vão crescendo a cada dia, e em 1914 é construído um novo galpão na Vila Tibério. Posteriormente, naquele mesmo ano, uma inundação ocorreu na sede original, causando grande prejuízo e fazendo com que a empresa transferisse todas as atividades industriais para o novo galpão, permanecendo no centro apenas os setores comerciais do ABC. A eclosão da Primeira Guerra Mundial, porém, fez com que a sociedade se rompesse. João Hibblen era partidário da Alemanha na guerra, posição não compartilhada por Diederichsen. Este comprou então a parte do sócio, uma parcela em dinheiro e a outra em títulos a serem resgatados em seis anos. Porém, o estoque de mercadorias importadas da Alemanha trouxe um grande retorno financeiro ao ABC, e a dívida com Hibblen pode ser paga dentro de um ano apenas. Ao invés de atuar sozinho e soberano no comando da empresa, Antônio propôs sociedade aos seus empregados mais próximos e responsáveis, entre eles um jovem chamado Manoel Penna, que posteriormente se tornou um de seus amigos mais próximos. Os funcionários da empresa contavam que Diederichsen tomou esta atitude em acordo com os ensinamentos do pai, que ofereceu liberdade e uma soma em dinheiro a cada um dos escravos da fazenda Morumbi quando a adquiriu, tornando-os associados na produção de chá e vinho da fazenda.

O Antigo Banco Construtor estava envolvido em quase toda a atividade econômica em Ribeirão Preto, de oficina mecânica a materiais de construção, de equipamentos agrícolas à primeira concessionária de automóveis da cidade. Diederichsen foi um homem de visão, que compreendeu o potencial de Ribeirão Preto para além do café e da lavoura, como uma cidade voltada para a indústria, comércio e prestação de serviços. O auge deste seu pensamento empreendedor foi a construção do edifício Diederichsen.

Obra arquitetônica ambiciosa, o edifico Diederichsen foi o primeiro prédio com mais de três andares de Ribeirão Preto, e o primeiro edifício multifuncional do interior do país. Antônio compra o grande terreno existente na rua Álvares Cabral, entre as ruas São Sebastião e General Osório, ao lado do Quarteirão Paulista, juntamente com o chalé do falecido coronel Quinzinho da Cunha, que ali se encontrava. Entregou a proposta da obra a dois arquitetos italianos, Antonio Terreri e Paschoal de Vicenzo, e o prédio começou a ser construído em meados de 1934. Exaltando o progresso econômico e o prestígio que o empreendimento traria para a cidade, Diederichsen enviou um requerimento formal à prefeitura pedindo a isenção dos impostos prediais do edifício durante sua construção e durante os cinco anos subsequentes ao seu término. Durante aquele período, meados da década de 30, o Brasil e o Mundo começavam a se recompor da crise econômica de 1929. Ribeirão Preto ainda vivia os reflexos da depressão e da desvalorização do café, que diminuiu em muito o poderio econômico da cidade. Os negócios de Diederichsen, no entanto, mantinham-se em crescimento constante. O pedido não demorou a ser atendido.

A inauguração do edifício Diederichsen realizou-se no dia 20 de dezembro de 1936, em uma celebração que se transformou em homenagem ao empresário idealizador do projeto. O prédio, de linhas modernas e ousadas para a época, conta seis andares e um terraço, e sua fachada compreende todo o quarteirão da rua Álvares Cabral, com faces também nas ruas General Osório e São Sebastião. Sua estrutura é toda feita de concreto armado e tijolos fechando as paredes, além de muretas de alvenaria e um reforço de barrado de mármore na fachada. Os arquitetos italianos inovaram também ao introduzir a Art Déco no visual do edifício, notada principalmente nos ladrilhos decorados, no mármore das escadarias, nos vitrais e nos revestimentos trabalhados em motivos geométricos.

O edifício foi planejado de forma a ser multifuncional, com diversas atividades comerciais em seus andares, além de apartamentos para moradia. No térreo, lojas voltadas para a rua, tais como armarinhos, sapataria e lojas de roupas para senhoras, além de um restaurante “a preços módicos e populares” (como noticiou um jornal da época); a esquina da rua São Sebastião foi ocupada pela cafeteria Única, frequentada desde sempre por toda classe de gente, de empresários a engraxates; na outra esquina, da rua General Osório, o Snooker Pinguim, primeiro estabelecimento da famosa chopperia, sucesso tanto entre os barões do café quanto entre os boêmios e intelectuais da época; e finalmente, com entrada na rua São Sebastião, foi projetado o Cine São Paulo, uma sala de cinema ampla e confortável como não existia em Ribeirão Preto. O cinema manteve seu funcionamento até 1992, quando fechou suas portas e transformou-se em casa de bingo, atualmente desativada.

No primeiro e no segundo andar do prédio foram montadas salas comerciais, ocupadas em sua maioria por consultórios médicos e odontológicos até aproximadamente a década de 70. Hoje estas salas abrigam principalmente escritórios, chaveiros, ourives, salões de beleza, firmas de pequenos negócios e a redação do Inconfidência Ribeirão. O terceiro e o quarto andar são constituídos de apartamentos para moradia, cujo valor de aluguel foi delimitado a não alcançar preços inacessíveis, sendo voltados principalmente para a classe média. O quinto andar e a área do terraço foram reservados ao Grande Hotel, que encerrou suas atividades em 2007 e reabriu no primeiro semestre de 2010. O Grande Hotel era referência em sua época e recebeu diversas personalidades e políticos de passagem por Ribeirão Preto. Segundo uma das lendas da esquina da Única, Getúlio Vargas encontrava-se periodicamente com uma amante da cidade no quarto 512, tendo visitado várias vezes a cidade por conta deste affair. No terraço existe ainda um anfiteatro e havia uma área aberta, onde funcionava um bar e a área de lazer para os hóspedes do hotel. Porém, devido a um problema de infiltração por causa das chuvas, esta área precisou ser coberta com telhas dois anos depois da inauguração, em 1938, numa petição que o próprio Diederichsen encaminhou à prefeitura. Desvinculado do hotel, o terraço desde a década de 90 abriga ensaios de grupos de teatro de rua. Atualmente, o grupo Engasga Gato utiliza o local.

Antônio Diederichsen faleceu em 30 de setembro de 1955, e deixou em testamento o edifício Diederichsen para a Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto. O prédio foi declarado Bem Cultural e tombado pelo Estado de São Paulo em 2005, e desde então passa por uma série de estudos para se iniciar o projeto de restauração.

 

 

 




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  2 Responses to “O Diederichsen rachado”

  1. “E sempre foi assim, e sempre será. O novo vem, o velho tem que parar” (Mário de Andrade)
    Essa é a sanha do moderno. Consunsão. O mesmo moderno que edificou o prédio agora vem pô-lo abaixo.
    Certo está o Nelson: “os idiotas vão vencer pelo simples fato de serem a maioria”
    É isso aí, Ribeirão: chafurde no sopão, agora crocante, com pedacinhos do Diederichsen.

  2. Ola sou bisneto do Antonio. Muito bacana o texto. Vou postar no meu Face… Gostaria de saber se tem mais alguns artigos da familia Diederichsen. Abs

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